A agricultura e os regadios – José Mesquita Milheiro

A agricultura e os regadios – José Mesquita Milheiro

A agricultura mediterrânea dos nossos dias resulta de uma história de milhares de anos, através da interação entre pessoas e condições edafoclimáticas existentes ao longo dos anos, sendo a existência da água uma componente determinante. Na antiguidade, ao mesmo tempo que se iam melhorando as técnicas de mobilização dos solos, também as técnicas de regadio se iam aperfeiçoando. Nilo, o rio sagrado do Egipto, através das suas técnicas de rega foi ao tempo, o grande protagonista da civilização.

Pretendemos demonstrar que a importância da água e dos regadios, na zona mediterrânica, já vem de longe. O desenvolvimento e a sustentabilidade da agricultura nos países meridionais passam pela implementação de regadios. Neste mundo global (OMC) onde os produtos transitam com muita facilidade por todo o mundo, temos que concorrer, em termos de custos, com regiões onde, devido ao seu clima, não necessitam de regar para obter produtividades iguais ou superiores às nossas. Está aqui instalado um grande conflito que envolve todos os países mediterrânicos, acerca da disponibilidade de água para a agricultura, chegando a ser um assunto de forte confrontação política e social, dado que os agricultores, por um lado, precisam de mais recursos hídricos para produzir a preços concorrenciais, e por outro lado, também é verdade que em termos sociais existe forte pressão no sentido de reduzir ou evitar o excessivo uso da água, devido às alterações climáticas, contribuindo assim para a preservação do planeta.

A emissão de gases com efeito de estufa conduzirá, muito provavelmente, a um aumento da temperatura global de cerca de 2ºC nas próximas décadas. O sector agrícola, dado que depende muito do clima, necessita urgentemente de um estudo de impacto para avaliar a sustentabilidade dos diversos métodos e técnicas de produzir, nomeadamente, quanto à utilização das diversas variedades de sementes, métodos de produção, épocas de sementeira, mudanças no padrão das culturas, etc.

Como se pode verificar nos gráficos, os países mediterrânicos necessitam de mais regadios devido à distribuição das chuvas ao longo do ano. Nesta zona do globo e como as chuvas estão mais concentradas nos meses de inverno, no período do verão e de altas temperaturas há escassez de água. Água que poderia ser armazenada nos meses de inverno (onde ocorre maior precipitação) através das barragens e dos regadios.

Parece nos perfeitamente justificável e imperioso que os agricultores exijam mais investimentos em projetos de regadio coletivos, nomeadamente a concretização do regadio a sul da Gardunha e a integral conclusão do regadio da Cova da Beira-Gramenesa e margem direita do rio Zêzere, assim como a recuperação de dezenas de regadios tradicionais.

José Mesquita Milheiro

Presidente da Associação Distrital dos Agricultores de Castelo Branco

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