2ª Parte | Fito-Entrevista a Nuno Russo

2ª Parte | Fito-Entrevista a Nuno Russo

A sanidade vegetal e a sua importância na defesa do ambiente e desenvolvimento económico bem como as medidas de apoio a jovens agricultores marcaram a entrevista de Nuno Russo, Secretário de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural, ao blogue Fitosintese. Relembre a 1ªparte desta interessante conversa aqui.

6. Conhecida a abordagem da UE em não renovar um número significativo de produtos para a Proteção das Culturas, sem soluções alternativas imediatas, como pensa o Ministério defender as necessidades do Sector produtivo perante a imprevisibilidade do aparecimento de novas pragas e doenças, num contexto de Emergência Climática?

A nível internacional, são desenvolvidas normas técnicas que visam a proteção das plantas, garantindo um comércio global de vegetais e produtos vegetais, prevenindo, por via desse comércio, a dispersão de pragas e doenças para novos territórios.
Neste domínio, Portugal, esteve na génese do primeiro acordo internacional, assinado em 1881, visando, na época, estabelecer normas para se evitar a dispersão da filoxera, que dizimava as vinhas nacionais e europeias.

Também a nível da União Europeia, está estabelecido um extenso acervo legislativo que incide sobre a prevenção, controlo e erradicação de pragas e doenças das plantas, e em áreas tão distintas, como os controlos fitossanitários nas fronteiras, na atividade de produção e comercio de plantas e sementes, na vigilância fitossanitária de áreas agrícolas, florestais, parques e jardins urbanos, na certificação fitossanitária de frutos, legumes, madeiras e outros produtos vegetais para exportação e na disponibilização de meios de luta para as pragas e doenças, designadamente de produtos fitofarmacêuticos assim como o seu uso sustentável.

São crescentes os desafios atuais; o movimento crescente de bens e pessoas que potenciam a deslocação de pragas e doenças e as alterações climáticas, originam riscos acrescidos de entrada e estabelecimento de pragas e doenças emergentes e também o ressurgimento de outras já existentes no território. São, portanto, grandes os desafios que se colocam aos nossos agricultores, à manutenção da sua sustentabilidade, garante da fixação das populações nas áreas rurais, à disponibilidade de alimentos e ao crescimento das nossas exportações do setor agroalimentar. No entanto, o reconhecimento da necessidade de dispor de formas mais eficazes de proteção fitossanitária, não pode comprometer objetivos que devemos prosseguir na salvaguarda do Ambiente e da saúde do Homem e dos animais.
Somos assim chamados a criar formas mais sustentáveis de proteger as plantas, utilizando os produtos fitofarmacêuticos de forma sustentável, apostando na proteção e produção integrada das culturas e apoiando a investigação e a inovação neste setor.

7. A Anipla fez um inquérito, em colaboração com a Universidade Católica, onde concluiu que 93% dos portugueses desconhece que a produção alimentar terá de aumentar 60% até 2050 para responder às necessidades da população mundial. Como tornar percetível à opinião pública urbana a urgência desta exigência social? Como pode o Ministério da Agricultura dar o seu contributo nesta missão?

Nesse mesmo estudo, a população portuguesa vê nos produtos fitofarmacêuticos um aliado da produção agrícola, e que sem o uso de produtos fitofarmacêuticos mais de metade das culturas mundiais podem ser perdidas anualmente, devido a pragas e doenças das culturas.

“No que concerne ao conhecimento dos portugueses sobre o papel dos produtos fitofarmacêuticos, o estudo elucidou que 85% dos indagados reconhece que estes produtos químicos são concebidos com o objetivo de proteger as plantas das influências prejudiciais, incluindo insetos nocivos, infestantes, fungos e outros parasitas”.

Contudo, ao nível das políticas de agricultura e desenvolvimento, é possível promover a introdução de novas tecnologias e inovação que assegurem a otimização dos recursos naturais e potenciem a produtividade agrícola de forma sustentável, através da investigação e experimentação que se traduza por exemplo, em melhoramento genético, de plantas e animais, que permitam assegurar plantas mais resistentes a doenças e pragas e animais com menor impacto nos GEE.
Por outro lado, é fundamental a promoção de atividades agrícolas e pecuárias que contribuem para a segurança alimentar e soberania alimentar do nosso país, e desta forma é essencial que esta matéria seja do conhecimento de toda a população, e que os consumidores urbanos saibam que a alimentação portuguesa e europeia é segura, nutritiva e de elevada qualidade.
O futuro Pacto Ecológico Europeu e a estratégia “Do prado ao prato”, contribuirão para cidadãos mais bem informados, sistemas de produção mais eficientes e regimes alimentares saudáveis e redução do desperdício alimentar.

8. Que medidas pensa o Ministério vir a tomar para rejuvenescer a faixa etária dos Agricultores e atrair os jovens para o sector agrícola?

Os Pagamentos Diretos e PDR2020 constituem os principais instrumentos de política que, de forma articulada, permitem aumentar a atractividade do setor agrícola aos jovens. No âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural, , é atribuído um prémio à instalação de Jovens Agricultorese o investimento na exploração agrícola a jovens agricultores também pode ser apoiado pelo PDR. No âmbito da PAC pós2020, o novo modelo de prestação proposto pela Comissão e ainda em discussão constitui uma oportunidade, tendo em conta o maior grau de subsidiariedade que o Estado-Membro poderá ter na definição das regras de aplicação da futura PAC, para melhor adequar e articular os diferentes instrumentos de política no sentido de fazer face aos desafios que os jovens enfrentam.

A PAC pós-2020, terá em conta os principais constrangimentos que condicionam a primeira instalação de jovens no setor agrícola: o acesso à terra e ao acesso ao crédito, onde contempladas propostas medidas facilitadoras, veiculadas através de instrumentos financeiros específicos, assim como no acesso ao conhecimento.
Assinala-se como positivo o interesse crescente no setor agrícola que se verifica por parte dos jovens, com espírito empreendedor, qualificação técnica e capacidade de inovação. Neste âmbito é importante assinalar a importância dos apoios à instalação, dos apoios ao investimento e da facilitação de acesso aos serviços de aconselhamento para permitirem ao jovem agricultor ultrapassar dificuldades específicas com que se defronta durante os anos iniciais, assegurando a sustentabilidade e perenidade da sua exploração.

9. Qual a posição do Ministério sobre a questão da falta de água no Tejo? Portugal para além de vir a renegociar a Convenção de Albufeira com Espanha que outras medidas estratégicas na sua opinião devem ser tomadas?

A matéria em causa é da competência da Agência Portuguesa do Ambiente.

Contudo, e após a recente mobilização da sociedade civil em torno de um projeto de desenvolvimento hidroagrícola para o Vale do Tejo, importa agora densificar os estudos em torno de uma avaliação global, em todas as suas vertentes, que permita dotar a administração da capacidade de avaliação necessária a uma decisão sobre a matéria.

Entretanto, a Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) já assinou o Termo de Aceitação da candidatura a que respeita o estudo do Projeto Tejo e irá proceder, brevemente, ao lançamento do concurso para o estudo em causa.
Estudos esses, que servirão de base para a avaliação do potencial hidroagrícola do Vale do Tejo e Oeste através do regadio, com a consequente avaliação das soluções técnicas a adotar para a captação, armazenamento, transporte e distribuição de água, de forma tecnicamente adequada, ambientalmente sustentável, economicamente viável e socialmente justa.

O artigo foi publicado originalmente em Fitosíntese.

Comente este artigo
Anterior Governo. Portugal deve posicionar-se como bom fornecedor de hortícolas
Próximo How speech recognition techniques are helping to predict volcanoes’ behaviour

Artigos relacionados

Últimas

Na celebração dos 264 anos da região demarcada do Douro, IVDP distingue projetos inovadores

A excelência dos vinhos do Porto e Douro foi celebrada na 7.ª edição do Port Wine day, evento promovido pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I.P. (IVDP), que contou com a presença […]

Últimas

Governo decreta situação de crise energética

[Fonte: Governo] O Conselho de Ministros declarou a situação de crise
energética
, para o período compreendido entre as 23h59 de 9 de
agosto de 2019 e as 23h59 de 21 de agosto de 2019, […]

Últimas

Tem mais de 100 galinhas poedeiras? Conte-as. Tem de as declarar em Fevereiro

A DGAV – Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária relembra que, no mês de Janeiro, decorre mais um período obrigatório de Declarações de Existências de Galinhas Poedeiras. […]