Vindima curta no Douro fez segurar preços, nos Verdes criticam-se as limitações

Vindima curta no Douro fez segurar preços, nos Verdes criticam-se as limitações

Produção total esperada é de 3% abaixo de 2019 no país, mas, no Douro, há áreas com quebras de 30 e 40%. No Minho há mais vinho, mas a certificação está restrita.

Em junho, quando os produtores começaram a pensar a vindima, o cenário era quase catastrófico. As vendas de vinhos estavam ainda com quebras muito acentuadas, fruto do confinamento e do estado de emergência, e as adegas cheias de vinho e sem mercado para o escoar. Agora, terminada a colheita das uvas nas maiores regiões, tudo indica que o cenário será bastante mais positivo. No Douro dá-se graças por uma produção curta, que permitiu não baixar o preço das uvas ao viticultor, sendo que a aprovação, pelo Governo, da reserva qualitativa de 10 mil pipas de vinho do Porto, também ajudou. Nos Verdes não falta quem critique a decisão tomada em julho de limitar o rendimento máximo por hectare na vindima, considerando-a “extemporânea, injusta e assimétrica”.

A crítica parte da Aveleda, o maior produtor da região dos Vinhos Verdes, onde conta com mais de 400 hectares de vinha já plantados. António Guedes, co-CEO da empresa, considera que a decisão foi tomada “precocemente e de forma quase irracional”, fruto de um “certo pânico”, numa altura em que as vendas de Vinho Verde caíam apenas 2%. “Se se tivesse tido calma e esperado pelo fim da vindima, nada disto seria necessário. Ao dia de hoje, a região está a crescer 6%”, diz António Guedes, sublinhando que a categoria Vinho Verde “resistiu muito bem ao cenário covid”.

Para este responsável, a decisão de limitar o rendimento máximo permitido para a produção de vinhos com direito a denominação de origem, tomada pelo Conselho Geral da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, “prejudica os melhores viticultores da região, aqueles que mais produzem e que mais investem”. Recorde-se que as previsões de colheita no Minho, do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), apontam para uma vindima de 890 mil hectolitros, 9% mais do que no ano passado.

Presente também no Douro, na Bairrada e no Algarve, a Aveleda está desde agosto em vindimas. O grande desafio, neste ano, foi “garantir que ninguém aparecesse infetado”, mas a maioria das suas uvas, com exceção das que se destinam a vinhos premium, designadamente no Douro e na Bairrada, são hoje colhidas de forma 100% automatizada. “Arranjar mão-de-obra é um problema estrutural. Neste ano, talvez se tenha sentido um pouco menos, mas a tendência é para piorar”, garante António Guedes.

Com 400 hectares de vinha, a Aveleda precisaria de 80 pessoas por dia, durante mês e meio, para fazer aquilo que consegue, com as máquinas – cada uma faz o equivalente a 60 pessoas -, num mês e com uma equipa de 15 a 20 pessoas. A empresa pretendia chegar aos 600 hectares de vinha até ao final de 2020, mas assume que este é um “objetivo dinâmico”. Até porque em Cabração, Ponte de Lima, onde tem, ainda, mais 100 hectares para plantar, “está tudo bloqueado” por causa do projeto do lítio.

Para já a aposta está na expansão da adega, nos Verdes, com um projeto modular, à medida das necessidades dos próximos 20 ou 30 anos, e que, nesta primeira fase, que estará pronta em 2021, implica um investimento de três milhões de euros para um aumento de capacidade de dois milhões de litros.

Já no Algarve, onde deveria arrancar, em março, a construção do projeto de enoturismo na Quinta Morgado da Torre, em Alvor, no valor de 2,2 milhões, com uma adega e um centro de atendimento a turistas, a empresa está, ainda, a decidir se avança já ou se adia o projeto por um ano, por causa da covid-19, lembrando que o Algarve foi a região mais castigada em termos de quebra turística. A decisão será tomada em breve, garante António Guedes.

Sobre as vendas de vinho e o efeito da pandemia, este responsável admite que as prestações foram “muito assimétricas”, dependendo dos canais de distribuição e do posicionamento das marcas. As premium foram as que “sofreram mais”, pela falta de turismo e pelas restrições imposta à restauração. Já os vinhos mais mainstream estão a crescer no retalho, com as famílias a substituírem o consumo na restauração por consumo em casa.

“Continuamos a perder vendas em Portugal, na exportação, a diversificação de mercados e de canais de distribuição, ajudou”, admite o co-CEO da Aveleda que fechou 2019 com 19 milhões de garrafas vendidas e uma faturação de 38,5 milhões de euros. “No total, estamos a crescer 2 ou 3%, o que não é relevante, mas, para o ano que foi e para o que eram os primeiros sinais pós-covid, acaba por ser muito interessante”, admite António Guedes, que destaca o “excelente trabalho” das equipas da Aveleda no acompanhamento aos clientes e na” mudança de paradigma para um contacto digital, que acabou por dar os seus frutos”.

Douro com quebra

No Douro, a quebra de produção estimada, em julho, era de 20%, mas, concluída a vindima, há áreas e parcelas onde chegou aos 40%. É o caso do Cima Corgo, sub-região duriense onde fica a Quinta de Ventozelo, da Gran Cruz. Jorge Dias, diretor-geral da empresa, fala numa quebra geral da ordem dos 30%, “o que é uma brutalidade”, diz. A qualidade é “muito variável”. A verdade é que, em ano de pandemia e com as adegas cheias, esta baixa produção acabou por ajudar a sustentar o preço ao produtor, mantendo os valores do ano passado: em torno dos mil euros a pipa de vinho do Porto, e entre os 300 e os 400 euros no vinho do Douro (cada pipa leva 550 litros cada). “Temos sempre pena de haver poucas uvas, mas em termos de equilíbrio da economia regional, não é tão mau como isso”, diz.

O vinho do Porto, aquele que mais contribui para a economia local, será todo feito. São as 92 mil pipas que as empresas admitiam precisar este ano, mais as 10 mil pipas em regime de reserva qualitativa e que serão introduzidas gradualmente no mercado nos próximos 10 anos. No vinho do Douro, o facto da produção ser curta permite atenuar os danos. “O acordo no interprofissional, juntamente com as medidas tomadas pelo Governo, designadamente com apoios à destilação de crise, acabaram por permitir fazer uma vindima relativamente tranquila. Com o senão da produção ser muito baixa, por causa das condições climatéricas, mas que acabou por ajudar. No cômputo geral e para o equilíbrio do sector, acabou por não ser tão mau quanto se esperava”, afiança Jorge Dias.

Mas, em ano de covid-19, foi uma vindima ainda mais exigente do que o habitual, obrigando ao cumprimento de todas as normas para garantir o necessário distanciamento social. “Seria muito complicado ter um surto numa adega, porque as vindimas não podem parar. Felizmente já acabaram e passámos incólumes”, diz Jorge Dias. A tradicional pisa a pé, tão do agrado dos turistas, continuou neste ano a fazer-se no Douro, apesar da covid-19, mas a Gran Cruz optou por não a fazer, substituindo-a exclusivamente pelos robôs. “Pareceu-nos mais prudente, de elementar bom senso, para garantir a segurança dos nossos colaboradores”, defende.

Com vendas anuais da ordem dos 30 milhões de garrafas, a Gran Cruz espera fechar o ano com uma quebra “ligeiramente abaixo dos 10%”, embora com comportamentos distintos nos vários segmentos de produtos e marcas. “Tudo o que está ligado ao turismo é um desastre”, lembra o empresário. Não admira, por isso, que as vendas totais de vinho do Porto em Portugal que, nos últimos anos, se transformara no maior mercado deste vinho licoroso, estejam a cair 40%.

Alentejo “excecional”

No Alentejo, onde as previsões de colheita do IVV apontam para uma produção de 1,046 milhões de hectolitros, 5% acima de 2019, a Quinta do Paral espera uma campanha equivalente à do ano passado, mas de “excecional qualidade”. Esta é uma propriedade comprada, em 2017, por Dieter Morszeck, neto do fundador da malas de luxo Rimowa, um apaixonado por Portugal, e que decidiu investir num projeto de vinhos de quinta e de enoturismo de luxo, na Vidigueira. Luís Morgado Leão é o enólogo chefe e o braço direito do empresário alemão na Quinta do Paral, que investiur oito milhões na ampliação da adega, que estará pronta no final do ano, e na recuperação do solar da propriedade, cuja história remonta, pelo menos, a 1703, para a construção de um hotel de luxo, que estará pronto na primavera de 2022.

Com 33 hectares de vinha numa área total de 85 hectares, espaço para crescer é o que não falta. A produção ronda 120 a 150 mil garrafas, mas com capacidade para duplicar, o que estava previsto para daqui por cinco ou seis anos. A covid-19 veio “atrasar as contas”. A quinta exporta 60% do que produz, para mercados como a Alemanha, Bélgica, Suíça, Canadá e Macau, mas, este ano, as perdas têm sido substanciais, atendendo ao posicionamento dos vinhos da Quinta do Paral, que só estão disponíveis na restauração, quer em Portugal quer no estrangeiro. “Nos primeiros dois meses do confinamento tivemos quebras de 98%, depois melhorou um bocadinho e os últimos meses já foram melhores”, diz Luís Leão. Tanto que a marca está “prestes a fechar” vendas para novos mercados, como os EUA, Brasil e Japão.

Apesar das dificuldades, a Quinta do Paral nunca parou, não mandou nenhum dos seus 10 trabalhadores para lay-off nem aderiu aos apoios à destilação ou ao armazenamento disponibilizadas pelo Governo ao sector. “Para o nosso tipo de vinho, para a nossa qualidade, não eram medidas de forma alguma tentadoras. A nossa produção é de gama média-alta, são vinhos que precisam de tempo de estágio, não estamos aflitos para vender”, garante.

6,3 milhões de hectolitros

É a produção total esperada para a campanha de 2020/2021 em Portugal, o que representa uma quebra de 3% face ao ano passado

O artigo foi publicado originalmente em Dinheiro Vivo.

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