Trocou o vinho pelas flores e quer quebrar estereótipos e preconceitos através da “agricultura de afetos”

Trocou o vinho pelas flores e quer quebrar estereótipos e preconceitos através da “agricultura de afetos”

“Onde desabrocham as flores e a esperança” é o slogan do novo projeto de João Drumonde Ornelas que deixou mais de 20 anos dedicados à viticultura e à enologia e dedica-se agora à produção e design floral.

É natural da ilha Terceira, de onde saiu aos 23 anos com regressos a casa regulares. A vida profissional obrigou-o a viver grande parte da vida fora dos Açores em cidades como Lisboa, Braga, ou Viena d´Áustria. Licenciou-se em Engenharia Agrícola, fez mestrado em Viticultura e Enologia e doutorou-se em Fitotecnia. Dedicou-se durante 4 anos ao estudo das leveduras autóctones das vinhas dos Açores e é autor de diversas publicações científicas nessa área, onde, adianta “há muito trabalho importante por continuar”.

Açoriano Oriental – Qual era a sua carreira profissional até abraçar este projeto?

João Drumonde Ornelas – A minha atividade profissional até aqui tinha sido sempre ligada à viticultura e/ou enologia, essencialmente nas vertentes da investigação científica e experimentação. No momento em que dei início a este projeto, era professor convidado na Universidade dos Açores, onde lecionava as cadeiras de Agroecologia, Hortofloricultura, Fruticultura e Viticultura.

AO – Em que consiste a “Drumonde Ornelas – Agricultura de Design Floral”?

JDO – Chamemos-lhe projeto, embora se trate, acima de tudo, de um modo de vida, onde a minha profissão se confunde comigo. A ideia surgiu quando, por motivos familiares, regressei aos Açores. Quando o meu pai deixou de poder trabalhar a terra, decidi dar uso a alguns terrenos que, caso contrário, estariam incultos, por não permitirem trabalho mecanizado. Logo por aí se pode perceber que há uma forte componente afetiva na génese deste projeto, e que lhe é transversal. É por isso que considero que aquilo que faço é agricultura de afetos. E se assim é, as flores são a escolha natural. Recuperámos o cultivo de algumas espécies bastante comuns nos jardins de outrora, como as sempre-vivas, e trabalhamos desde a sementeira até à jarra. Acredito que a emoção de receber uma flor germina com ela, da mesma semente. Em coerência com isso, o cultivo destas flores só poderia ser feito, tanto quanto possível, de acordo com os princípios da agroecologia. Sabemos que a poluição é algo inevitavelmente associado à atividade humana. Poderá ser reduzida, evitada, mas dificilmente eliminada por completo. No entanto, há áreas em que não se justificam elevados níveis de poluição. E a floricultura é uma delas. Muitas das flores que nos são comercialmente propostas, e das quais nos habituámos a gostar, têm já muito pouco de natural. Trata-se de variedades altamente selecionadas, visando o lucro, nas quais características tão importantes como o aroma muitas vezes se perderam. Todos conhecemos a desilusão de levar uma rosa ao nariz e não cheirar a nada (na melhor das hipóteses) ou a pesticidas (na pior delas). São normalmente flores que cresceram em estufas, com recurso a grandes quantidades de químicos. São muitas vezes importadas de países onde os direitos dos trabalhadores não são respeitados. Chegam até nós de avião, em viagens poluentes, depois de terem estado durante dias, ou semanas, em câmaras frigoríficas. No fim deste longo processo, quando as compramos, têm um tempo de vida muitíssimo limitado.

Ora, as flores são sempre colhidas, compradas e/ou oferecidas com boa intenção. Elas transportam consigo mensagens positivas, de gratidão, conforto, alegria ou reconciliação. O que acontece é que, na maioria das vezes, a história por detrás dessas flores não é coerente com aquilo que queremos transmitir.

Nós sabemos que é possível cultivar e disponibilizar flores que cresceram nos Açores, ao ar livre, de uma forma mais ecológica, e que sejam coerentes com a nossa boa intenção. São flores que, sem comprometerem a beleza, transportem pureza consigo. As espécies que escolhemos cultivar podem ser, quase todas elas, desidratadas. O processo natural de desidratação, para além de um conjunto enorme de outras vantagens, permite aumentar consideravelmente a durabilidade do arranjo floral. São essas as flores que cultivamos e que integramos em propostas contemporâneas e personalizadas, combatendo a ideia de que um arranjo de flores secas é “a jarra com espigas que a avó tem na sala”.

AO – Como é que comunica este projeto pessoal e profissional?

JDO – Um dos princípios em que assenta este projeto, veio da agroecologia: “Cooperar é melhor do que competir”. É por isso que divulgação do nosso trabalho, e das nossas flores, se baseia na promoção do trabalho de criativos locais. Lançámos nas redes sociais o desafio “Fora da Jarra” (um trocadilho com a expressão out of the box), que consiste em propor as sempre-vivas como inspiração e/ou matéria-prima em criações artísticas nas mais diversas áreas. O desafio, que está aberto a todos, tem acolhido trabalhos que muito me orgulham. É exemplo disso o quadro do pintor Luís Pedro Ribeiro, que recria uma das suas obras mas, desta vez, sem tinta, usando apenas as cores naturais das flores desidratadas. Outros exemplos são a participação do filmmaker Miguel Aguiar ou a do barbeiro Délcio Mendonça. Este último ornamentou com flores a barba do vocalista dos Fado Bravo (André Gonçalves), num trabalho que evoca o Dia do Pai. O resultado de outras participações, como as do designer Adolfo Mendonça, do ceramista António Pedroso ou da escultora Bianca Mendes, serão publicados em breve.

AO – Porque decidiu arriscar neste novo rumo?

JDO – Embora do ponto de vista económico exista sempre um risco associado, eu não sinto que tenha arriscado num novo projeto. Sinto que estou apenas a seguir a ordem natural de algo que surgiu de uma forma espontânea, e que aceitei como modo de estar. Há momentos em que temos a certeza de que a vida é demasiado curta para nos darmos ao luxo de recusarmos fazer aquilo de que realmente gostamos. Foi num desses momentos que decidi fazer o que agora faço. Dá-me satisfação e sinto que faz sentido. Embora eu sempre tenha gostado da minha atividade profissional, talvez me faltasse a componente criativa, que aqui me realiza.

AO – Como é o seu processo criativo?

JDO – Eu não tenho qualquer formação em áreas criativas. Sou um agricultor que cultiva flores. Da mesma forma que um horticultor poderá criar os seus próprios cozinhados a partir dos legumes que produz, eu dou ao meu produto da terra a utilização que deve ter: arranjos florais. Faço-o de forma intuitiva, ao meu gosto.

AO – Associa-se a diversas campanhas e efemérides. Quais são as que destaca?

JDO – Sim. As flores têm um poder gigantesco de transportar mensagens. Um simples agradecimento ou pedido de desculpa, ganha outra dimensão quando é acompanhado de uma flor. As flores são armas poderosas, que nos desarmam. Associar flores a ideias que queiramos promover, pode ser uma estratégia eficaz. Há poucos dias associamo-nos ao Dia Internacional da Mulher (DIM), numa campanha que curiosamente excluiu as flores. Que elas são parte importante do universo feminino, não há dúvida. Mas o DIM não existe para vender flores. O DIM existe porque ainda é necessário. Porque ainda há muito por fazer no que toca à igualdade de género e ao respeito pelos direitos das mulheres. A nossa campanha baseou-se na reinterpretação do cartaz We Can Do It! criado em 1943 durante o esforço de guerra nos EUA e que, nos anos 80, veio a tornar-se numa imagem icónica do empoderamento feminino. Na versão que criámos, o emblemático lenço usado pela Rosie The Reviter, foi transformado numa máscara. Neste momento a guerra chama-se pandemia, e as mulheres têm mostrado, como sempre, a sua força no combate que está a ser travado. Nesta campanha pedimos que no DIM esquecessem as flores. Foi uma forma de alertar para o excessivo aproveitamento comercial desse dia, que nos desfoca do seu verdadeiro sentido.

Agora vamos associar-nos ao Dia do Pai e, curiosamente, ao contrário do que é habitual neste dia, as flores serão trazidas para a campanha. No trabalho do fotógrafo Jorge Fernandes, surge uma menina que enfeita a barba do pai com sempre-vivas. Com essa imagem queremos contribuir para quebrar estereótipos e preconceitos. As flores, são parte integrante do universo feminino, mas devem também existir em qualquer universo, independentemente do género. Os homens choram. Os homens gostam de flores. E isso faz deles mais humanos, mais Homens.

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