Tempo e biodiversidade – Henrique Pereira dos Santos

Tempo e biodiversidade – Henrique Pereira dos Santos

O primeiro parque nacional do mundo – Yellowstone – nasceu para manter aquele pedaço de terra intocado para as gerações futuras.

A ideia de uma natureza intocada que se preserva para que se mantenha sempre igual é um equívoco que se foi revelando com o tempo: nem a natureza era intocada, nem a opção de cristalizar a natureza num ponto da sua evolução é uma opção exequível, independentemente de não ser sequer desejável.

Quando, em 1988, um conjunto de grandes fogos queimaram, durante meses, um terço do Parque Nacional de Yellowstone, ficou demonstrada a utilidade de uma gestão activa do fogo e como essa gestão dava maiores garantias de conservação da biodiversidade que as políticas anteriores de supressão do fogo, para evitar a perturbação dos sistemas naturais.

Infelizmente a ideia de uma natureza pristina, intocada, que se deveria deixar evoluir sem intervenção do Homem, persiste com força suficiente para condicionar excessivamente a gestão do património natural em Portugal.

Uma das principais razões para a persistência destas velhas ideias, erradas, é convicção de haveria em Portugal um carvalhal imenso que teria sido destruído para fazer os barcos da carreira da Índia, ou construir o caminho de ferro, ou pelas políticas de fomento do pinheiro pelo Estado Novo ou, mais recentemente, pela furiosa eucaliptização do país.

A verdade é que não só não existe qualquer evidência da predominância de carvalhais em Portugal há milhares de anos – Viriato era pastor, não era lenhador – como existem muitas evidências do contrário, desde os estudos polínicos nas lagoas da serra da Estrela, à análise de sedimentos em escavações arqueológicas, até às descrições de paisagens ao longo dos últimos séculos.

A ria de Aveiro começa a formar-se no século X em consequência da grande quantidade de sedimentos transportados pelos rios, provavelmente em consequência do alargamento das arroteias medievais necessárias para a alimentação de uma população crescente, mas já nessa altura se trataria de transformar matagais em terras agrícolas, e não de destruir carvalhais, já relativamente escassos.

Até à descoberta da síntese industrial da amónia, que permitiu criar fertilidade nas fábricas a partir das primeiras décadas do século XX, a fertilidade das terras de pão, a base alimentar da generalidade das comunidades, é garantida pelo pastoreio, numa proporção que geralmente varia entre os quatro e oito hectares pastoreados para cada hectare cultivado.

O pastoreio é claramente incompatível com as nossas matas de folhosas, quer porque a sombra das árvores reduz enormemente a produtividade do pasto, quer porque a flora característica desses sistemas é pouco interessante do ponto de vista da produção pecuária extensiva.

É por se ter quebrado o vínculo entre o pastoreio e a produção agrícola que os ecossistemas florestais, quer com função predominantemente produtiva, quer resultado da evolução dos sistemas naturais que o abandono propicia, se podem expandir ao longo do século XX, em Portugal, em especial a partir do fim da Segunda Guerra Mundial que cria as condições para o êxodo rural.

Falar da biodiversidade dos sistemas florestais sem integrar esta componente de evolução da paisagem é muito pouco útil, quer porque nos impede de perceber de onde vimos e como estamos a evoluir, quer porque nos impede de compreender que muito mais que a discussão das espécies, é a discussão dos modelos de gestão que nos permite optimizar a biodiversidade, sendo a não gestão uma opção racional em algumas circunstâncias, mas em caso algum a opção dominante a adoptar.

O que nos conduz directamente à discussão sobre as origens dos recursos que nos permitam gerir sensatamente o nosso património natural, para a qual não existe aqui mais espaço que dizer que só uma economia sólida pode gerar os recursos necessários para a conservação da biodiversidade de que precisamos.

O artigo foi publicado originalmente em Jornal de Negócios.

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