Sobreiro: a árvore mãe da cortiça

Sobreiro: a árvore mãe da cortiça

O sobreiro (Quercus suber L.), árvore mãe da cortiça, é uma espécie de crescimento lento e grande longevidade, que desenvolveu mecanismos de adaptação à secura e ao fogo. Descubra mais sobre esta espécie, neste artigo em colaboração com as autoras Conceição Santos Silva e Teresa Soares David*.

Não haverá português que não conheça o sobreiro, quer pela sua casca característica – a cortiça -, quer porque é a espécie florestal mais disseminada nas várias regiões do país, com maior presença no Ribatejo e Alentejo.

O sobreiro ocupa 720 mil hectares do território continental e cobre 22,3% da nossa floresta, segundo o 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6, ICNF, 2019). Espécie autóctone do sudoeste da Bacia Mediterrânica, a sua distribuição abrange vários países do sul da Europa e do norte de África, onde ocupa uma área de 2,2 milhões de hectares, metade dos quais no sul da Península Ibérica.

Trata-se de um carvalho de folha persistente, que nasce e cresce em solos pouco férteis e ácidos, mas não tolera solos calcários, excessivamente argilosos, mal drenados ou com encharcamento prolongado. Não tolera igualmente invernos frios. Através da evolução e da seleção natural, o sobreiro desenvolveu características estruturais e fisiológicas que lhe permitem sobreviver às altas temperaturas e escassez de água típicas do verão no clima mediterrânico:

– folhas pequenas (com cutículas espessas cobertas por ceras) e um controlo eficiente das perdas de água por transpiração (nos estomas);

– raízes extensas e profundas, que lhe permitem maximizar a captação de água das diversas fontes disponíveis (solo superficial, solo profundo e dos lençóis freáticos), de modo a manter o conforto hídrico (bom estado de hidratação) nos períodos secos.

A sua casca peculiar, rugosa e espessa, que envolve tronco e ramos – a cortiça – constitui uma importante barreira natural de proteção contra o fogo. Graças às características da cortiça como isolante, o sobreiro é, por isso, uma espécie resistente aos incêndios. Para este facto contribui também a gestão a que os montados, enquanto sistemas agroflorestais, estão normalmente sujeitos, com controlo da vegetação espontânea (por via mecânica ou através do pastoreio animal) e com a realização de desbastes e desramações.

Refira-se que o sobreiro existe geralmente em dois tipos de sistemas florestais: os sobreirais, áreas plantadas, com elevada densidade de árvores que se destinam à exploração marcadamente florestal, nomeadamente de cortiça, e os montados, sistemas multifuncionais, com menor densidade de árvores, onde se conjuga a exploração florestal com a agrícola, pecuária ou cinegética (caça).

Sobreiro produz cortiça durante toda a vida

O sobreiro pode viver até aos 250 – 300 anos. Durante todo esse tempo, produz cortiça. No entanto, a sua extração, que é feita em ciclos de nove anos, só começa a partir do momento em que a árvore atinge um perímetro de 70 cm, medido a 1,30 m do solo (de acordo com a legislação em vigor) – o que corresponde aos cerca de 20 a 25 anos da árvore. A extração termina aos 150-200 anos da árvore, depois de 12 a 14 extrações.

A cortiça é produzida por um tecido chamado felogénio, que mantém atividade durante toda a vida da árvore, formando camadas sucessivas. Após cada operação de extração (descortiçamento), o felogénio morre, mas a sua capacidade de regeneração assegura a sustentabilidade da produção e da extração de cortiça.

De modo a não danificar a árvore, o descortiçamento é realizado por pessoal especializado, apenas quando as células do felogénio estão em divisão ativa (nessa altura a cortiça destaca-se facilmente), normalmente entre o fim da primavera e o início do verão (maio a agosto). Em casos de seca severa, o descortiçamento pode e deve ser adiado para o ano seguinte, para evitar danos à árvore.

No primeiro descortiçamento (chamado desbóia) obtém-se a “cortiça virgem” de estrutura muito irregular, dura e difícil de trabalhar. No segundo obtém-se a “cortiça secundeira” de estrutura mais regular e menos densa, que tem aproveitamento para discos de cortiça quando a espessura e a qualidade assim o permitem.

Só a partir do terceiro descortiçamento, quando o sobreiro tem mais de 40 anos, se obtém a cortiça “amadia” ou “de reprodução”, já de estrutura regular e com qualidade exigida para a produção de rolhas. O ditado “Quem se preocupa com os seus netos, planta um sobreiro” traduz o longo período que o sobreiro leva a produzir cortiça para utilização industrial.

Além da cortiça, também o fruto do sobreiro – a bolota – é valorizado, sobretudo para alimentação do gado (em particular do porco de montanheira) e a sua madeira é aproveitada para lenha.

Características do Sobreiro

A extração de cortiça em nada condiciona o relevante papel do sobreiro na conservação do solo, da água e da biodiversidade, assim como no sequestro e armazenamento de carbono (cerca de 20% do carbono total nas florestas portuguesas é retido pelo sobreiro), serviços de ecossistema fundamentais a nível nacional e internacional.

Sobreiro é protegido há pelo menos 15 séculos

Em finais de 2011, a Assembleia da República atribuiu ao sobreiro o estatuto simbólico de “Árvore Nacional de Portugal”, chamando a atenção para o seu valor económico, social e ambiental. No entanto, há muito que esta árvore tem sido protegida pelas civilizações mediterrânicas e já o rei visigodo Alarico II (485-507) promulgou leis que incluíam medidas de proteção dos sobreiros.

Séculos depois, em Portugal, os “Costumes e Foros de Castelo Rodrigo e Castelo Melhor”, promulgados pelo rei D. Sancho I em 1209, ditavam multas a quem danificasse sobreiros, prejudicando a produção de lande (nome também dado à bolota) usada na alimentação dos animais. Ainda no século XIII, D. Dinis decreta a primeira legislação que proíbe o corte destas árvores. Da mesma forma, de modo a preservar os montados, têm sido regulamentadas diversas práticas de gestão como o abate, a extração da cortiça, as podas, cortes e uso do solo (Decreto de Lei nº 169/2001 de 25 de Maio).

Atualmente, o montado de sobro representa 23% da área nacional de Rede Natura 2000, a rede ecológica para o espaço comunitário da União Europeia que tem como finalidade assegurar a conservação a longo prazo das espécies e dos habitats mais ameaçados da Europa, contribuindo para reduzir a perda de biodiversidade.

No geral, os montados albergam uma fauna de quase 400 espécies de vertebrados e uma flora com cerca de 140 espécies aromáticas, medicinais e melíferas. São considerados um hotspot mundial de biodiversidade pela WWF Portugal – World Wide Fund For Nature.

Sabia que…

– O Engenheiro agrónomo e silvicultor Joaquim Vieira da Natividade (1899-1968) foi o primeiro grande estudioso do sobreiro e é considerado o Pai da Subericultura.

– O maior e mais produtivo sobreiro do mundo vive em Águas de Moura, no Alentejo. Plantado em 1783, atualmente com 237 anos, foi classificado como “Árvore de Interesse Público” em 1988 e inscrito no Livro de Recordes do Guinness. Em 2018 ganhou o concurso de “Árvore Europeia do Ano” no concurso European Tree of the year. É um sobreiro monumental, conhecido como “Assobiador” devido às inúmeras aves que se abrigam nos seus ramos.

– Depois de descortiçado, o tronco do sobreiro apresenta uma cor avermelhada que vai escurecendo à medida que as árvores vão regenerando a casca. Para saberem o ano em que tiraram a cortiça, os trabalhadores marcam na árvore, com tinta branca, o último algarismo do ano de extração, por exemplo “7” refere-se a sobreiro descortiçado em “2017”.

– Em Coruche, vale a pena visitar o Observatório do Sobreiro e da Cortiça, edifício que remete para a metáfora do sobreiro como elemento vivo. Em Gaia, um novo museu dedicado à cortiça abriu portas em 2020, o Planet Cork.

*ARTIGO EM COLABORAÇÃO

Teresa Soares David
Engenheira Silvicultora, Mestre em Produção Vegetal e Doutorada em Engenharia Florestal pelo ISA, Universidade de Lisboa. Investigadora do INIAV I.P., responsável da área dos Sistemas Florestais. Membro da equipa de coordenação do Centro de Competências do Sobreiro e da Cortiça. Membro do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa.
[email protected]

Conceição Santos Silva
Engenheira Florestal, Mestre em Eng. Florestal e dos Recursos Naturais, pelo ISA, Universidade de Lisboa. Coordenadora I&D+i na UNAC – União da Floresta Mediterrânica, desde 2018. Coordenadora técnica da APFC – Associação de Produtores Florestais do Concelho de Coruche e Limítrofes e Gestora do Grupo de Certificação FSC – APFCertifica durante 10 anos.
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O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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