Quanto é que as florestas ajudam a mitigar os efeitos das alterações climáticas?

Quanto é que as florestas ajudam a mitigar os efeitos das alterações climáticas?

Durante os últimos 25 anos, as florestas removeram cerca de um quarto das emissões anuais globais de dióxido de carbono, ajudando, assim, a mitigar os efeitos das alterações climáticas recentes. Em Portugal, o contributo das florestas como sumidouro de carbono tem vindo a diminuir nos últimos 10 anos.

Uma das respostas do Planeta aos efeitos das alterações climáticas, em termos de adaptação, mitigação e resiliência, deve focar-se nas florestas. Estes ecossistemas têm uma importante capacidade de sumidouro de carbono, ou seja, retiram dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e armazenam-no nas raízes, caules e folhas.

As florestas armazenavam à escala global aproximadamente 638 gigatoneladas (Gt) de carbono em 2005 (valores estimados)283 Gt em biomassa, 38 Gt em madeira morta e 317 Gt nos 30 cm superficiais do solo e na folhada (1 Gt = 1000 mega toneladas), mais do que a quantidade total de carbono em toda a atmosfera, segundo o World Business Council For Sustainable Development (2015) e a United Nations Climate Change.

A capacidade de sequestro das florestas mundiais, em 2015, estava avaliada em cerca de 296 Gt de carbono na biomassa área e abaixo do solo (raízes), segundo o Global Forest Resources Assessment 2015.

Nos últimos 25 anos, o stock de carbono na biomassa florestal diminuiu quase 11,1 Gt, o equivalente a 442 milhões de toneladas por ano. Esta redução deve-se principalmente à degradação e perda de florestas para a agricultura e estabelecimento de povoações. As maiores perdas verificam-se em África, sul da Ásia e sul da América. A Europa foi a região do mundo onde se verificou o maior aumento do stock de carbono na biomassa florestal.

Alterações no stock de carbono na biomassa florestal 1990 – 2015

Fonte: Global Forest Resources Assessment 2015, FAO

Florestas europeias absorvem o equivalente a 9% das emissões de GEE na região

Na Europa, as florestas absorveram 417 milhões de toneladas de gases com equivalência em dióxido de carbono (CO2eq) em 2016, o que corresponde a cerca de 9% do total das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) na região e a um aumento em relação aos perto de 7% (375 milhões de toneladas) absorvidos em 1990. Este aumento resulta do incremento da área de floresta no continente europeu.

Segundo dados do State of Europe´s Forests 2015, as florestas europeias tinham, em 2015, um stock total de carbono (aéreo e abaixo do solo) de 12961 Mt (mega toneladas, 1 Mt = 106 ou 1 milhão de toneladas) ou 47528 Mt de dióxido de carbono (CO2). Entre 2005 e 2015, o valor médio anual de sequestro de carbono na biomassa florestal na Europa atingiu 719 Mt de CO2, o que corresponde a cerca de 9% do total de emissões de GEE da região.

Refira-se que a medida internacional CO2eq expressa a quantidade de gases de efeito estufa, como o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), em termos equivalentes da quantidade de dióxido de carbono, ou seja, a quantidade de COse todos os GEE fossem emitidos como esse gás.

Capacidade de sumidouro da floresta portuguesa tem vindo a diminuir

Nos últimos 10 anos, o papel das florestas portuguesas como sumidouro de carbono tem vindo a diminuir. Ainda assim, o sector de Uso do Solo, Alteração do Uso do Solo e Florestas (LULUCF – Land Use, Land Use Change and Forestry) tem funcionado como sumidouro de carbono na maioria dos anos desde 1990, segundo os Inventários Nacionais de 2016 e 2017 (capítulo 6).

As maiores contribuições têm sido as remoções por parte das áreas florestais e a redução de emissões por parte das áreas agrícolas (vinhas, olivais e outras culturas) e áreas de prados e pastagens. Em anos de grandes incêndios, como 2003, 2005 e 2017, o papel inverte-se e o sector funciona como emissor de GEE.

Evolução das emissões e remoções no sector LULUCF,
em Portugal (Mt CO2eq)
1990 – 2017

Fonte: Portuguese national inventory report on greenhouse gases, 1990 – 2017 (pág. 457), Agência Portuguesa do Ambiente

Evolução das emissões e remoções no sector LULUCF, em Portugal
(Mt CO2eq)
1990 | 2016 | 2017

Fontes: Annual European Union greenhouse gas inventory 1990-2017 and inventory report 2019, Agência Europeia de Energia (págs. 647, 659, 678, 724, 737, 738 e 739); Relatórios do Inventário Nacional sobre Gases com Efeito de Estufa de 2018 e de 2019,
Agência Portuguesa do Ambiente, (Tabela L.1 do Anexo L).

Em 2016, a floresta portuguesa ajudou a reduzir as emissões de GEE, removendo da atmosfera cerca de 8,5 Mt de CO2Este valor corresponde à fixação de carbono pelas áreas florestais que se mantiveram e pelas novas áreas (plantações), segundo o Annual European Union greenhouse gas inventory 1990-2016 and inventory report 2018, da Agência Europeia de Energia.

O papel das florestas como sumidouro tem de considerar, no entanto, as emissões provenientes da queima de biomassa em incêndios e fogos controlados, que anulam o efeito de sequestro do carbono. Em 2016, a queima de biomassa emitiu mais de 3 Mt de CO2 eq (em emissões de CO2, CH4 e N2O). Ou seja, o saldo final ficou perto de 6 Mt de COeq de GEE retirados da atmosfera pelas florestas portuguesas.

Este saldo final positivo da floresta como sumidouro de carbono não se tornou a verificar em 2017. Nesse ano, o sector LULUCF foi uma fonte de GEE e não de sequestro de carbono: +5,4 Mt de CO2eq segundo a Agência Europeia de Energia e +7,2 Mt de CO2eq segundo a Agência Portuguesa do Ambiente. Este foi o valor mais alto registado desde 1990, principalmente devido à redução de área de floresta, proliferação de matos com baixa produtividade primária, ausência de gestão florestal e um incremento excecional da área ardida, refere a Agência Portuguesa do Ambiente.

Em termos de emissões totais de GEE, a contribuição  portuguesa foi estimada, em 2016, em 67,8 Mt de CO2eqJá em 2017 estima-se que tenha subido aos 70,8 Mt de CO2eq, segundo a Agência Portuguesa do Ambiente. O maior contributo para as emissões vem do sector da energia, com 69% do total em 2016 e 72% em 2017.

Globalmente, as emissões de C0também subiram em 2017 (um aumento de 1,2% relativamente a 2016), após um período de três anos de estabilidade, comprova o Emission Gap Report 2018 das Nações Unidas, apesar de o objetivo ser reduzi-las em 25% e 50% para limitar o aquecimento global a 2ºC e a 1,5ºC, respetivamente. As emissões de CO2 por parte da indústria e dos combustíveis fósseis constituem a maior parte dos GEE, que em 2017 atingiram um valor recorde de 53,5 gigatoneladas de CO2eq (equivalência em dióxido de carbono).

Evolução global das emissões de gases com efeitos de estufa (GEE) por tipo de gás e fonte, incluindo LULUCF1990 – 2017

Fonte: PBL Netherlands Environmental Assessment Agency

Gerir a floresta para ganhar resiliência aos efeitos das alterações climáticas

A gestão ativa e informada é essencial para preservar as florestas e o seu contributo na mitigação de emissões de GEE. Planear as intervenções tendo em consideração os riscos e benefícios e utilizar práticas que reduzam os impactes permite aumentar os benefícios e a resiliência das florestas.

trabalho desenvolvido no âmbito da Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas definiu, em 2015, três objetivos estratégicos:

  • Aumentar a resiliência, reduzir os riscos e manter a capacidade de produção de bens e serviços, através de planeamento e gestão florestal, escolha adequada de espécies, diversificação de produtos e serviços, entre outros.
  • Aumentar e transferir o conhecimento entre os agentes do sector, mais I&D, troca de experiências entre ciência e prática a nível nacional e internacional, elaboração de guias com práticas de adaptação às alterações climáticas, entre outros.
  • Monitorizar e avaliar os impactes do aquecimento global resultante das alterações climáticas nas espécies e habitats florestais.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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