“Quando é para arder, arde mesmo”. António faz contas à vida para manter rebanho de cabras em Vale de Cuba

“Quando é para arder, arde mesmo”. António faz contas à vida para manter rebanho de cabras em Vale de Cuba

Em Vale da Cuba, um lugar com cinco casas e sete habitantes, situada no concelho de Oleiros, distrito de Castelo Branco, António Farinha pastoreia o seu rebanho de 45 cabras no único espaço verde que resistiu a duas noites de chamas.

Tudo o resto, em redor, ficou reduzido a cinzas. Ainda se vê o fumo e pequenas labaredas a sair da floresta.

“Foram duas noites de inferno. Houve uma projeção e a floresta da povoação ardeu toda. Na minha lembrança, isto ardeu tudo em 1979, em 2000, 2011 e, agora, em 2020. É a quarta vez”, explica este pastor à agência Lusa.

António Farinha trata cada uma das 45 cabras do seu rebanho pelo nome próprio e os animais obedecem-lhe a cada ordem ou repreensão como se de um catraio se tratasse.

“Agora, isto vai ser muito complicado para manter as 45 cabras. Não há pasto para o gado. Aquilo que tenho está armazenado para o inverno. Se começar a por agora o alimento como é que vou fazer?”, questiona.

O pastor, emocionado, continua a conversa, em jeito de desabafo: “Cada vez estou mais pobre. Nada melhora. Quando é para arder, arde mesmo”.

Para este pastor, a culpa é da falta de gente para tratar das terras e para as cultivar.

“O que era cultivado antigamente, hoje é só silvas. É pólvora. O país também perde e muito. Correm com as pessoas de cá para fora e não há mais gente. Só há silvas e mato”, frisou.

António mostrou-se ainda indignado com a declaração que o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, fez na televisão.

“Podia [ministro] ter utilizado outras palavras. Disse com uma certeza que Portugal inteiro ouviu que isto ia arder até quarta-feira. Não digo mais nada”, rematou.

António continua convencido de que os fogos continuam a ser “propositados”.

“Tenho essa ideia. Isto continua a ser um jogo mal explicado”, concluiu.

Vale de Cuba foi um dos lugares, juntamente com Vale da Lousa e Pedintal, que estiveram em risco efetivo por causa do incêndio que lavra deste sábado no concelho de Oleiros e que se estendeu aos concelhos de Proença-a-Nova e Sertã.

Por: Carlos Castela da agência Lusa

Continue a ler este artigo no SAPO 24.

Comente este artigo
Anterior Webinar: Políticas e Negócios dos Vinhos - 29 de julho
Próximo Herculano cria apoio aos produtores agrícolas nacionais

Artigos relacionados

Últimas

Protocolo de Cooperação celebrado entre o IFAP e o Departamento Central de Investigação e Ação Penal

O IFAP celebrou hoje um protocolo de cooperação com o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) visando a colaboração […]

Blogs

Eucaliptos: Sacha e amontoa ajudam a desenvolver plantas

No primeiro ano da nova plantação é importante fazer o controlo da vegetação espontânea e “calçar” melhor a planta. […]

Nacional

OE2021: Produtores e importadores contestam agravamento do IVA dos fertilizantes

A Associação Nacional de Produtores e Importadores de Fertilizantes (ANPIFERT) contestou hoje o aumento da taxa do IVA dos fertilizantes não orgânicos e adubos sintetizados de 6% para 13%, […]