Projeto Life quer adaptar montado à mudança climática

Projeto Life quer adaptar montado à mudança climática

É consensual: o montado, ecossistema florestal mediterrânico rico em biodiversidade, encontra-se em declínio devido às alterações climáticas e a outros fatores. Procurando adaptar o montado às mudanças do clima, foi criado o projeto LIFE Montado-Adapt. Tem como principal objetivo atenuar as consequências das alterações climáticas, melhorando a sua sustentabilidade do ponto de vista económico, social e ambiental. Coordenado pela Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM), o projeto (com duração de cinco anos, entre 2016 e 2021) dispõe de um orçamento global de três milhões e meio de euros, sendo cofinanciado pela União Europeia em dois milhões de euros. Agrega múltiplos parceiros técnicos e engloba 12 áreas piloto, no Alentejo, na Andaluzia e na Extremadura. Resultados esperados? “O caminho que temos pela frente é sinuoso e representa um grande desafio, que só poderá ser ultrapassado com a cooperação entre todos os sectores da sociedade”, dizem os técnicos do projeto.

Texto Carlos Lopes Pereira

O projeto LIFE Montado-Adapt (a designação completa é Montado & Climate, a need to adapt) pretende impulsionar a adaptação do montado às alterações climáticas que já se fazem sentir.  Procura-se chegar a esse objetivo “através da diversificação de culturas (alternando culturas agrícolas com culturas florestais bem adaptadas) e das atividades económicas das propriedades envolvidas, assim como o recurso a técnicas de instalação e gestão inovadoras que permitam reduzir a erosão e a vulnerabilidade aos extremos climatéricos, aumentando simultaneamente a resiliência das culturas”, disse ao “Diário do Alentejo” o biólogo Filipe Silva, técnico ligado ao projeto.

Sendo a ADPM a entidade coordenadora, o projeto é coordenado por uma sua técnica, Maria Bastidas, atualmente em licença de maternidade. A duração prevista do projeto é de cinco anos, desde 1 de setembro de 2016 até 1 de setembro de 2021. Tem um orçamento global de cerca de três milhões e meio de euros, sendo cofinanciado pela União Europeia em pouco mais de dois milhões de euros.  O projeto engloba 12 áreas piloto e agrega múltiplos parceiros técnicos (Forestry Service Group, Universidad de Extremadura, União da Floresta Mediterrânica e TerraDrone) e científicos (Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e Universidade de Évora).
Destas áreas piloto, sete estão em Portugal, no Alentejo (quatro públicas, três privadas), e cinco em Espanha, quatro na Extremadura (três privadas e uma pública) e uma na Andaluzia (pública).


A necessidade de adaptação do montado às alterações climáticas justifica-se amplamente. Segundo o Inventário Nacional de Mortalidade (INM) do sobreiro e azinheira, realizado entre 2004 e 2006, na Beira Interior Sul, Alto Alentejo, Alentejo Central, Baixo Alentejo, Alentejo Litoral, Algarve, Península de Setúbal, Lezíria do Tejo e Médio Tejo, foi contabilizada a morte de 305 438 azinheiras e 329 323 sobreiros. A acrescentar a esta situação, o Programa de Acção Nacional de Combate à Desertificação (Pancd) para o período 2008-2018 reconheceu que 32,6 por cento dos solos do território nacional já se encontram “em situação degradada” e que esta aridez “atinge a totalidade do interior algarvio e do Alentejo”, ou seja, abrange todas as áreas piloto do projeto em Portugal.

Cooperação entre todos os sectores da sociedade

“A execução do projeto divide-se em diversas etapas sequenciais, tendo-se iniciado com a avaliação das áreas piloto, seguida da definição dos indicadores base e da situação atual das propriedades, após o que se procedeu ao desenvolvimento dos sistemas integrados de gestão de montado (SIGM) específicos para cada propriedade”, explica Filipe Silva. Foi posteriormente a esta fase que se realizaram as ações de capacitação direcionadas aos proprietários e/ou gestores das áreas piloto, de forma a preparar o passo seguinte, a implementação dos SIGM, que é fase em que o projeto se encontra neste momento.

No âmbito da divulgação do projeto, são realizadas anualmente pelo menos duas ações de disseminação por área piloto, que contemplam campanhas de sensibilização ambiental dirigidas à comunidade escolar e aos múltiplos atores relevantes da região (proprietários, instituições, etc.), sempre no contexto dos riscos e vulnerabilidades do montado. Segundo a equipa do LIFE Montado-Adapt, encontrando-se o projeto neste momento em fase de implementação, não decorreu tempo suficiente para determinar de forma clara e inequívoca os resultados e benefícios obtidos, apesar de ser expectável “o aumento do sucesso das ações de reflorestação, bem como o aumento no conteúdo de matéria orgânica no solo e maior capacidade de retenção de água e incremento da biodiversidade”. O objetivo final é melhorar a sustentabilidade do ponto de vista ecológico, económico e social.


Em dezembro do ano findo, durante a 25.ª Cimeira das Nações Unidas sobre o Clima, em Madrid, o projeto coordenado pela ADPM foi um dos 10, entre centenas do Programa LIFE, apontado como merecedor de ser conhecido e acompanhado.  “O reconhecimento recebido por parte do Programa LIFE (instrumento financeiro da União Europeia que apoia projetos de conservação ambiental e da natureza), durante a Cimeira de Madrid (COP-25), tem um significado muito especial por dois motivos: primeiro, foi o único projeto LIFE dinamizado por uma entidade portuguesa a ser escolhido como um dos que merece ser acompanhado; segundo, no meio de centenas de projetos LIFE, ver o LIFE Montado-Adapt ser referenciado não só representa uma valorização do trabalho que a ADPM e os seus parceiros têm realizado, como também significa uma valorização do montado como ecossistema de características singulares, que merece ser preservado e destacado”, considera Filipe Silva.


Uma vez que um dos objetivos principais do projeto é o aumento da diversidade de fontes de receita nas áreas piloto, de momento não está prevista uma nova candidatura ao programa LIFE. Mas, reconhecem os responsáveis do projeto, “sem dúvida que apoios económicos para agricultores que queiram implementar as ações promovidas pelo projeto iriam acelerar a recuperação do montado, bem como aumentar a sua capacidade de resiliência, reduzindo assim os impactes económicos, ambientais e sociais das alterações climáticas nestes territórios”.

Com projetos como este é possível travar o declínio do montado, no Alentejo e no País, adaptando-o às alterações climáticas? Os responsáveis do LIFE Montado-Adapt são cautelosos: “As mudanças, para serem efetivas, devem operar-se em todas as dimensões do problema. Ou seja, para além de questões puramente técnicas e ambientais, deve existir um ajuste das políticas agrícolas e florestais nacionais e europeias, adequando-as à nova realidade climática, passando obrigatoriamente pela determinação e promoção de boas práticas de implementação e gestão, sem nunca descurar o envolvimento da população local e de outros atores relevantes (proprietários, agrupamentos de produtores, associações, etc.)”.

Aliás, precisa Filipe Silva, “no nosso projeto tem sido feito um esforço no sentido de incluir muitos destes atores, bem como de consciencializar a população (em particular os mais jovens) sobre a importância do montado. É nossa convicção de que o caminho que temos pela frente é sinuoso e representa um grande desafio, que só poderá ser ultrapassado com a cooperação entre todos os sectores da sociedade”.

O artigo foi publicado originalmente em Diário do Alentejo.

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