Presença de gado bovino nas montanhas previne incêndios, aumenta o sequestro de carbono e melhora a biodiversidade

Presença de gado bovino nas montanhas previne incêndios, aumenta o sequestro de carbono e melhora a biodiversidade

Na serra do Alvão, em concreto no concelho de Vila Pouca de Aguiar, está a ser implementado um projeto que pretende impulsionar o pastoreio de gado bovino nas montanhas e nos lameiros. Este projeto Life – Terra Maronesa é desenvolvido pela Associação Terra Maronesa – Comunidade Prática para o desenvolvimento sustentável.

Na aldeia de Telões, o Terra a Terra Especial, no âmbito da Lisboa, Capital Verde Europeia, com o título “Vacas, carbono e de biodiversidade”, sentou à mesma mesa alguns dos fundadores desta associação, para debater a temática: Carlos Aguiar, coordenador científico da Terra Maronesa, também agrónomo, professor no Politécnico de Bragança e investigador do CIMO – o Centro de Investigação de Montanha; Avelino Rego, engenheiro informático de formação, mas agora gestor desta associação e também produtor de gado bovino; e, ainda Duarte Marques, engenheiro florestal e o presidente da associação Terra Maronesa.

Este grupo de trabalho surgiu porque “o território carecia de uma dinâmica mais consistente, pois os criadores não conseguiam ter resposta para os seus problemas, como por exemplo o escoamento dos seus produtos ou o conciliar da pastorícia com a proteção florestal”, conta Duarte Marques. Com esta realidade, existia uma necessidade de unir as multivalências presentes na comunidade para, em rede, encontrar respostas. “Se não fosse encontrar de imediato, pelo menos ter alguém que nos ajudasse e motivasse”, acrescenta.

O território é dominado pela presença humana, mas este domínio tem de estar compatibilizado com “as vacas, os lobos, com as pastagens, a floresta autóctone e as atividades turísticas que, cada vez mais, são procuradas na região”. Mas só isto não chega. Existe um peso significativo quer no consumidor, quer nas políticas públicas para o setor. A carne maronesa precisa de escoamento e a fixação de pastores e produtores de gado bovino, e o consequente aumento da exploração extensiva, só poderá existir com a adequação das políticas públicas. “Exige persistência e presença das pessoas. Por isso, o consumidor tem de optar por consumir produtos de qualidade e temos de olhar para o território que tem recursos e valores, pagando os serviços de ecossistema, que são geridos e mantidos pelas pessoas que estão no território”, explica Duarte Marques.

Exploração extensiva de bovinos traz ganhos de biodiversidade

Em termos de ganhos ambientais, a presença de gado bovino nas montanhas como a Serra do Alvão permite aumentar a biodiversidade destes lugares, impulsionar o sequestro de carbono dos solos e minimizar os riscos de incêndio, sobretudo ao nível da sua severidade. “Não há sistemas de agricultura sustentáveis sem uma componente animal, e esse é logo o ponto de partida”, sustenta Carlos Aguiar.

Portugal, e em concreto a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, já teve um sistema agrícola tradicional muito produtivo e sustentável. “Sem lameiro não há vacas, mas um monte limpo e saudável também não”, aponta.

Com base neste fundamento foi criado o projeto Life Terra Maronesa, para incentivar o pastoreio de gado bovino. “Se as montanhas são abandonadas acumulam grandes quantidades de matos. O clima temperado submediterrânico que, quando chega ao verão tem um período seco, implica uma grande exposição ao fogo. Quando se acumula muita biomassa, combustível, temos fogos de elevada severidade. Quando os fogos são muito intensos, a matéria orgânica do solo é consumida e há uma libertação de carbono para a atmosfera. Ou seja, o carbono sequestrado no solo é emitido para a atmosfera”, explica o coordenador científico. E como é que as vacas alteram este processo? “Quando as vacas são reintroduzidas no território vêm com os seus criadores. Para eles é vantajoso mudar o perfil do fogo, pois os de elevada severidade dão lugar a pastagens de baixa produtividade. Quando são de baixa severidade, há mais erva, mais sequestro de carbono e há mais biodiversidade”, explica Carlos Aguiar. Este modelo, em termos ecológicos, chama-se de perturbação intermédia. São também os chamados de fogos controlados, feitos numa altura própria, fora do período de verão, e que permitem renovar as pastagens sem afetar o solo. Além disso, permitem ainda ficarmos com montanhas mais saudáveis, mais biodiversas, mais produtivas e que representam menores riscos para as pessoas.

“Em vez de entrar no avião e seguir para a Suíça, peguei na mala e vim para Alvadia, em Vila Pouca de Aguiar”

Este sistema de pastoreio está dividido em duas áreas principais: os lameiros e a montanha, mas já foram três, com o pousio.

Avelino Rego é criador de gado bovino de raça maronesa, autóctone, e que se consegue adaptar às características da paisagem do Alvão. “É uma vaca mais pequena, que tem capacidade de comer erva, mas também arbustos, que é o tipo de vegetação que temos aqui na nossa paisagem. No verão alimenta-se do que a serra dá e no inverno com feno, que é também produzido aqui”, explica o produtor que deixou o Porto e a engenharia informática, para se juntar aos pais em Vila Pouca de Aguiar e apostar na exploração de vacas maronesas. “A carne é importante porque é excelente, mas a aposta nas vacas é mais para o controlo da vegetação, dinâmicas que permitam ter stock de carbono superiores aos que tempos e controlar o fogo, que tem sido de elevada severidade”, diz.

Este tipo de vaca “pode e deve pastar livremente”, pois tem uma facilidade em lidar com os perigos, como por exemplo, o lobo. “Fazem turnos para vigiar as crias, enquanto as outras vão pastando mais ao redor”, conta. “Depois, têm também capacidade de escolher os abrigos, quando está calor ou está frio”, acrescenta.

Avelino Rego trabalhava na área da informática, na cidade do Porto, mas sempre teve “o bichinho da terra e da conservação da natureza”, mas “reclamava demais do que os outros faziam” e nunca tinha tomado uma atitude. Um dia, em 2012, estava decidido a emigrar e, na semana em que ia fazer a mala, “em vez de entrar no avião e seguir para a Suíça, peguei na mala e vim para Alvadia, em Vila Pouca de Aguiar”, lembra. E, desde que chegou, mudou várias coisas na produção dos pais, mas sobretudo a atitude perante a atividade, que sofre com a “falta de reconhecimento da sociedade”. Há pessoas, conta, que têm vergonha de dizerem que são pastores. Avelino Rego orgulha-se. “Fui-me inteirando das dificuldades do setor e chego à conclusão que sozinho não ia a lado nenhum, sem uma estratégia que conciliasse interesses de todos, pois não conseguiríamos ser sustentáveis economicamente e conseguir um equilíbrio social desta paisagem e deste território”, sublinha.

O artigo foi publicado originalmente em TSF.

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