Prefere uma universidade sustentável ou um bitoque de vaca? – Marcos Sá

Prefere uma universidade sustentável ou um bitoque de vaca? – Marcos Sá

A Universidade de Coimbra decidiu retirar das ementas das suas cantinas a carne de vaca por esta ser uma opção pouco sustentável do ponto de vista ambiental devido à emissão de gás metano, e a polémica estalou com todos aqueles que vieram dizer que era uma imposição e uma restrição à liberdade individual.

 

Se muitos veem nesta atitude uma imposição, eu vejo a coragem de dar um bom exemplo à sociedade. Chega do tempo das entidades públicas pedirem aos cidadãos que mudem de comportamentos e depois não sejam os primeiros a dar o exemplo. Na verdade, a Universidade apenas irá trocar a carne de vaca por outra opção sustentável. Não está em causa uma boa alimentação, nem a refeição dos alunos universitários. Essa está garantida, mas agora também com preocupações de sustentabilidade.

As universidades devem ser um exemplo de cidadania e líderes da mudança e os portugueses deveriam ficar orgulhosos do trabalho ímpar que muitas destas instituições estão a implementar no âmbito das suas responsabilidades, tendo em vista a neutralidade carbónica. Hoje deveríamos ter orgulho por ter universidades que já fizeram a transição energética e já consomem e produzem energia renovável, que optaram por consumir exclusivamente água da torneira e que oferecem garrafas reutilizáveis, que efetuaram todas as mudanças para ter edifícios eficientes do ponto de vista energético e hídrico, que investiram em ecopontos para garantir a reciclagem, que eliminaram os plásticos de uso único, que doam os excedentes das refeições servidas nas cantinas a instituições particulares de solidariedade social, que criaram parques verdes, que utilizam viaturas elétricas, e que criaram ecovias, entre muitos outros exemplos.

Falo de casos reais que são hoje realidade na Universidade do Minho, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, na Universidade do Porto, na Universidade Nova, no ISCTE, no ISEL, no ISEG, no Instituto Superior Técnico, na Escola Superior de Comunicação Social, na AESE Business School e na Universidade Lusófona, e que nos deviam encher de orgulho.

Reduzir este enorme trabalho de sustentabilidade realizado pelas universidades portuguesas, à notícia da substituição da carne de vaca numa ementa de uma cantina por outro alimento mais sustentável, e ser um escândalo nacional, deveria fazer-nos fazer parar para pensar. Pois esta substituição alimentar, é mesmo disso que se trata, deveria levar os produtores de carne a transformarem o seu negócio apostando em ações sustentáveis que contribuam para a neutralidade carbónica da sua atividade económica. Todos, incluindo a indústria pecuária, têm que dar o seu contributo ambiental! Não deve existir ninguém que pense que não tem que contribuir para esta causa comum. E por isso estranho não ter ouvido uma única palavra do Ministério da Agricultura, nem das associações de produtores sobre esta questão central: modernizar o setor e torná-lo mais sustentável do ponto de vista ambiental deveria ser uma prioridade política e empresarial.

Definitivamente, concluo que há uma ou duas gerações que ainda não perceberam que chegará o dia onde a grande maioria dos portugueses irá deslocar-se de transportes públicos, transportes suaves ou elétricos e não de carros movidos a combustíveis fósseis. Estão longe de imaginar que haverá limitações à circulação automóvel dentro das cidades e até no tráfego aéreo, para garantir níveis de poluição que não coloquem em causa a qualidade do ar e a qualidade de vida de muitos cidadãos, principalmente os mais frágeis no que à saúde diz respeito.

Para estes é impensável que os consumidores venham a fazer escolhas, tendo as cantinas e restaurantes que disponibilizar a origem dos produtos utilizados, assim como, a pegada ecológica de cada refeição. Estas pessoas jamais se imaginam a comer um bife delicioso, mas que foi manipulado e produzido em laboratório para ter o mesmo sabor e textura de uma vaca “Argentina”, mas que não produziu CO2 no seu ciclo de produção industrial. E até chegará o dia em que pedir uma garrafa de água de plástico num café ou num restaurante vai ser visto como um ato absolutamente irresponsável e incompreensível, num país que disponibiliza água da torneira segura e de qualidade.

Se tudo isto é perder liberdade, como algumas destas pessoas defendem, serei lido como um ditador!

Mas, na minha opinião, tudo isto será apenas para mudarmos comportamentos e hábitos, pois a nossa liberdade não pode colocar em causa um planeta que é património de todos, e que temos a obrigação e dever de preservar para as futuras gerações.

A regra que algumas gerações querem impor às futuras gerações é simples: tudo para uns já, e pouco ou nada para os outros no futuro.

Felizmente as escolas, as universidades e os alunos são a vanguarda e estão na linha da frente do combate às alterações climáticas. E, é por isso, que no futuro teremos políticos e cidadãos orgulhosos numa economia nacional sustentável, que só poderá ser verde e amiga do ambiente, apesar de muitos ainda a quererem poluente, em nome de uma “liberdade” económica que só aprisiona o futuro de toda a Humanidade.

Marcos Sá, diretor de comunicação e educação ambiental da EPAL, é licenciado em Ciências da Comunicação e da Cultura. Foi docente, como assistente convidado, na Universidade Nova de Lisboa. Exerceu funções de vereador da Câmara Municipal de Oeiras e de deputado à Assembleia da República integrando, entre outras, a Comissão de Ambiente. As opiniões expressas neste espaço de colaboração vinculam apenas o autor.

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O artigo foi publicado originalmente em SAPO 24 .

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