Portugal em risco de repetir super incêndios da Austrália, diz relatório

Portugal em risco de repetir super incêndios da Austrália, diz relatório

São “incêndios muito perigosos para a população e impossíveis de apagar, com um comportamento explosivo e extremo, que se propagam a grande velocidade”. Provocam “verdadeiras tempestades de fogo”.

 

São conhecidos como super incêndios, ou incêndios de sexta geração, e Portugal é um dos países do mundo com maior vulnerabilidade a este tipo de evento climáticos extremos de alta intensidade, conclui o relatório “Um Planeta em Chamas”, divulgado esta quinta-feira pela A Associação Natureza Portugal, em associação com a WWF (ANP|WWF) e a WWF Espanha.

São exemplos de super incêncios aqueles os que assolaram a Austrália entre setembro de 2019 e o início de 2020 e resultaram em 107.000 km2 de área ardida e mataram 29 pessoas no país. Diz o relatório que são “incêndios muito perigosos para a população e impossíveis de apagar, com um comportamento explosivo e extremo, que se propagam a grande velocidade”. Provocam “verdadeiras tempestades de fogo” e estão diretamente ligados às alterações climáticas.

Também já aconteceram por cá: o primeiro incêndio com estas características aconteceu em em Portugal em junho de 2017, resultando em 64 vítimas mortais. Repetiu-se em outubro do mesmo ano, resultando em mais 43 mortos. No verão de 2019, o incêndio de Valleseco (Gran Canaria) também mostrou um comportamento bastante agressivo e perigoso, obrigou a evacuar 10.000 pessoas e devorou cerca de 10.000 hectares, 6,5% da superfície da ilha.

“Os super incêndios da Austrália são um exemplo do que poderia acontecer aqui. As alterações climáticas desempenharam um papel fundamental na propagação dos fogos e a área mediterrânica é, de acordo com os especialistas do IPCC, uma das áreas mais vulneráveis a nível global. No ano de 2017, Espanha e Portugal sofreram fortes secas e nesse mesmo ano aconteceram na região incêndios de alta intensidade sem precedentes, que causaram centenas de vítimas mortais. Ambos os territórios apresentam ecossistemas semelhantes, com invernos suaves e verões quentes e secos, como na Califórnia ou no Chile. Espanha e Portugal são e serão países de incêndios extremos que muito provavelmente viverão cenários muito perigosos de intensidade semelhante”, pode ler-se no documento.

A Associação Natureza Portugal, em associação com a WWF (ANP|WWF) e a WWF Espanha evidencia assim o “desequilíbrio existente entre medidas de prevenção e de extinção. Para combater os super incêndios é essencial apostar na prevenção, na valorização das áreas rurais, tornando as paisagens mais resilientes, e na mudança de comportamentos da população em geral”.

Ângela Morgado, diretora executiva da ANP|WWF defende que “é urgente inverter as políticas super fracassadas de combate aos super incêndios e garantir que estas se focam na prevenção em vez de na extinção. O combate às alterações climáticas é a mais eficaz solução para este problema ambiental grave, assim como a gestão responsável do território, a promoção de paisagens rentáveis e menos inflamáveis e o combate à desflorestação nos trópicos”.

A nível europeu, Portugal é o “campeão dos incêndios”, diz o relatório: todos os anos, o país vê arder mais de 3% da sua superfície florestal, em comparação com 0,4% em Espanha. Nos últimos 30 anos é o que mais sinistros enfrentou e aquele em que mais hectares foram queimados. Em média, por ano, ocorrem em Portugal cerca de 17.000 fogos, 35% mais do que em Espanha. Além disso, são queimados cerca de 120.000 hectares em média
por ano, 20% mais do que em Espanha, apesar de ter menos 80% de superfície florestal. Portugal é o primeiro país da Europa e o quarto do mundo que perdeu a maior massa florestal desde o início do século XXI.

Isto deve-se, segundo a ANP|WWF, ao “abandono rural, cessação de atividades agrícolas tradicionais, ausência de políticas sérias de gestão do território e gestão florestal responsável”. O relatório destaca o Plano Nacional de Gestão Integrada dos Fogos Rurais, lançado este mês pela Agência de Gestão Integrada dos Incêndios Rurais para a prevenção de incêndios de alta intensidade baseado em quatro pilares: responder às fraquezas do sistema e reduzir a exposição ao risco; valorizar os espaços rurais como geradores de riqueza, produtividade e sustentabilidade; modificar comportamentos para garantir a segurança da população; e gerir o risco de forma eficiente em toda a cadeia de decisão, com uma definição clara de prioridades e um uso eficiente dos recursos públicos.

Com 500 milhões de euros de investimento público e privado, este plano abrange período 2020-2030 e tem como objetivo “reduzir para metade, nos próximos dez anos, a área anualmente ardida em incêndios rurais e diminuir os danos provocados por eventos graves”. De acordo com o Governo, nos últimos dois anos registou-se uma diminuição de 47% de ignições, face ao período 2008-2017, e igualmente uma diminuição de 69% de área ardida, comparando com a média 2008-2017.

O artigo foi publicado originalmente em ECO.

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