Passados três anos após o “pior Verão de sempre” aprendemos alguma coisa? – António Cláudio Heitor

Passados três anos após o “pior Verão de sempre” aprendemos alguma coisa? – António Cláudio Heitor

Falar e pensar o Mundo Rural obriga a reuniões com dezenas de entidades públicas de vários Ministérios e tutelas com objectivos e estratégias diferentes, pouco coordenados, muitas vezes contraditórios

Perante a brutalidade dos acontecimentos de 2017, seria terrível se nada tivéssemos aprendido. Na verdade, sabemos hoje que estamos mais vulneráveis e mais indefesos perante incêndios rurais descontrolados.

O simples facto de lhes chamarmos hoje de “Rurais”, já demonstra alguma aprendizagem. Os incêndios não são um problema da floresta.

Mas o que fizemos e o que pretendemos fazer com esse conhecimento? Em resumo fizemos o mesmo de sempre, mais leis e estratégias, umas novas e outras antigas com uma roupagem actual.

De lá para cá separámos a floresta da agricultura, fomentámos uma redução da actividade pecuária, encontrámos um novo “inimigo do ambiente” na agricultura intensiva e desenhámos uma nova forma de fazer “política rural” secundarizando o diálogo e o papel das organizações de proprietários na discussão de instrumentos de política.

Ao mesmo tempo que se “redescobriu” a urgência de valorizar o interior como forma de prevenir os incêndios que agora são rurais, define-se como grande objectivo da agricultura e da floresta o de ser “sumidouro de carbono”, na lógica de compensação pela poluição de outros sectores.

Mas comecemos pelo fim, pela ausência de diálogo. As organizações de agricultores e proprietários fizeram um trabalho notável nas últimas décadas em matérias de criação de uma estrutura vertical representativa que permite e facilita o diálogo institucional a nível estratégico e político. Hoje, e ao contrário das “concertações noutras actividades”, remete-se o diálogo para meras “discussões públicas formais”.

O resultado é um conjunto de planos, estratégias e instrumentos legais desajustados da realidade e com fraca capacidade operacional, pois como são elaborados na “esfera pública”, a sua operacionalização privada torna-se burocraticamente impossível.

Em parte esta diminuição da concertação rural resulta da distribuição cada vez maior do Mundo Rural por um leque de Ministérios, Institutos e Agências. Hoje falar e pensar o Mundo Rural obriga a reuniões com dezenas de entidades públicas de diversos Ministérios e tutelas, com objectivos e estratégias diferentes, pouco coordenados e muitas vezes contraditórios. Como exemplo a recente separação da Floresta e da Agricultura.

Será por isto que vamos ter mais incêndios rurais? Não, mas por certo esta inércia dificulta a dinamização de actividades rurais já fragilizadas, contribuindo assim para o abandono.

Já esta vertente de “sumidouro de carbono” tem um impacto potencial mais drástico na gestão diária da paisagem rural. Para alguns será positivo ter menos pecuária, menos utilização de produtos e uma floresta idílica que apenas “sequestre carbono”. Mas para aqueles que ainda retiram rendimento dessas actividades o futuro apresenta-se um pouco incerto.

Esta opção, a de fazer a agricultura e a floresta “pagar” pela poluição de outros sectores demonstra bem o fraco peso político que o Mundo Rural tem na sociedade e na esfera política. De facto o Mundo Rural representa cada vez menos eleitores.

Mas esta escolha representa também o preconceito enraizado contra o desconhecido Mundo Rural. Desconhecido porque assume que as práticas agrícolas de hoje não são mais do que aquelas que se praticavam no inicio do século passado, aquelas que fazem parte dos relatos familiares sobre a vida no campo dos “nossos antepassados”.

Só isso justifica esta “recente aversão à agricultura intensiva e aos produtos químicos”, como se cada agricultor andasse a distribuir “à balda” quantidades letais de químicos, sem sequer pensar no custo benefício dessa escolha.

Se as “vacas são um perigo para a saúde pública”, já a floresta de produção é uma carta que se deveria retirar do baralho, até porque é a causadora dos incêndios, da libertação de toneladas de carbono para a atmosfera, da destruição da biodiversidade e da desertificação do nosso interior.

Esta foi a imagem que o estado central construiu para a floresta e por isso é tão necessário “reconstruir a paisagem e a floresta”, para sequestrar carbono, produzir biodiversidade e para que as árvores não entrem em “combustão espontânea”.

Tudo isto sem consultar o peso da silvicultura nas contas económicas do país. Tudo isto sem perceber a importância do sector agroalimentar para o emprego das zonas rurais.

Ou seja, sem perceber só as actividades agrícolas, pecuárias e florestais, podem ser os pilares da coesão territorial das zonas rurais.

Por tudo isto, e porque nunca foram os Planos que impediram grandes incêndios, nada aprendemos com os incêndios de 2017.

Uma visita às áreas ardidas e poderão comprovar o estado de abandono em que estão e o resultado de opções e políticas erradas, que nem souberam revitalizar o tecido económico que já existia, nem conseguiram criar alternativas (como seria de esperar).

António Cláudio Heitor
Técnico Florestal da CONFAGRI

O artigo foi publicado originalmente em Observador.

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