Os efeitos da seca extrema no olival Português – Rita Braz Frade

Os efeitos da seca extrema no olival Português – Rita Braz Frade

O ano de 2016 foi seco. O ano de 2017 está a ser muito seco. No final do mês de Setembro cerca de 81% do território estava em seca severa e 7,4% em seca extrema, nomeadamente o baixo Alentejo, actual epicentro da olivicultura portuguesa.

Às baixas produtividades registadas em 2016, seguiu-se (i) um fim de Inverno muito frio, (ii) uma Primavera precoce e quente e (iii) um Verão e início de Outono anormalmente quentes e secos.

O frio extremo durante o mês de Março queimou e congelou muitas oliveiras em determinadas zonas geográficas, originando perdas de produção consideráveis. Com a chegada da Primavera, as oliveiras afectadas concentraram toda a sua energia na produção de ramos e folhas (para se voltarem a “vestir”), em detrimento de se dedicarem à produção de frutos. Em seguida, tivemos um Abril e Maio muito quentes e secos, o que conduziu a uma floração intensa mas escalonada. Consecutivamente, o vingamento foi igualmente escalonado, provocando muitos abortos, alguns até tardios. Por último e mais crítico, as temperaturas elevadas que se fazem sentir desde meados de Maio, agravadas pela inexistência de chuva, estão a prejudicar uma campanha que se previa bastante satisfatória.

É importante entender que não falamos apenas de água, mas sim do binómio falta de água-elevadas temperaturas. Ou seja, a falta de chuva é grave, mas conjugada com calores intensos durante 6 meses tornou-se crítica. Na oliveira, isto conduziu a que as árvores (não afectadas pelo frio referido acima), apenas produzissem azeitona, mas não crescessem, ou seja, não originaram novos lançamentos que seriam os ramos produtivos na Primavera de 2018. Tal levará a uma quebra de produção considerável na campanha do próximo ano.

No olival regado e sem restrições de água, ter-se-á conseguido minimizar os efeitos do calor e da seca, consumindo no entanto quantidades absurdas de água para escapar ao stress hídrico. Contrariamente, os olivicultores de sequeiro ou com restrições de água estão a ver a sua produção comprometida: as árvores estão carregadas mas os frutos enrugados e com baixo calibre. Ora, a azeitona com falta de água deixa de se desenvolver, sendo apenas caroço e uma fina camada de polpa não apta para produzir azeite. Em casos extremos, as azeitonas chegam a secar nas árvores e a cair.

No campo, observa-se que o solo está altamente ressequido e, por mais que se regue, continua seco a poucos centímetros de profundidade. Por outro lado, as azeitonas estão a amadurecer antes de tempo e o calendário de colheita está a coincidir com o calendário de rega; inclusive há olivais que continuam a precisar de rega mesmo após colhidos.

Apesar da gravidade da situação actual, há, porém, dois aspectos positivos nomeadamente para o olivicultor de regadio: baixa incidência de mosca (devido às elevadas temperaturas) e alto preço do azeite.

No que diz respeito ao preço do azeite, este como se sabe responde à lei da oferta e da procura. Com efeito, em anos de elevada produção o preço tende a baixar e em anos de baixa produção a subir. Foi o que aconteceu em 2016. No entanto, 2017 pode dizer-se que será um ano atípico porque, se por um lado, a produção vai aumentar comparativamente ao ano anterior, este aumento não será suficiente para fazer face ao défice de azeite no mercado global. Por outro, a presente situação climática está também a comprometer a campanha vindoura, pelo que continuará a haver escassez de azeite e, como tal, os preços tenderão a manter-se elevados.

Com a chuva de meados de Outubro, registou-se uma ligeira descida dos preços. Esta descida durará enquanto houver stock de azeite no mercado. Quando este começar novamente a ser escasso, o preço tenderá a subir e a manter-se elevado na campanha de 2018/2019 que, está desde já comprometida pela seca cumulativa dos últimos dois anos.

Contudo, “não há bela sem senão” e a irregularidade do clima a que assistimos terá graves implicações a médio e longo prazo, que pouco poderão ser minimizadas pelo elevado preço do azeite. Até porque, em termos globais ou mesmo ibéricos, o olivicultor de regadio não é a regra e a água disponível para regar é um bem cada vez mais escasso. Sejamos conscientes disto, busquemos alternativas de futuro e, no imediato, façamos um consumo racional de água. Hoje temos água para regar, amanhã não sabemos.

 

Rita Braz Frade

Owner, Dazeite – olive oil business

Gestão Agrícola, Herdades do Melo e da Rosada

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