O flagelo dos incêndios florestais – Francisco Sarsfield Cabral

Três anos depois do trágico incêndio de Pedrógão Grande, não parece que Portugal esteja devidamente preparado para uma catástrofe semelhante. Até há quem diga que estamos pior.

Faz hoje três anos que deflagrou em Pedrógão Grande um enorme incêndio. 66 pessoas morreram queimadas, a maior parte das quais numa única estrada. No corrente mês de junho, as temperaturas não têm estado altas e choveu em várias zonas do território continental, o que terá atenuado o perigo de incêndio florestal. Mas ontem o Instituto do Mar e da Atmosfera colocou 12 concelhos em risco muito elevado de incêndio.

As autoridades nacionais garantem-nos que tudo está preparado para Portugal enfrentar, este ano, o flagelo dos incêndios florestais. Oxalá, mas infelizmente existem motivos para duvidar dessa perspectiva otimista.

A primeira dúvida tem a ver com uma longa nota do Observatório Técnico e Independente (OTI) da Assembleia da República. Este Observatório foi criado para analisar, acompanhar e avaliar o que é feito, ou não, em matéria de fogos florestais. Ora a referida nota é muito crítica sobre o que não se fez e deveria ter sido feito, concluindo que “não se pode ir adiando mais o inadiável”.

O OTI afirma que nestes três anos foram dados passos positivos, mas que são bem mais numerosos os aspetos negativos. Muito do que foi prometido acabou por não ter sido cumprido. E foram ignoradas várias recomendações feitas. Ou seja, um incêndio da trágica dimensão do de junho de 2017 pode voltar a acontecer.

O OTI identifica falhas, como o desadequado ordenamento e a deficiente gestão florestais, a insuficiente recuperação de áreas ardidas e a pouca mitigação do risco. Também considera insuficiente a formação e qualificação dos agentes do combate a incêndios.

O segundo motivo para recear os incêndios florestais no corrente ano está no que nos conta a excelente, mas deprimente, reportagem de dois jornalistas da Renascença, João Carlos Malta e Joana Bourgard, que poderá ler neste “site”. O título da reportagem é “A oportunidade perdida para o Interior”.

Há três anos, “Pedrógão e o Pinhal Interior eram proclamados prioridade nacional. Nada podia ficar como dantes, bradava-se em cada discurso público. Mas ficou. Há coisas que até conseguiram ficar pior”.

Por exemplo, e continuando a citar a reportagem da Renascença, “o primeiro-ministro, António Costa, prometeu que aquela região seria um exemplo para o país”. E acrescentou então: “A pior coisa que pode acontecer é a floresta crescer como estava, porque hoje todos sabemos bem que deixar a floresta crescer livremente é criar condições para que ela seja combustível”.

Ora, no terreno, Jorge Fernandes, presidente da APFLOR – associação que junta mais de 600 proprietários de terrenos florestais da região – vê uma outra realidade.

“Não houve mudanças estruturais, nem sequer conjunturais”, diz J. Fernandes. Especificou aos jornalistas da Renascença o presidente da APFLOR: “Neste momento, não posso dizer que tenha mudado grande coisa. Se mudou foi para pior, no sentido das infestantes, que se estão a desenvolver muito”.

Por outro lado, e a acrescentar a todas estas realidades negativas, estão as irregularidades na distribuição do dinheiro doado, em particular para a reconstrução de casas ardidas. O presidente da Câmara de Pedrógão Grande e outras personalidades vão a julgamento. Mas já em julho do ano passado o Tribunal de Contas criticara severamente o modo como os donativos foram distribuídos. Uma tristeza.

O artigo foi publicado originalmente em Rádio Renascença.

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