Nunca se deve desperdiçar uma boa crise! – Filipe Corrêa Figueira

Nunca se deve desperdiçar uma boa crise! – Filipe Corrêa Figueira

Segurança alimentar ou independência no aprovisionamento de bens essenciais não devem ser ponderadas a nível nacional, apenas a nível europeu. O nosso estilo de vida não permite esse retrocesso.

Para os que entre vós já se encontram algo chocados, porventura até exaltados, à conta do título, deixem-me que dirija as primeiras palavras aos bravos, desde médicos a agricultores, que estão na luta ativa contra esta pandemia. Outra para os que estão na menos urgente, mas de modo nenhum menos importante, luta passiva.

A todos, um muito obrigado!

Never let a good crisis go to waste!” já dizia Winston Churchill, líder fulcral na sua altura, todavia, ao contrário do que outros aventam, pouco para lá do imprestável seria na corrente situação. Porém, a sua mensagem ficou.

Esta mensagem transmite-nos a seguinte verdade evidente: as crises são conjunturas de disrupção e, sem falsos dilemas, a disrupção ou é positiva ou absolutamente trágica.

À falta de conhecimento para análise da possível disrupção a ocorrer noutros contextos e setores – que outros farão melhor do que eu – gostaria de refletir um pouco sobre a Agricultura, aquela atividade que, de uma maneira ou de outra, tem o dever de alimentar até os seus críticos mais acérrimos.

Queria começar por apontar uma divergência deste setor em relação aos outros – a agricultura não pode parar! Se um suinicultor fica meses sem alimentar os seus porcos, em Junho, Setembro ou Dezembro quando se voltar ao (novo) normal, não vão existir porcos. Se um fruticultor dispensar a poda ou uma série de tratamentos fitossanitários nestes próximos meses, também pode, desde já, considerar como perdido todo o capital empatado no pomar. Porcos, maçãs, arroz, milho, vaquinhas (já não tão produtoras de GEE, aparentemente), vinha, tomate… a todos se aplica esta lógica inevitável.

Tal agrava o impacto sobre esta atividade, pois, não podendo parar, ainda assim veem-se sujeitos a quebras de procura, por vezes, tão graves como em qualquer outro setor. Esta característica impede também que câmbios de procura, causados pelas alterações nos padrões de consumo (exº: quase não se come leitão em casa, mas bebe-se mais sumo de laranja), não possam, no imediato, ser acompanhadas pelo lado da oferta.

Já se começaram a alterar modelos de negócio, a mudar canais de distribuição… Os agricultores, como base da sociedade, sempre se viram forçados a adaptações bruscas, contudo não se veja, assim, o Estado desresponsabilizado do seu papel de estabilização, podendo começar, por exemplo, com a libertação de liquidez já aprovada, mas ainda não concedida, a dezenas de milhares de projetos agrícolas espalhados pelo País. Um começo.

Coordenação com os vários setores agrícolas para mitigação de falta de mão-de-obra com recurso a voluntários nacionais? Outro começo. Vários “começos” têm vindo a ser protagonizados pelas autoridades competentes. Insuficientes.

No entanto, a verdadeira disrupção que referi não passa por nenhum dos fatores ponderados até agora, mas sim por outros dois, bastante interligados: Ambiente e o conflito, amplamente ignorado atualmente, entre a globalização e a segurança alimentar.

Sem falsos rodeios, apercebemo-nos agora que a estratégia agrícola europeia não passava de uma compilação dos mais puros devaneios utópicos, completamente olvidados e desligados do mais fundamental princípio agrícola – a Agricultura serve para alimentar pessoas! A curto, médio e a longo-prazo um bucho atestado vai continuar a ser indispensável!

Numa altura em que as exportações colapsaram, sorriu ao consumidor o facto de termos um excedente nas frutas e hortícolas (aos produtores, nem tanto), mas poderá perder-se o tal sorriso quando começarem a existir carências de cereais, inevitáveis mantendo-se a situação atual, devido ao grau de autoaprovisionamento português cifrado nuns impressionantes 23%!

Para os mais anti-europeístas, ou até para os mais saudosistas dos “celeiros de Portugal”, lamento dececionar, mas segurança alimentar ou independência no aprovisionamento de bens essenciais não deviam ser ponderadas a nível nacional, apenas a nível europeu. O nosso estilo de vida não permite esse retrocesso, e ainda bem.

Qualquer prática que, com o suposto propósito de preservação do Ambiente, leve a abdicar de produção, ou seja, de comida, devia ser considerada imoral. Não porque não seja uma prioridade salvar o Ambiente – que é! – mas porque todos os esforços se devem concentrar na preservação do Ambiente com o aumento da produção, retirando benefícios da aliança que sempre existiu entre a Agricultura e o Ambiente que a rodeia.

Faixas de biodiversidade em 10% da área agrícola europeia que levariam a quebras de produção tão ou mais significativas, segundo indicações da própria Comissão para a Agricultura Europeia? 100% de Agricultura biológica na Dinamarca quando é conhecida a maior dificuldade em atingir produtividades na linha da agricultura moderna? Queremos estar dependentes de blocos erráticos como os EUA, autoritários como a China ou instáveis como a América Latina nesta altura de necessidade?

Era para lá que estávamos a conduzir as nossas políticas.

A disrupção na Agricultura no período pós-Covid19 prende-se com a necessidade premente de proteger o Ambiente, via Agricultura, com a incorporação de tecnologia que, cada vez mais, vai proceder ao desligamento entre os fatores de produção (cada vez menos) e a produção (que se quer cada vez maior).

Nunca se devia abdicar do principal propósito da Agricultura: alimentar o Mundo! Em tempos de crise, os nossos primeiro.

Tal como já nos começámos a aperceber que deixar toda a produção de máscaras ou medicamentos de várias ordens a indústrias estrangeiras nos deixa numa posição desconfortável de meros pedintes em alturas de crise, também esta lógica terá de ser trazida para a Agricultura aquando das próximas discussões para uma reforma da Política Agrícola Comum.

Se gostava que este texto chegasse àqueles mais críticos da agricultura moderna? Sim, gostava. Infelizmente, também sei que estes são aqueles mais alheios a boas fontes de informação sobre o setor e, portanto, vou aguardando, bem como tentando contribuir, para a mobilização que se tem começado a fazer sentir nos últimos anos para a construção de um verdadeiro lobby agrícola.

Contrariamente à fama por que pautam os lobbies na opinião pública, este serviria para trazer informação a uma área tantas vezes conspurcada pela mentira e ignorância e, quiçá, para dar uma voz aos agricultores num debate que é sobre… agricultura!

Filipe Corrêa Figueira

Estudante de Mestrado em Engenharia Agronómica do Instituto Superior de Agronomia

O artigo foi publicado originalmente em Observador.

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