Numa economia ao ritmo do WhatsApp e com uma concorrência global, 10% das empresas em Portugal já são campeãs de transformação digital

Numa economia ao ritmo do WhatsApp e com uma concorrência global, 10% das empresas em Portugal já são campeãs de transformação digital

O roadshow da PT Empresas visa levar informação, conhecimento e debate de ideias sobre transformação digital pelo país. Começou em Lisboa, seguiu para o Funchal, depois para Braga e, a 18 de junho, chegou a Leiria. “Este projeto está casado com um dos eixos da nossa estratégia que é proximidade ao território. Temos de ir aonde está o tecido empresarial e nesta fase de empreendedorismo e inovação que atravessamos temos visto muitas empresas a surgirem e a crescer no território nacional que olham para a tecnologia como um instrumento para se desenvolverem”, explica João Sousa, administrador de B2B da Altice Portugal e orador a quem também coube a abertura do evento.

A ideia da rapidez atravessa todos os setores e todas as empresas, mas mais do que uma corrida, há uma mudança de paradigma. “Esta revolução não dá tempo, tudo acontece muito rápido”, refere João Sousa. “A tecnologia trouxe às empresas novos desafios e novas oportunidades, porque hoje podem estar a competir com qualquer player no mundo e os grandes players mundiais também sabem que a sua concorrência pode estar a nascer numa garagem ou no projeto de um miúdo”.

“São os nossos problemas do dia-a-dia que nos obrigam a ir atrás da tecnologia”. A frase é de Paulo Pires, diretor de Supply Chain Management da Socem, empresa de moldes sediada na região de Leiria que foi uma das participantes no workshop “Liderar a Mudança”.

A experiência da Socem é reveladora quando este é o tema: as empresas de moldes, ao trabalharem em projetos que são preparados com anos de antecedência face à sua entrada no mercado (um dos principais clientes é a indústria automóvel), antecipa tendências e identifica necessidades. E é também por isso que Paulo Pires garante, com propriedade, que cada vez mais são precisas “pessoas para pensar”. Pessoas e disponibilidade para entender que a mudança é transversal às empresas e não exclusiva de uma área ou processo de negócio. “Eu gosto da mudança desde que não mexa comigo”, diz o gestor da Socem, é muitas vezes o que todos pensamos, mas mudar essa forma de estar é, mais do que pensar em tecnologia, a premissa mais importante da transformação digital.

Ao lado de Paulo Pires, num debate moderado por Ricardo Luz, diretor de Gestão de Segmento da PT Empresas, Pedro Pinto Lourenço, Diretor Business Applications da Microsoft, corroborou a ideia de a tecnologia ter de se adaptar aos negócios e não existir um mapa previamente desenhado. “Quando lançamos uma tecnologia não sabemos todos os usos que os clientes vão fazer, há conhecimento que se vai construindo à medida que se avança”, referiu. É por essa razão que não recomendam planos fechados a longo prazo – precisamente porque nunca a realidade foi tão dinâmica. “Não devemos fazer um planeamento muito intensivo porque senão quando se acaba já o mundo mudou”. E é neste tempo em que “três anos na economia atual são 10 anos antes” e em que “queremos ser servidos ao ritmo do WhatsApp” que as empresas olham para a tecnologia e para a revolução digital com um misto de entusiasmo e de apreensão.

Os números deste mundo em mudança ficaram bem expressos na apresentação de Mário Sousa, diretor de Produto e Pré-Venda da PT Empresas.

Alguns dados de enquadramento: em 2022 cerca de 40% do PIB em Portugal será proveniente de receitas da economia digital. Em linguagem corrente significa que quase metade da riqueza produzida no país terá origem nos negócios digitais, segundo o IDC. Mas não é tudo. Do lado do investimento, dois terços dos gastos em tecnologias de informação e comunicação estarão nas tecnologias da 3ª Plataforma e nos aceleradores de inovação – ou seja, na transformação digital. Para fechar este enquadramento, um rápido olhar às tecnologias com maior crescimento: cloud (21%), IoT (14%), Big Data (9%), cibersegurança (7%).

Continuando a olhar para o mercado global, Mário Sousa trouxe também resposta à pergunta sobre quais as áreas em que as empresas identificam maiores oportunidades em 2019, num levantamento feito pela Adobe. Otimizar a experiência do cliente lidera a lista, seguida de criar conteúdo relevante para experiência digital e de ter capacidade de personalizar estratégias de marketing a partir de dados; a utilização do vídeo para aumentar o envolvimento com a marca surge em quarto lugar na lista e a automatização de marketing para aumentar a eficiência em quinto.

A abordagem ao cliente lidera claramente os objetivos das empresas, mas áreas como a segurança merecem um alerta especial – e mais uma vez os números ajudam a perceber porquê.

As empresas demoram, em média, quase um ano – 286 dias — para detetar uma intrusão, e 80 dias para conter danos do ataque. Cada registo comprometido tem um custo médio de 130 euros e, em situações de quebra de segurança, estamos a falar de milhares, em alguns casos milhões, de registos comprometidos. Associados a estes dados, os estudos mostram também que 50% das PMEs sofre uma violação de dados envolvendo clientes e trabalhadores em 12 meses e 51% não atribui qualquer orçamento à mitigação de risco apesar da preocupação reconhecida com ciberataques.

“Uma das mensagens que procuramos passar, é que a transformação digital está aí e que não basta o CEO ou dono da empresa ter essa consciência, toda a organização tem de acompanhar”, reforça João Sousa.

Em Portugal, 10% das organizações estão em linha com índice internacional de transformação digital, são os chamados campeões nacionais e aqueles que melhor resposta estão a dar aos desafios que os estudos identificam. Ao nível dos setores, indústria automóvel e eletrónica, as chamadas AgTechs (empresas com novos modelos operacionais de agricultura de precisão) e a aquacultura destacam-se.

“Leiria é um distrito em franco crescimento que, pela sua dinâmica em algumas indústrias como a dos moldes, teve necessidade de se adaptar rapidamente à transformação”, exemplifica o administrador de B2B da Altice.

A sustentabilidade associada à competitividade é uma das frentes mais relevantes na transformação digital, quer pela pressão dos empresários quer pela dos consumidores cada vez mais atentos às questões ambientais. Uma preocupação a que os números em Portugal são razão: no território nacional 1 em cada 10 dias não tem qualidade do ar de nível muito bom e, talvez este seja o valor menos referido, 6690 mortes em Portugal são provocadas por condições de poluição.

IoT, uma tecnologia que alia sustentabilidade e competitividade

Como é que a tecnologia pode mitigar estes valores e trazer alternativas?

Inês Ferreira, Responsável de Produto IoT da PT Empresas, trouxe alguns exemplos concretos. “A Internet of Things (IoT) torna os negócios mais competitivos, porque permite que todos os objetos do dia-a-dia estejam conectados, recolhendo e enviando informação”, referiu na sua apresentação. Por exemplo, soluções para gestão de estacionamento que permitem aos condutores encontrar em tempo real lugares de estacionamento de superfície vagos e pagar via uma aplicação. Traduzida em números, esta solução representa 30% de redução de quilómetros percorridos à procura de estacionamento e 43% de redução do tempo de procura.

Outro exemplo é o da telemetria de água que permite a leitura remota de consumos, o controlo de balanço hídrico e do sistema de alarmística (fuga de água, contador invertido, contador parado, sobre e sub consumo). Em números, esta solução representa 20% de redução de perdas de água e 50% de redução nas emissões de CO2 nas deslocações para contagens. Outras soluções estão também em curso em áreas como eficiência energética (monitorizar remotamente consumo de energia de diferentes setores/circuitos), gestão de frotas (otimização com redução em 30% do consumo de combustíveis), monitorização da qualidade do ar e do ruído em vários municípios.

Também a Avigilon, empresa fundada em 2004 por um luso-descendente, Alexander Fernandes, e adquirida pela Motorola, grupo que hoje integra, trouxe aplicações concretas de algumas das soluções que foram debatidas ao longo do dia. O mercado em que opera – a videovigilância – regista crescimentos anuais de 20 a 25% – e a empresa trabalha com tecnologias como inteligência artificial, reconhecimento facial e big data. “Produzimos mais informação nos últimos cinco anos do que nos seis mil anteriores”, começou por referir Gonçalo Pereira Pessoa, responsável regional de vendas para os mercados de Portugal, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, ao traçar um panorama da evolução tecnológica e da banda larga. A Avigilon tem 800 patentes na área de videovigilância e desenvolveu um motor de inteligência artificial de redes neuronais.

Nuno Almeida, Sales Manager Enterprise da Samsung, trouxe ao palco o tema da mobilidade e a forma como está a mudar a forma como vivemos e como trabalhamos. Mais uma vez, alguns números que fazem pensar sobre as transformações em curso numa multiplicidade de setores: existem 2,81 milhões de aplicações na loja Google Play e 2,26 na App Store que correspondem a interpretações digitais de uma diversidade de situações e procedimentos.

“Temos de resolver a dor das PME”

Óculos para realidade aumentada, lembram-se? Depois de uma primeira onda de euforia com a tecnologia, esta foi uma solução que regressou (ou na realidade nunca saiu) aos laboratórios para ser aperfeiçoada e sobretudo compreendida nas suas possibilidades de utilização. A forma como a Gema, empresa portuguesa de marketing interativo, sediada no Porto, a utiliza traduz bem uma das ideias dominantes quando se fala de transformação digital: é muito sobre tecnologia, mas é muito mais sobre pessoas e processos. “Fomos desafiados por uma empresa multinacional a usar esta tecnologia na sua filial em Portugal”, contou Mafalda Ricca, diretora comercial e de marketing da Gema. A mesma empresa tinha tentado usar a solução na Alemanha, mas sem sucesso, acabando por pôr de lado a sua aplicação.

“O que fizemos em Portugal foi detalhar que tipo de utilizações podia ter e onde podia efetivamente ser utilizada com melhoria de processos e redução de custos”, relatou a responsável da Gema. A solução acabou por ser usada não de forma transversal – como tinha sido tentado, e falhado, na Alemanha – mas apenas num processo em concreto como forma de exibir o tutorial de uma máquina. “E essa utilização funcionou e foi adotada”.

O caso prático apresentado pela Gema foi corroborado pela experiência da Compta no trabalho com clientes que procuram a empresa para implementar as mais diversas soluções tecnológicas. “Temos de resolver a dor das PME e apresentar a tecnologia como acelerador não como solucionador da estratégia”, sublinhou Luís Curvelo, diretor de marketing e inovação. Uma experiência que Miguel Almeida, Sales & Partners Manager da Cisco, partilha, nomeadamente com exemplos concretos de PMEs onde a realidade diária é diferente das grandes empresas. “Hoje em dia temos de entender que a figura do help desk, a pessoa que resolve problemas informáticos nas empresas, não é a mesma do responsável pela digitalização”, afirmou.

O que não significa que as empresas que não têm recursos para individualizar áreas estejam impossibilitadas de avançar com processos de transformação digital, pelo contrário. “Tem é de existir estratégia nesse sentido; um dos casos mais bem sucedidos que acompanhei foi o de um diretor geral de uma PME de moldes aqui de Leiria que assumiu ele próprio a estratégia de digitalização”.

Tudo traduzido, e mesmo que muitos receiem a atual revolução tecnológica, para Luís Curvelo são sempre as pessoas a chave do sucesso. “As pessoas são o principal impacto em todo este processo e são mais necessárias – podemos deixar de ter um operador de máquina e passamos a ter um programador de máquina, mas continuam a ser as pessoas o principal fator”.

O artigo foi publicado originalmente em SAPO 24.

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