Notas da Semana – Opinião Pública e publicada: como contrariar as inverdades – Jaime Piçarra

Notas da Semana – Opinião Pública e publicada: como contrariar as inverdades – Jaime Piçarra

Já todos sabemos a importância da comunicação social e o apetite voraz de alguns meios pela desgraça, meias-verdades, julgar no imediato sem cuidar de analisar todos os factos, porque vende e é sensacional, o quinto poder como é (era?) vulgarmente conhecido.

Entretanto, nos últimos anos, fomos descobrindo a força das redes sociais, o poder de um smartphone que pode ser usado por cada um de nós, a que se junta os programas em canal aberto, as redes de discussão, os podcasts, o Youtube…. Cada um de nós é um comentador avalizado sobre tudo, a maior parte das vezes sem ter qualquer conhecimento da realidade e não raras vezes construindo verdades e realidades alternativas.

Porque não temos tempo de ler, o que conta é não sermos excluídos das conversas, dos grupos de amigos, encaminhar a mensagem ou a notícia, sem bases científicas e uma inverdade repetida ou uma “meia-verdade” é amplificada como se fosse a verdade. E disso fazemos noticia porque queremos estar na moda ou ser o primeiro.. Contar o número de likes ou o nível de ruído. Apostar nos influencers é hoje a moderna forma de marketing e comunicação.

Paralelamente, temos hoje uma sociedade que se quer justa, melhor informada, participativa, em que abundam, as consultas públicas e os apelos à sociedade civil.  Em Bruxelas, até temos os Grupos de Diálogo Civil que representam, legitimamente, As diversas partes interessadas em determinado assunto, os stakeholders.

E o mais caricato é que ficamos com a sensação de que nada vai mudar porque as redes sociais substituíram a tradicional comunicação social, o digital abre novos caminhos e potencialidades, a rapidez da informação é decisiva e os governos são sensíveis a tudo isto. O que conta são as sondagens, as opiniões, a perceção e, se muita gente comenta ou fala, então esse deve ser o caminho. Popular e populista…

Que fique claro que não colocamos minimamente em causa o papel importante e muito relevante dos media, na formação e informação, no jornalismo de investigação e de “contra-poder” ou das vantagens (enormes) das redes sociais. O problema que hoje enfrentamos é o acesso à informação, a gestão das notícias e como as interpretamos ou manipulamos.

Neste pluralismo de ideias e opiniões, como identificar as inverdades ou “fake news”? Como gerir eventuais danos ou efeitos colaterais?

Vem tudo isto a propósito de um artigo de opinião de Miguel Sousa Tavares publicado no “Expresso” da semana passada intitulado “A agricultura irresponsável” que coloca em causa um modelo de agricultura. Depois dos olivais, são agora os abacates, abordando em seguida vários temas como o emprego e mão de obra utilizada na agricultura, as condições de vida desses trabalhadores que é uma questão de direitos sociais e humanos, que deve ser investigada pelas autoridades oficiais.

Não pretendo de forma alguma responder aqui ao Miguel Sousa Tavares, nem disponho das mesmas armas e visibilidade, nem tão pouco desejo defender os produtores de abacate no Algarve, que, além de terem certamente quem os defenda, deverão ter apostado nesta cultura, como outros no olival, no amendoal ou em culturas alternativas – sobretudo no Alqueva – como a melhor forma de rentabilizar a água, o solo e o território, para que este não definhasse ainda mais e condenasse estas terras (que tão bem conheço) a um maior abandono.

O artigo de opinião levanta desde logo inúmeras questões.

O primeiro, o da discussão entre agricultura intensiva ou extensiva, que não tem qualquer sentido, porque devemos falar hoje, de agricultura e pecuária ecologicamente eficientes do ponto de vista da utilização de recursos e é esse o caminho que queremos seguir. E temos de perceber e demonstrar, cientificamente, que por unidade de produto, uma produção intensiva utiliza menos recursos para o mesmo nível de produção.

Aqui temos uma outra questão que é a de saber que produções queremos ou deveremos ter no futuro. Abandonámos a autossuficiência em valor? Apostamos nessa autossuficiência pela redução das produções e/ou do consumo, mais saudável ou sustentável?

Aqui chegados, há que olhar para o papel da cadeia agroalimentar no pós-pandemia e desde logo para a agricultura e pecuária, que sempre foram os setores de refúgio em todas as crises. E quando, infelizmente, terminarem as moratórias e os apoios, receio bem que tenhamos um elevado nível de desemprego, um mercado interno em dificuldades e consumidores com baixo poder de compra. Um País que, tal como no período da Troika, vai relevar a importância do setor agrícola e pecuário, da indústria agroalimentar, para o relançamento da economia.

Se tivermos em conta as exportações em 2020, concluímos que o agroalimentar está em alta, quando comparado com as exportações globais, impulsionadas pelos setores do azeite, carnes e animais vivos, vinho, frutas e hortícolas, muitos deles diabolizados por alguma opinião pública e publicada.

Afinal, queremos potenciar este desempenho, apostar nas exportações e na qualidade, na inovação e no conhecimento, numa sustentabilidade que reconheça os pilares social, económico e ambiental, ou apenas o ambiental, sem cuidar dos outros pilares.

Não defendemos o “vale tudo” – se existem abusos, devem ser punidos severa e exemplarmente para separar o “trigo do joio” – mas há que construir um caderno de encargos que tenha em conta esse equilíbrio, tanto mais que os apoios e políticas públicas, terão de ter em conta, cada vez mais, um contrato entre os destinatários e o Estado e através dele deve ser possível conhecer, à partida, as regras do jogo para que se possa garantir estabilidade e previsibilidade aos investidores. E, sobretudo, esse contrato deve ter por base uma ideia muito clara sobre o que queremos para Portugal, tendo em conta a nossa realidade e o abandono a que já votámos o território.

Numa altura em que discutimos o PEPAC e a agenda do Pacto Ecológico Europeu, tendo presente o Plano de Recuperação e Resiliência (a “bazuca”), esta é uma excelente oportunidade para este debate, sem demagogia e com um rumo definido.

No setor da alimentação animal, com o apoio do FeedInov e a contribuição dos nossos Associados e de toda a Fileira, estamos a fazer esse caminho e a construir a nossa narrativa, numa base científica e de conhecimento.

Todos são bem-vindos para nos conhecer e desafiar. É essa a nossa forma de comunicar: com verdade, confiança e base científica.

Opiniões públicas e publicadas baseadas em mitos, inverdades ou meras repetições e, sobretudo, sem um modelo alternativo, não só não servem Portugal, como nos condenam a um maior empobrecimento.

Jaime Piçarra
Secretário-Geral

O artigo foi publicado originalmente em IACA.

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