A semana que hoje termina ficou marcada, como seria de esperar, pelos desenvolvimentos da guerra no Irão que, pese embora as declarações do Presidente Trump sobre a duração do conflito e da eventual libertação dos stocks de petróleo, não parece acalmar os mercados.
No que respeita à alimentação animal, para além das questões de que aqui falámos na semana passada – os fertilizantes, aditivos e a relação euro/dólar – o setor depara-se com constrangimentos na logística e os operadores estão a reagendar contratos que colocam em causa a previsibilidade dos fornecimentos, sobretudo de soja.
Não deixa de ser caricato, qual “ironia do destino”, que perante um mercado abundante a nível mundial, sejamos confrontados com tamanhas dificuldades, decorrentes dos custos dos fretes, relacionados com os seguros e, obviamente, com o petróleo. Em termos de mercados futuros, os preços dos fretes são negociados aos custos atuais, para além das habituais especulações e, se forem verdadeiros os rumores de um aumento na incorporação de biocombustíveis, então teremos mais uma insensatez da União Europeia. Os Estados Unidos da América (EUA) poderão absorver esse impacto, mas na Europa, sobretudo com as novas regras da RED (Diretiva relativa às energias renováveis e a penalização da soja no ILUC), corremos o risco de criar ainda mais perturbações no abastecimento de uma matéria-prima essencial para a cadeia alimentar.
Talvez a (única) solução para o regresso a uma acalmia seja mesmo a segurança militar do Estreito de Ormuz e o rápido regresso à diplomacia.
Para já, de acordo com as informações do mercado, milho e trigo têm vindo a registar aumentos de 5 a 6%, enquanto na soja e derivados, seguem uma tendência altista, na ordem de 10 a 15%. Se considerarmos os cereais, oleaginosas e os aditivos/aminoácidos, podemos ter agravamentos mensais na ordem dos 9 a 10 milhões de euros para o setor. Estes sobrecustos, naturalmente, têm de ser repassados ao longo da Fileira até chegarem ao consumidor, porque não é possível à Indústria da alimentação animal suportar tão elevada fatura.
O que pode fazer o Governo?
Para já, deixamos algumas sugestões: para além do que está previsto e anunciado por Bruxelas, ao nível da energia, há que preparar apoios para conter os custos, olhar rapidamente para as tarifas da SILOTAGUS, criar uma linha de financiamento para os pagamentos por conta das empresas ou autorizar esses pagamentos faseados e, não menos relevante, reativar rapidamente a Comissão de Acompanhamento da Cadeia Agroalimentar e Logística, que tão bem funcionou durante a pandemia. Para além de uma coerência de discurso e comunicação, permite identificar, resolver ou mitigar diferentes problemas que se colocam ao longo da cadeia de abastecimento.
Numa altura em que a inflação tende a aumentar, sendo de 2,1% em fevereiro, convém não esquecer que o índice relativo aos produtos alimentares não transformados foi de 6,7% (os hortícolas frescos 9,5%). Os preços da alimentação e o agroalimentar, no geral, vão estar sujeitos a uma enorme pressão, a que o Governo não pode ficar indiferente.
E como se não fosse suficiente tudo isto, com o país ainda a tentar reerguer-se da devastação da tempestade “Kristin”, teremos de nos confrontar, a partir de janeiro de 2027, com a implementação do EUDR, a legislação relativa às cadeias livres de desflorestação.
A FEFAC acaba de divulgar um estudo sobre o impacto da aplicação do EUDR, na sua versão atual. E a resposta às FAQ, na realidade, não clarificam as dúvidas relativas à insegurança jurídica. Junta-se a isto o facto de os países exportadores, desde logo o Brasil, não conseguirem dar resposta a todas as exigências colocadas pela DG ENVI.
Tendo em conta as informações de mercado, os custos acrescidos da soja, com um cenário de Cadeia de Custódia (CoC) em que cada operador assume a sua responsabilidade, serão de 15 €/ton, e com um cenário de segregação na ordem dos 50 €/ton. Neste cenário, para um consumo de 33 milhões de tons, o impacto será de 1,65 mil milhões de euros, podendo situar-se nos 2,4 mil milhões pelas consequências nos preços altistas de outras fontes de proteína como os bagaços de colza, girassol ou os aminoácidos. Ao longo da cadeia de valor, o estudo aponta para um acréscimo de custos de 30 a 70 euros por tonelada na carne de suíno e de 7,5 a 25 euros na carne de aves.
Seria (será?) um preço demasiado elevado a pagar, intolerável e que compromete, de uma forma irreversível, a competitividade da produção animal na União Europeia e a capacidade de afirmação da sua indústria pecuária nos mercados globais – sobretudo os setores das aves e dos suínos – para além do impacto direto na inflação.
Afinal, o dossier EUDR está longe de finalizado, pelo contrário, pode criar ainda maiores disrupções.
Sabemos que a Comissão Europeia, liderada pela DG ENVI e pela Comissária Teresa Ribera, não quer fazer concessões e receamos que a desejada simplificação, prevista para abril, não vá acontecer.
Resta-nos a reabertura do processo legislativo, que possa dar segurança jurídica, previsibilidade e, sobretudo, que possa ser transparente e aplicável à realidade dos mercados, com procedimentos de controlo harmonizados em todos os países da União Europeia. Não está em causa, como sempre dissemos, o combate à desflorestação e a proteção ambiental, mas a aplicação de uma Lei que pode ser mais um “tiro no pé”.
Pode estar (também) em causa a segurança alimentar. O que fazer com a EUDR? Têm a palavra os decisores políticos. Não pode é ser (mais) um elefante na sala!
Jaime Piçarra
Secretário-Geral da IACA































