Mitos e modas da alimentação – Isabel Bragança

Mitos e modas da alimentação – Isabel Bragança

Como é fácil cair em extremos e acreditar em teorias que nos impõem, sem ir procurar fundamentos! A dieta mediterrânica – baseada nos hábitos alimentares de países como Portugal, Grécia e Sul de Itália – é uma dieta equilibrada e saudável, caracterizada, no geral, pelo abundante consumo de peixe, frutas e legumes, pela preferência pelo azeite como fonte de gordura, mas inclui também o consumo moderado de lacticínios, carnes e vinho. Ora, se antigamente era comum cumprir estes padrões de alimentação diária, hoje parece-me raro encontrar quem o faça. Os hábitos foram mudando e criaram-se mitos associados a uma suposta alimentação saudável (e, para não ajudar, à produção animal) que assustadoramente pegaram numa sociedade dita desenvolvida e com tão fácil acesso a meios de pesquisa, que deveriam ajudar a desmistificar. O consumo de carnes vermelhas faz mal? O leite e seus derivados são um veneno para a saúde? Os produtos vegan é que são saudáveis? E os super alimentos que nos dão mais anos de vida? Não! O que precisamos é de equilíbrio, e não de exageros…

“Ora é o azeite que é prejudicial à saúde, ora afinal é a manteiga… Ah, mas agora já faz falta outra vez a gordura de origem animal!” “E os ácidos gordos saturados e trans das carnes vermelhas (seja lá o que for, para a maioria da população)? Nem pensar, causam cancro!” “As carnes brancas é que são boas, e não engordam. “O leite não faz falta porque somos o único mamífero que bebe leite em adulto.” Frases que se vão ouvindo mas que, se formos a ver, quem as diz nem sabe bem porque é o que diz. Talvez porque o amigo do primo do vizinho leu que era assim num estudo científico ou porque o médico x recomendou a este ou aquele que reduzisse determinado alimento da sua dieta. Será que estas pessoas não se lembram de ir ver como foram feitos os estudos que teoricamente comprovam estes resultados? Nenhum factor pode ser avaliado por si só: por exemplo, talvez seja verdade que com o consumo de carnes vermelhas tenha aumentado a incidência de cancros, mas também é verdade que foram avaliados casos de pessoas que consumiam estas carnes praticamente todos (ou mesmo todos) os dias da semana. Seria também importante analisar o estilo de vida destas pessoas, pois é também um facto que nos dias de hoje temos uma vida mais sedentária no geral, com mais stress associado e menos prática de exercício físico. Acrescento ainda a melhoria dos diagnósticos médicos, que têm permitido identificar doenças mais eficazmente, no entanto não significa que não existissem há anos atrás.

É engraçado ver como, de acordo com os dados do INE entre os anos 2010-2014, o consumo de carne de aves de facto aumentou 1,3kg/ano e, em oposição as carnes de suíno e bovino diminuíram 2,kg/ano e 1,7kg/ano, respectivamente. Sabendo que o consumidor assume que prefere carnes brancas e com baixo teor de gordura por questões de saúde, por um lado isto reflecte esta mesma preocupação da população. Porém, o consumidor não se preocupa em ver que, proporcionalmente a quantidade de ácidos gordos de um frango seja idêntica à de carne de bovino, e não olha a todas as outras qualidades que esta carne possa ter tanto em termos de nutrientes benéficos para a saúde como mesmo em termos de outros ácidos gordos, como o ácido esteárico, ácido gordo saturado presente em maior quantidade e que tem efeito neutro na elevação do colesterol e logo para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Ainda, a quantidade de gordura presente neste tipo de carnes é tão baixa, que a contribuição dos ácidos gordos é praticamente insignificante (Figura 1).

Figura 1 – Balança de vantagens e desvantagens da carne de bovino

Já em relação ao leite, tenho que dar os parabéns aos produtores de soja, que conseguiram lançar uma moda com bastante sucesso e sem fundamento nenhum! Ao fazer uma pesquisa no Google para “leite de vaca” logo o que surge são páginas como “leite de vaca faz mal” e “as doenças associadas ao leite de vaca”. Mas se desde a domesticação da vaca, vários anos antes de Cristo, que o Homem extrai e bebe o leite de vaca e nunca lhe fez mal, porque é que agora no século XXI já faz? Sempre houve intolerâncias à lactose e alergias ao leite, no entanto estas são casos pontuais e não consigo acreditar que tanta gente hoje em dia não consiga digerir a proteína do leite, de um dia para o outro; parece que está na moda dizer-se que se é intolerante à lactose, mesmo sem se fazerem análises a qualquer tipo de alimento. Mais uma vez, o leite e produtos lácteos, como todos os nutrientes, devem ser consumidos moderadamente e não em exagero. Talvez venham daí alguns problemas que se notam na população – falta de equilíbrio na dieta. O argumento de sermos o único mamífero que bebe leite em adulto é outro ainda mais inconcebível: também somos o único mamífero racional, o único mamífero que bebe café, o único mamífero que lê e que faz tantas outras coisas que os outros mamíferos não fazem… E se pusermos leite à disposição de um cão ou de um gato? Não o vão beber? Vão sim! Aliás, as vacarias são invadidas por estes mamíferos que se deliciam com os restos de leite que caem dos tanques…

Chega então a incorporação dos produtos vegetais em substituição dos produtos de origem animal que, para além de teoricamente serem muito mais saudáveis, defendem os animais que, “coitadinhos”, são muito mal tratados. Vamos por partes:

– Será que a população tem noção que, para se conseguirem as produções requeridas por este estilo de vida praticamente todos os produtos vegetais são transgénicos? E que efeitos é que isso terá para a saúde? Ao tempo em que são consumidos ainda não será possível ver muitos dos resultados que podem ter, ou não. E a área de floresta e habitat natural de muitas espécies que são destruídos para se atingirem estas produções?

– Desde quando é que tudo o que é vegan e vegetariano é obrigatoriamente mais saudável? Tenho-me cruzado com várias receitas na internet intituladas mais ou menos assim: “bolinhos vegan e sem açúcar – mais saudáveis e bons para os miúdos”. Então experimente comê-los todos os dias, como (não) fariam com os bolinhos de sempre…

– Seria, por outro lado, interessante que se procurasse conhecer a realidade do nosso país, pesquisando as condições em que os animais são criados e procurando mesmo visitar explorações pecuárias. Muitos dos mitos da produção animal resultam de condições de produção fora da Europa, como na América, onde as regras são totalmente diferentes das nossas – mas o consumidor nem se preocupa em saber o que está a ver. Em Portugal e na Comunidade Europeia, o bem-estar animal aperta cada vez mais e as condições de higiene e sanidade são cada vez mais exigentes, não permitindo que o produto seja vendido no mercado caso as regras não sejam cumpridas.

– Ainda, a ideia de que os animais produzidos em confinamento são animais infelizes e mal tratados está errada. Quando são, há justificação para tal e devíamos pensar que algum animal que não esteja bem nunca nos dará o produto que queremos extrair dele (seja a carne ou leite ou a lã), e portanto o produtor deverá ser o primeiro a ter interesse em manter as condições adequadas de bem-estar para os seus animais.

Assim me intrigam todas estas modas e mitos que se lançam, e intriga ainda mais a falta de procura de informação por parte da população, que facilmente acredita no que lhe é imposto. Não sendo especialista em nutrição humana não poderei fazer declarações profundas sobre este assunto, posso apenas manifestar uma opinião com base nos conhecimentos de produção e composição dos alimentos de origem animal, áreas que acabam por se cruzar.

Engenheira Zootécnica

Isabel Bragança

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