2003, 2005 e 2017 foram os anos dos mais severos incêndios rurais e contribuíram para que a área ardida em Portugal fosse das maiores da Europa desde 2000. Para além de refletirem mudanças na utilização do espaço rural, estes registos estão diretamente relacionados com condições meteorológicas extremas.
26 de Março 2026
Os cinco países mediterrânicos cujo clima e a geografia mais se assemelham – Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia – foram os que viram mais território afetado por incêndios desde 2000. Espanha foi o país com mais área ardida nos anos 80 e 90, mas nas duas seguintes a área ardida em Portugal ultrapassou os registos do país vizinho.
Na década de 80 (1980-1989), a média de área ardida Espanha foi a mais elevada dos cinco países, perto dos 245 mil hectares, enquanto em Portugal a média ficou perto dos 73,5 mil hectares. Na década de 90 (1990-1999), Espanha continuou a ter a média mais elevada, 161,3 mil hectares, enquanto Portugal chegou aos 102 mil hectares. Na década seguinte (2000-2009), Portugal teve a média mais elevada destes cinco países, quase 161 mil hectares (Espanha teve uma média de 127 mil hectares). O mesmo aconteceu entre 2010 e 2019, com uma média de 138 mil hectares (94 mil hectares em Espanha).
Entre 2000 e 2024, Portugal foi o país europeu (EU-27) com mais extensão de território afetado, segundo o relatório Forest fires in Europe, Middle East and North Africa 2024. 3,4 mil milhões de hectares de área ardida (quase 600 mil hectares acima dos 2,8 mil milhões em Espanha). Para este lamentável recorde contribuíram em particular os anos de 2003, 2005 e 2017 com vastas extensões de área ardida em Portugal, intercalados por anos de registos muito baixos, como sucedeu em 2007, 2008, 2014 e 2021, em que a área ardida nacional ficou muito abaixo de outros países mediterrânicos.
Estes anos em que se regista maior área ardida em Portugal têm algo em comum: os incêndios mais devastadores ocorrem em larga maioria em dias de condições meteorológicas extremas: “a área ardida neste tipo de condições corresponde à quase totalidade da área ardida, em particular nos anos em que mais arde”, assinala um estudo do Observatório Técnico Independente (dezembro de 2020), que alerta “São, na realidade, os dias de condições meteorológicas extremas que nos devem preocupar (…)”. Estes dias caracterizam-se por baixos valores de humidade do ar e de elevadas temperatura e velocidade do vento.
Segundo a análise efetuada, 91% do total da área ardida em Portugal em 2003 corresponde a incêndios em dias de condições meteorológicas extremas. A história repete-se em 2005, ano em que 92% da área ardida aconteceu nestas mesmas condições. O mesmo padrão regista-se em 2017: dos 540 mil hectares ardidos, perto de 508 mil (94%) correspondem a 72 dias de condições extremas. Recorde-se que as “condições extremas” são a classe mais elevada do índice de severidade meteorológica DSR – Daily Severity Rating, medida considerada a mais representativa da dificuldade em combater um incêndio.

Evolução da área ardida na Europa mediterrânica, 2000 – 2024
Fonte: Forest fires in Europe, Middle East and North Africa 2024
Não é, por isso, de estranhar que cerca de 54% da área ardida em Portugal em 2017 tenha ocorrido durante uma onda de calor e sob os ventos fortes causados pelo furacão Ophelia, já em outubro, numa altura em que o país se encontrava em situação de seca. Neste que foi o mais dramático incêndio de que há registo em Portugal, o território nacional devastado pelo fogo representou 41% de toda a área ardida na Europa.
2022 foi, depois de 2017, o ano com mais área ardida na União Europeia, com quase 900 mil hectares afetados. Quase 539 mil hectares arderam nestes cinco países e Espanha liderou os registos. No país vizinho, 82% dos grandes incêndios aconteceram durante três vagas de calor que afetaram o território peninsular e as ilhas Baleares. As Canárias foram afetadas por outras duas ondas de calor. Além de ter sido um ano excecionalmente quente, 2022 foi também um dos mais secos em Espanha – o sexto mais seco desde 1961 e o quarto do século XXI. “Esta situação meteorológica teve uma correlação direta com os maiores incêndios que ocorreram”, refere o relatório anual de 2022 do EFIS – European Forest Fire Information System.
Em 2024 foram registados mais de 419 mil hectares de área ardida em 21 dos países da União Europeia, segundo o relatório de 2024 do EFIS. Mais de 64% deste total (quase 270 mil hectares) aconteceu nestes cinco países mediterrânicos e, entre eles, Portugal foi o mais afetado, com perto de 140 mil hectares ardidos (mais de 120 mil nas regiões Norte e Centro).
O pico dos incêndios na Europa ocorreu em setembro, quando se registaram também os maiores incêndios em Portugal em 2024: a área ardida nesse mês foi de mais de 126 milhões de hectares, 92% do total anual. Embora a maior parte do nosso território estivesse em condições de seca em agosto de 2024, principalmente no Sul, foi já entre 15 e 19 de setembro, no noroeste de Portugal, que ocorreram alguns dos incêndios mais críticos: em Reriz e Gafanhão (Castro Daire) e em Albergaria-a-Velha e Valmaior (Aveiro) arderam mais de 35 mil e 20 mil hectares, respetivamente. Nesses dias, registaram-se fenómenos extremos que já não ocorriam há mais de 25 anos, com humidade do ar muito baixa e ventos fortes e quentes vindos de Este.
Entre 2000 e 2024, foram registados 3,4 milhões de hectares área ardida em Portugal, 2,8 milhões em Espanha, 1,9 milhões em Itália e 1 milhão na Grécia. França tem registos menos dramáticos, com 400 mil hectares ardidos. No entanto, este total não corresponde integralmente a fogos na floresta.
Mais de 1,6 milhões de hectares de área ardida na floresta portuguesa em 25 anos

Área ardida em floresta, matos e agricultura 2000-2024
Fonte: Áreas Ardidas vs Uso e Ocupação do Solo – ICNF
De 2000 a 2024, dos 3,37 milhões de hectares de área ardida em Portugal, os povoamentos florestais e as áreas de matos foram as ocupações do solo mais afetadas: mais de 1,6 milhões de hectares correspondem a povoamentos florestais, o equivalente a 49% da área total, e mais de 1,4 milhões de hectares a matos (44%), de acordo com os dados de áreas ardidas e uso e ocupação do solo divulgados pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.
Olhando apenas para as espécies florestais, os incêndios afetaram principalmente eucalipto e pinheiro-bravo, o que seria esperado, visto que estas duas espécies representam perto de metade da área florestal no país.
A expansão e abandono do espaço rural, os aumentos da carga combustível, das ignições e da temperatura, assim como a irregularidade da precipitação são vistos com os quatro fatores centrais que estão a aumentar o risco de incêndio em Portugal e no resto da Europa mediterrânica.
Por sua vez, a desflorestação e a degradação das áreas florestais contribuem para as emissões de gases com efeito de estufa, que estão na base das alterações climáticas. Em paralelo, as perturbações nos ecossistemas causadas pelo abandono e pelos incêndios rurais favorecem a instalação de plantas invasoras, com impactes no ambiente, economia e saúde.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.













































