A UPGALL – União dos Produtores e Proprietários Lesados pelos Lobos vem, uma vez mais, denunciar uma situação profundamente preocupante e revoltante, que merece a atenção urgente da comunicação social, das entidades competentes e, sobretudo, dos responsáveis governamentais pelas áreas da Agricultura e do Ambiente.
As imagens que agora divulgamos mostram um lobo a alimentar-se dos restos de um bovino morto na sequência de um ataque de lobo, enquanto outros animais permanecem nas proximidades. Uma realidade que levanta sérias preocupações quanto à segurança dos efetivos pecuários e às condições em que os criadores são obrigados a desenvolver a sua atividade.
O que mais impressiona nestas imagens é a aparente tranquilidade dos bovinos perante a presença do predador, como se esta convivência se estivesse a tornar uma realidade cada vez mais frequente nas explorações. Estamos perante um animal cuja morte por ataque de lobo foi confirmada, enquanto os restantes bovinos continuam expostos à presença do predador.
E perante estas imagens, somos obrigados a perguntar: o que acontecerá quando já não restar nada daquele animal? Qual será a próxima vítima? Quantos animais terão ainda de morrer para que sejam tomadas medidas verdadeiramente eficazes?
Não podemos continuar a assistir a estas situações como se fossem acontecimentos normais e inevitáveis. Por detrás de cada animal morto existe um criador, uma exploração, um investimento e, muitas vezes, uma família que depende daquela atividade para sobreviver.
AFINAL, O QUE É QUE AINDA SE PODE EXIGIR AOS CRIADORES?
Há anos que os produtores ouvem as mesmas recomendações: reforçar vedações, adquirir cães de proteção, alterar práticas de pastoreio e investir em medidas preventivas. Contudo, os ataques continuam a ser comunicados e os criadores continuam a relatar prejuízos, dificuldades e ausência de soluções adequadas à realidade das suas explorações.
Será que alguém avaliou verdadeiramente a viabilidade destas exigências? Será que quem apresenta estas medidas conhece as condições em que se pratica a pecuária extensiva nas nossas serras?
Como se protege permanentemente um efetivo bovino que pasta em grandes extensões de terreno? Como se aplicam determinadas medidas preventivas a animais que percorrem vários quilómetros diariamente? Como se pretende vedar terrenos de difícil acesso, muitas vezes distribuídos por diferentes parcelas e sujeitos a condições geográficas particularmente exigentes?
E, acima de tudo, quem suporta os custos destas medidas, a sua manutenção e o trabalho adicional que exigem?
Não podemos continuar a apresentar a prevenção como se fosse uma solução simples, universal e inteiramente dependente da vontade dos criadores. A realidade da pecuária extensiva não pode ser ignorada por quem define medidas a partir de gabinetes, sem conhecer suficientemente as dificuldades enfrentadas no terreno.
Existem sistemas de produção que dependem diretamente das pastagens naturais e da liberdade de circulação dos animais. Pretender resolver este problema através de vedações, cães de proteção ou estabulação é ignorar as características de muitas explorações e as necessidades das próprias raças autóctones.
E quando todas as medidas possíveis são adotadas e, ainda assim, os ataques continuam a acontecer, quem assume a responsabilidade?
A UPGALL tem vindo a receber relatos de produtores que denunciam dificuldades no reconhecimento dos ataques, atrasos nos processos de indemnização e prejuízos que acabam por suportar integralmente.
Importa recordar que a perda de um animal não representa apenas o seu valor comercial. Representa anos de trabalho, investimento em alimentação, acompanhamento veterinário, potencial reprodutivo e, em muitos casos, a continuidade económica de uma exploração familiar.
Uma vaca reprodutora, por exemplo, não pode ser avaliada apenas pelo seu peso ou pelo seu valor de mercado no momento da morte. Há que considerar o investimento realizado, a sua capacidade produtiva e reprodutiva e as consequências que a sua perda provoca na exploração.
AFINAL, QUEM ESTÁ VERDADEIRAMENTE A PAGAR O PREÇO DA CONSERVAÇÃO DO LOBO-IBÉRICO?
É incompreensível que os custos e as consequências das políticas de conservação continuem a recair de forma tão significativa sobre quem vive e trabalha nos territórios onde o lobo está presente.
O que não é aceitável é continuar a colocar os interesses da conservação do lobo acima da sobrevivência dos criadores, da continuidade da atividade agropecuária e da preservação das raças autóctones.
São os produtores que, diariamente, trabalham para manter vivas as tradições, preservar as paisagens, gerir a vegetação e combater o abandono do mundo rural. No entanto, são também eles que continuam a suportar prejuízos e consequências de decisões tomadas longe da realidade que enfrentam.
Não estamos apenas a falar de animais mortos. Estamos a falar de pessoas que perdem rendimentos, de famílias que vivem na incerteza, de produtores que ponderam abandonar a atividade e de explorações que enfrentam dificuldades crescentes para continuar a existir.
E quando estes produtores desistirem, quem ficará a cuidar das nossas serras? Quem assegurará a gestão da vegetação, a manutenção das pastagens e a preservação das raças autóctones?
É fácil defender políticas de conservação quando os prejuízos são suportados por terceiros. Muito mais difícil é enfrentar diariamente as consequências dessas decisões, trabalhar durante anos para construir uma exploração e assistir à perda dos animais sem conseguir garantir a sua proteção.
A UPGALL considera profundamente insuficiente que a resposta a esta realidade continue a assentar no anúncio de novas linhas de financiamento e na repetição de medidas preventivas que já são defendidas há vários anos.
Se estas medidas são apresentadas há tanto tempo como solução, por que razão continuam tantos criadores a relatar ataques e prejuízos? Onde estão os resultados concretos que demonstram a sua eficácia?
Não basta anunciar apoios financeiros ou apresentar novas medidas em conferências de imprensa. É necessário demonstrar que essas medidas funcionam no terreno, que são adequadas às diferentes explorações e que contribuem efetivamente para reduzir os prejuízos.
É igualmente indispensável conhecer, com transparência, quantos ataques são comunicados, quantos são reconhecidos, quantos são rejeitados, quais os fundamentos dessas decisões e quanto tempo decorre entre a participação de um ataque e o pagamento da respetiva indemnização.
Não podemos continuar a confundir anúncios políticos com soluções efetivas. Os criadores não vivem de promessas, nem conseguem recuperar os animais perdidos com comunicados ou declarações de intenção.
Por esse motivo, solicitamos que estas imagens sejam divulgadas e que esta realidade seja colocada diretamente ao Sr. Ministro da Agricultura e à Sr.ª Ministra do Ambiente, a quem gostaríamos de ver responder publicamente a questões muito concretas:
- Que soluções efetivas existem para as explorações extensivas onde determinadas medidas de proteção são tecnicamente difíceis ou economicamente inviáveis?
- Que garantias são dadas aos produtores quando os ataques continuam a ocorrer, mesmo depois de adotadas medidas preventivas?
- Como é assegurada a transparência e a imparcialidade dos processos de reconhecimento dos ataques e de avaliação dos prejuízos?
- Que mecanismos existem para compensar os prejuízos indiretos, as perdas reprodutivas e os custos permanentes associados à prevenção?
- Quantos ataques foram comunicados, reconhecidos e rejeitados nos últimos anos, e quais os tempos médios de pagamento das indemnizações?
- Que resultados concretos demonstram que as políticas atualmente aplicadas estão a reduzir os ataques e os prejuízos sofridos pelos criadores?
Acima de tudo, gostaríamos que respondessem a uma pergunta: se fossem os próprios responsáveis políticos a perder sucessivamente os seus animais, o seu investimento e o rendimento das suas famílias, continuariam a considerar suficientes as respostas que hoje são dadas aos produtores?
Os criadores não podem continuar a ser tratados como os únicos responsáveis por adaptar as suas explorações à presença do predador, enquanto as consequências económicas dessa convivência permanecem, em grande medida, sobre os seus ombros.
O vídeo que agora remetemos não deve ser visto apenas como mais um registo da presença de um lobo. Deve servir como um alerta para uma realidade que continua a afetar produtores e explorações, colocando em causa a viabilidade da atividade agropecuária em diversos territórios rurais.
Enquanto se discutem estratégias, financiamentos, legislação e planos de conservação, há pessoas que continuam diariamente no terreno, a cuidar dos seus animais, a investir o que têm e a enfrentar riscos que muitos desconhecem.
Até quando se continuará a exigir aos criadores que suportem as consequências destas políticas sem lhes garantir proteção adequada, compensações justas e soluções verdadeiramente eficazes?
Até quando se continuará a falar da importância da conservação do lobo sem dar a devida atenção aos prejuízos de quem convive diariamente com ele?
E, acima de tudo, quantos animais terão ainda de morrer e quantos produtores terão de abandonar a atividade para que esta realidade seja finalmente tratada com a seriedade que merece?
A UPGALL continuará a denunciar estas situações, a dar voz aos produtores afetados e a exigir respostas concretas, medidas eficazes e respeito por quem trabalha diariamente para manter viva a atividade agropecuária e o mundo rural.
Os criadores não exigem privilégios. Exigem respeito, condições para trabalhar e o direito de não ver o seu esforço e o seu património destruídos sem uma resposta adequada.
Porque o mundo rural não pode continuar a pagar, praticamente sozinho, uma fatura que não decidiu assumir.
Fonte: UPGALL














































