Kiwi revela-se como uma aposta com futuro

Kiwi revela-se como uma aposta com futuro

Portugal é brindado por mais de 300 dias de sol por ano e essa abundância solar proporciona um amadurecimento adequado do fruto, conferindo-lhe um sabor doce e único, que o diferencia de outros, permitindo ainda que o mesmo atinga valores de °Brix excelentes. Além de todas as condições climatéricas excepcionais que o nosso País proporciona, a diferença e a unicidade deste fruto é também conferida pela sabedoria aliada à paixão dos seus produtores, que dedicam todo o seu profissionalismo e máximo cuidado às suas plantações em cada operação cultural. Para fazer um balanço da actual campanha falámos com alguns dos principais intervenientes no sector a nível nacional.

Forte procura leva a aumento de produção 

Na Kiwicoop, organização de produtores (OP) de kiwi reconhecida pela União Europeia, que nasceu do empreendedorismo e paixão comum de um grupo de kiwicultores da região Centro de Portugal, o balanço é positivo. «Atendendo às condições em que decorreu a maior parte da campanha, com o aparecimento da covid-19, podemos afirmar que correu bem, com kiwis de boa qualidade e de bons calibres que agradaram o cliente e, consequentemente, o consumidor. Foi um final de campanha atípico visto que, com o avanço da pandemia, todos os nossos colaboradores tiveram muito cuidado, e assim não deixamos de trabalhar. Notou-se uma forte procura de fruta e, por isso, no início de Junho, terminámos a campanha, um pouco mais cedo que o que seria expectável. Entretanto, estamos já a iniciar uma nova campanha, onde as quantidades vão aumentar cerca de 25%», refere Sandra Rodrigues, do Departamento Técnico.  No que toca à quantidade, «na campanha anterior, tivemos uma quebra de 15% relativamente ao ano anterior, no entanto, a fruta apresentava bom sabor, boa coloração, com bons calibres, matéria seca e °Brix elevado, pelo que os kiwis eram de excelente qualidade. Este ano, apesar do aumento de produção, prevemos que a qualidade se mantenha, contudo, o calibre tende a ser inferior à campanha transacta».

Actualmente, a Kiwicoop produz kiwi de polpa verde: Hayward, Érica e Méris; kiwi de polpa amarela: Dori e Soreli; kiwi vermelho e kiwi baby (ou arguta). Segundo a porta-voz da empresa, «a fileira está dinâmica em relação às variedades cultivadas e principalmente em relação às variedades novas (polpa amarela e polpa vermelha). A variedade Hayward continua a ser a dominante no cultivo e venda. Estão a crescer as variedades amarelas, mais doces e com  °Brix mais elevado e verifica-se um crescimento do kiwi vermelho, o expoente máximo do sabor e doçura, em termos de kiwi».

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A empresa de Oliveira do Bairro é «pioneira em Portugal na produção e comercialização de kiwi vermelho, assim como detentora da marca de kiwi Dori (polpa amarela), um fruto aromático com ligeiro trave de acidez, mas muito inferior ao kiwi de polpa verde», frisa. Nesta OP, «o grande problema sanitário é a PSA (cancro bacteriano) que no início abalou muito a produtividade, mas que hoje já se controla melhor com uma estratégia preventiva com resultados bem animadores, utilizando produtos menos nefastos para a cultura e o ambiente. Outas pragas estão a emergir, como o caso do percevejo asiático (Halyomorpha halys), uma praga transversal a todas as culturas fruteiras. E outras doenças vão aparecendo, como é o caso da ESCA (doença do lenho), e afectam a produtividade do pomar, mas implementando medidas culturais no momento da poda, identificando as plantas afectadas e pincelando os cortes tem sido possível o seu controlo».

Comercializam cerca de 50% para o mercado nacional e o restante sege para países como Espanha, França, Alemanha, Holanda ou Suíça. «Os preços continuam ao mesmo nível dos últimos anos, sem grandes oscilações. A kiwicultura continua a apresentar-se como uma actividade interessante a nível económico, com grande dinamismo e com a entrada de muitos jovens agricultores e empreendedores», conclui a técnica responsável.

Preços acompanham valorização do mercado internacional

Na Cooperativa Agrícola de Felgueiras a aposta no kiwi tem sido vencedora, muito devido a um intenso trabalho realizado, a partir da década de 1980, pelos técnicos da Cooperativa, junto de diversos agricultores do concelho. De de tal forma que, actualmente, Felgueiras é o concelho com maior área de kiwi plantada a nível nacional. Rui Madeira Pinto refere que «em 2019, a quantidade de kiwi recepcionada foi de 1.250 toneladas, de excelente qualidade e com calibres muito bons» e que «actualmente as variedades são quase tudo Hayward e uma pequena quantidade de Erika. A área de produção estende-se a todo o vale do Sousa, com  especial incidência no concelho de Felgueiras». O director da Cooperativa sublinha que «esta fileira encontra-se muito bem organizada, com cinco entrepostos a comercializarem quase 90% da produção. A remuneração paga aos produtores tem sido muito boa. Penso que é uma aposta de futuro apesar do grande custo de instalação. No entanto, a médio prazo esse custo será coberto pela valorização do kiwi». Nesta região, a PSA é a única doença que preocupa os produtores, mas estes têm, mesmo assim, conseguido minimizar os impactos. Os preços «têm aumentado nos últimos três anos, fruto também da melhor valorização dos mercados internacionais. Cerca de 90% da produção é escoada para o mercado espanhol e o restante para o mercado nacional», frisa.

Mais quantidade e melhores calibres

A Kiwi Greensun é um dos mais importantes entrepostos de kiwi existentes em Portugal. No que toca à presente campanha, Vítor Araújo, o proprietário, refere que estão com um incremento de produção na ordem dos 20%. «É uma campanha com mais quantidade e calibres melhores quando comparada com o ano passado. A fruta é mais graúda, está a correr tudo bem. No final, estimamos recepcionar 9.500 toneladas».

Erica desperta interesse

Actualmente, a Kiwi Greensun possui uma área de cultivo que ronda os 370 hectares, distribuídos entre Guimarães, Felgueiras, Amarante, Póvoa de Lanhoso, Braga e Amares. Contudo, 30% ainda não produz, pois são plantações muito jovens. «Temos vários produtores que têm aumentado a área e outros tantos que plantaram pela primeira vez no ano passado ou há dois anos, por isso ainda não estão a produzir em pleno». Na empresa de Guimarães aposta-se nas variedades Hayward, e Erica, sendo que «a produção da segunda já ultrapassa a primeira, e praticamente tudo o que temos plantado e que ainda não está a produzir é da variedade Erica. Tem mais interesse comercial e até para o produtor, pois produz bastante bem e dá frutos mais perfeitos, originando muito menos segundas categorias. Em tempos, tivemos o Soreli, que é o kiwi amarelo, e andamos à procura de alternativas, mas, neste momento, tudo o que é amarelo está ligado a clubes, tanto da parte das plantas como da parte comercial, por isso ainda não foi uma opção para nós. Também continuamos com uma variedade precoce que é o Earligreen, apesar de termos reduzido bastante a área e estarmos com apenas 500 toneladas de produção», afirma. Na Kiwi Greensun, o mercado nacional representa cerca de 15% da comercialização e o restante vai para exportação, principalmente para Espanha, seguindo-se Marrocos e, mais pontualmente, para Inglaterra, Brasil e Canadá.

Em relação a problemas com pragas ou doenças, Vítor Araújo refere que «este ano foi bastante tranquilo, a PSA manifestou-se com pouca intensidade, só num caso ou outro é que houve dificuldades no vingamento, e originou abortamento floral. E a polinização também foi bastante boa. A nascença foi razoável, apesar de não ser exuberante, e como os floramentos também foram bons, estamos com produções engraçadas.

Quanto aos preços, o mesmo responsável considera que estes têm condições para se manter. «O que me deixa um pouco apreensivo é a incerteza proveniente da pandemia, que pode afectar o poder de compra das pessoas», conclui.

APK com visão optimista

A Associação Portuguesa de Kiwicultores (APK) foi fundada em 2004 por uma equipa de técnicos e agricultores dedicados à cultura do kiwi e que pretendia tornar esta fileira numa das mais modernas e organizadas de Portugal. Desde então este trabalho tem vindo a ser desenvolvido com alguma persistência e os objectivos que se pretendiam inicialmente têm sido atingidos. Actualmente, a APK é constituída por cerca de 200 associados, dos quais cinco Organizações de Comercialização de kiwi: Kiwicoop, Kiwi Greensun, Kiwi Life, Prosa e Terras de Felgueiras. «As zonas de maior produção são a zona litoral de Entre Douro e Minho, seguida da região da Beira Litoral. Neste momento, a área de plantação em Portugal é de cerca de 2.800 ha, verificando-se, com o surgimento da pandemia, um abrandamento no seu crescimento. O grande mercado dos kiwis de Portugal é o espanhol e também o nacional», refere a APK. Fazendo um balanço da actual campanha, em termos de quantidades, esperam «cerca de 15 a 20% mais relativamente ao ano anterior».

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No que respeita a novidades, a associação partilha que «estão a ser plantadas novas variedades de kiwi amarelo e de kiwi vermelho» e que a APK continua a ser contactada e a ter conhecimento de novos investidores/produtores no cultivo do kiwi. «Também submetemos os pedidos de abertura do mercado da Colômbia e México, mas ainda estão a ser trabalhados pelas entidades oficiais». Em relação aos problemas fitossanitários, a APK frisa que têm sido os habituais, como PSA, podridão cinzenta e Esca, no entanto, estão atentos ao percevejo asiático, que tem causado graves estragos em Itália. «Em Portugal já foi interceptado e a APK está, neste momento, com um projecto para adquirir armadilhas de prospeção/captura, ainda não disponíveis no mercado nacional.»

O artigo foi publicado originalmente em Revista Frutas Legumes e Flores.

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