Fala-se muitas vezes de juventude e mundo rural quase exclusivamente a partir da figura do jovem agricultor. Porém, essa visão, embora importante, é incompleta. Os territórios rurais, na minha opinião, deveriam ser classificados os concelhos e freguesias que na lei portuguesa constituem as regiões de Baixa Densidade, vivem hoje de uma realidade económica e social muito mais diversa, onde coexistem atividades agrícolas e não agrícolas, todas elas essenciais para garantir vitalidade económica, emprego e coesão territorial. É neste contexto que importa clarificar um conceito que ganha cada vez mais relevância: o do Jovem Empresário Rural (JER).
O JER não se define apenas pelo setor onde atua, mas sobretudo pela sua condição empreendedora e pelo contexto territorial. Em termos gerais, trata-se de um empresário que desenvolve atividade em meio rural e que se encontra numa faixa etária jovem — entre os 18 anos e os 40 anos completos. A ruralidade, neste caso, não se confunde com agricultura. O território rural acolhe empresas de múltiplas naturezas, e é precisamente essa diversidade que sustenta o seu desenvolvimento.
Assim, o JER pode ser agrícola ou não agrícola. Pode ser um jovem agricultor que inicia uma exploração agrícola, mas pode igualmente ser um carpinteiro, um mecânico, um serralheiro, um eletricista, um empresário turístico ou da cultura, ou outro profissional que cria e desenvolve uma atividade económica em contexto rural no que é classificado como micro ou pequena empresa/negócio. O elemento comum é o empreendedorismo e a capacidade de gerar valor local, criando emprego e serviços que contribuem para a sustentabilidade dos territórios.
Outra distinção importante é a fase em que o empresário se encontra. O JER pode estar em primeira instalação, quando inicia a atividade, mas pode também já estar instalado e a desenvolver o seu negócio. Esta distinção é relevante porque as necessidades e os instrumentos de apoio diferem significativamente. Quem inicia enfrenta desafios de investimento inicial, capacitação e estruturação empresarial; quem já está instalado enfrenta, muitas vezes, os desafios da consolidação, da inovação e do crescimento.
No caso do Jovem Empresário Rural Agrícola, frequentemente designado também por jovem empresário agrícola ou jovem agricultor, existe um enquadramento específico de políticas públicas da PAC que reconhece a importância da renovação geracional no setor primário. A 1.ª instalação destes jovens tem sido apoiada por instrumentos financeiros próprios, que incluem prémios de primeira instalação e incentivos não reembolsáveis majorados para apoio ao investimento. Estes mecanismos procuram reduzir o risco inicial associado ao início de atividade agrícola, tornando mais viável o acesso à terra, à modernização das explorações e à adoção de práticas mais sustentáveis e competitivas.
Depois da fase de instalação, o apoio não termina. O jovem empresário agrícola pode continuar a beneficiar de ajudas financeiras relacionadas com o rendimento e com outros instrumentos de política agrícola que visam garantir estabilidade económica, incentivar práticas ambientais e apoiar a adaptação às exigências dos mercados e das políticas públicas. Esta continuidade é essencial, pois a sustentabilidade da atividade agrícola não depende apenas do momento inicial, mas de uma trajetória de médio e longo prazo.
Contudo, importa sublinhar que o dinamismo rural não pode ser visto apenas através da lente da agricultura. O território precisa igualmente de empresários não agrícolas que assegurem serviços, inovação e diversificação económica. Sem oficinas, pequenas empresas de serviços, turismo, comércio, cultura e atividades técnicas especializadas, os espaços rurais definham socialmente, perdem capacidade de atrair e manter população jovem e investimento. O jovem empresário rural não agrícola desempenha, por isso, um papel complementar e absolutamente estratégico. O rural do século XXI não é um espaço de atividade única; é um ecossistema económico diversificado, onde diferentes setores se reforçam mutuamente.
O principal desafio conceptual e político dos próximos anos: encontrar apoios financeiros fora da PAC para apoiar a 1.ª instalação de JER não agrícolas, reconhecer desta forma, que o futuro do rural passa por uma visão integrada do empreendedorismo. Os JER’s não agrícolas são fundamentais para a vitalidade dos territórios.
Valorizar o conceito de Jovem Empresário Rural significa, portanto, alargar o olhar sobre o desenvolvimento promovendo efetivamente a coesão territorial. Expressa reconhecer que empreender em meio rural — seja na agricultura, nos serviços ou na pequena indústria — exige coragem, visão e capacidade de inovação. E significa, acima de tudo, perceber que a renovação geracional do mundo rural não se faz apenas com agricultores, mas com empresários jovens capazes de construir projetos sustentáveis e duradouros no território que os chama e os deveriam motivar com as ajudas financeiras e serviços de proximidade, para viver e investir.
Consultor em Desenvolvimento Territorial
Abacate: uma cultura em forte afirmação nas agriculturas de Portugal













































