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Estratégias políticas “comandam” combate ao Incêndio de Monchique e Silves… – João Dinis

por João Dinis
26-08-2018 | 17:00
em Opinião
Tempo De Leitura: 6 mins
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O recente incêndio que correu a Serra de Monchique e abrasou os concelhos de Monchique e Silves teve a violência e a extensão – cerca de 30 mil hectares ardidos – que dramaticamente são já comuns a muitos Incêndios Florestais e Rurais.

Note-se que já em 2003 a mesma zona, e mais ainda, fora percorrida por outros Incêndios de grandes proporções e que o Incêndio por lá ocorrido em 2016 pre-anunciara que algo de muito mau poderia voltar a acontecer como aconteceu. Portanto, foi “mais do mesmo” para desgraça maior de quem lhe sofreu e vai continuar a sofrer as más consequências…

Porém, há duas outras características deste Incêndio do início de Agosto – 2018, que os outros afinal não tiveram:

— Este Incêndio esteve sete dias seguidos a arder – uma semana em contínuo ! – enquanto que, e supostamente para lhe dar combate, foi concentrado e actuou em simultâneo o maior e melhor equipado dispositivo em meios de combate e da chamada Protecção Civil – GNR incluída – alguma vez mobilizado no País para um “só” Incêndio ! De facto, era tanta Gente envolvida no “teatro de operações” que, como diz o Povo, “até se estrovavam”…

Mas então como foi possível que este Incêndio em Monchique e Silves tivesse estado (muito) activo durante sete dias a fio?! Sim, que nos têm a dizer sobre isso o Ministério da Administração Interna, todas as Entidades vocacionadas e desde logo aquelas que estiveram operacionais no “teatro das operações” ?

Vão começar por dizer, e vão repetir muitas vezes que, desta vez, não houve vítimas mortais a lamentar e que portanto se evitou a tragédia.

Para não sermos mal interpretados que o tema é “melindroso” de abordar objectivamente, vamos afirmar que, e como é óbvio, é da maior relevância esse facto de não ter havido mortos como aconteceu de outras vezes em outros Incêndios. E que isso se ficou a dever – sem dúvida – à intervenção humana para isso mesmo destacada. Mas, quanto a isso, também temos de estar gratos à chamada “providência” que, desta vez, ela esteve do nosso lado, tão extenso, perigoso e prolongado no tempo foi este Incêndio…

Entretanto não aceitamos ficar “silenciados” devido a inibições induzidas por argumentação oficial ou oficiosa que nos possa vir dizer que “aquilo que alguns queriam é que estivéssemos, agora, a lamentar mais mortes para se tirar partido da tragédia e atacar o Governo e/ou a Protecção Civil”… Nada disso !   Não se iniba um debate mais objectivado !

Estratégias de combate aos Incêndios estão a ficar “prisioneiras” de prioridades políticas por sua vez “comandadas” pela pressão da comunicação social e da opinião pública.

Fazendo-se uma retrospectiva ao que aconteceu, designadamente na praça pública, a seguir aos Incêndios do ano passado na Região Centro – com as várias centenas de mortos e feridos – poderemos constatar, e até perceber, a tónica exacerbada que passou para este aspecto o qual, repito, é sem dúvida central mas que também não pode ser absolutizado.

No meio de tanta pressão, os Governantes foram sendo “entalados” dentro das suas (pesadas) responsabilidade políticas e, por vezes, também práticas pelo ocorrido.

Foi aliás muito notória a tensão institucional entre Órgãos de Soberania, com o Presidente da República a “comandar” a opinião pública e política sobre Incêndios e respectivas consequências, através de comentários, apreciações e iniciativas regulares que é para não dizer constantes…

Portanto, o “núcleo duro” das orientações e decisões governamentais (e não só), com óbvias repercussões na chamada “Protecção Civil “ (e na GNR) passou o seu enfoque e a sua pressão operacional para as estratégias de combate e, nestas, para a intervenção – mais do que prioritária – no terreno, para “salvar vidas”, depois Habitações… Ou seja, a estratégia, ou as estratégias, para enfrentar e dar combate mais eficaz aos Incêndios, essas ficaram, assim, muito desequilibradas no “teatro das operações”… E suscitaram e continuam a suscitar muitas críticas, inclusivé por parte das Populações afectadas mas não só, as quais, reconhecendo embora que não perderam “a pele”, perderam teres e haveres com o flagelo que observavam a progredir, horas e dias a fio, até lhes chegar perto, à porta de casa …

Quanto ao “resto”, mais propriamente quanto às áreas florestadas, e agora interpretamos nós, “logo se verá o que lhes acontece…”. Por exemplo, quanto à Floresta que temos, as maiores “novidades” oficiais vieram sob a forma de legislação a impor vários disparates em matéria de alegada Prevenção imediata e, ainda assim, sob a ameaça, muito publicitada, de contra-ordenações e de multas a caírem em cima do Pessoal… Porém, e tal como ficou demonstrado agora, de pouco ou nada valeu tudo isso!…

Estes são pois os “ventos dominantes” da intervenção humana, a “soprar” e a manter activo um Incêndio a arder durante sete dias (e noites) seguidos, apesar de sujeito, pelo menos supostamente, repete-se, ao maior e mais bem equipado dispositivo de combate alguma vez concentrado no nosso País para dar combate, simultaneamente, a um “só” Incêndio!

Sim, trata-se de um erro estratégico ou de um erro de estratégias desequilibradas entre si !

Um Incêndio é tanto mais destruidor e perigoso quanto mais tempo estiver a arder !…

Bem sabemos que os Incêndios não se “medem” assim mas é legítimo afirmarmos que este Incêndio, ao queimar durante sete dias seguidos, acabou por ser mais extenso e mais perigoso do que se “só” lavrasse durante, por exemplo, dois dias… Isto é óbvio e não deve ser ignorado nos balanços a fazer agora ao combate que lhe foi movido…

Ora, a estratégia dominante de combate está a passar, muito, pela prática de uma “defesa” cerrada mas em espera das chamas, nas imediações de Povoações, de certas Infra-Estruturas e Equipamentos. Um “ataque” mais directo às chamas, dentro da Floresta, isso é para se “ir fazendo”, e com calma… Omite-se um ensinamento mais geral que nos diz que, por vezes, a melhor defesa…é o ataque…o que no caso, e para além das descargas retardadoras pelos meios aéreos de combate, remete para a utilização dos contra-fogos e para a limpeza ou abertura de espaços livres de massas combustíveis nas proximidades do Incêndio, portanto para o combate cerrado no terreno do Incêndio. Claro que, para isso, são necessários meios adequados, estratégias claras e assumidas e experiência operacional.

É igualmente verdade que já houve muitas dezenas de Incêndios em que não morreu ninguém – felizmente – e que, de repente, num só Incêndio, morreram dezenas de Pessoas, em circunstâncias que se podem repetir, outra vez de repente, numa outra Região…

Ou seja, nisto das estratégias ao combate a Incêndios Florestais e Rurais, com a Floresta que temos plantada no terreno, digamos que, “prontinha para arder”, o fundamental é a Prevenção efectiva de Incêndios. Mas não se pode absolutizar uma ou outra das vertentes mais importantes. E não pode constituir a prática mais corrente, o vir para o terreno com as forças de segurança ou seja lá com quem for, a intimar Populações de aldeias inteiras:- “ou saem de vossas casas a bem…ou levamo-vos à força daqui para fora !”…

Acontece que não há chamas sete dias seguidos a arder por haver ou deixar de haver mortes pelo Fogo. Pode é haver mortes pelo Fogo, precisamente, por haver chamas a arder, e enquanto elas arderem… Portanto, quanto mais depressa apagarmos as chamas de um Incêndio, tanto melhor !

Mas, “nem oito nem oitenta” ! Mais Prevenção, combate mais eficaz e menos aparato…

22 Agosto 2018

João Dinis

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