A Fundação Gates vai investir mil milhões de dólares (cerca de 867 milhões de euros) nos próximos dois anos em ferramentas de IA na agricultura, na saúde e na educação.
De acordo com a informação divulgada, o setor agrícola é aquele de que dependem mais de 75% das pessoas mais vulneráveis do mundo, as que vivem com três dólares por dia ou menos. O compromisso é anunciado com a publicação do relatório anual Goalkeepers, este ano dedicado à forma como a IA pode ser usada para reduzir desigualdades.
“A IA pode ser um grande igualador ou ampliar o fosso”, escreve Bill Gates, presidente da fundação, que considera que as decisões tomadas nos próximos 12 a 18 meses serão determinantes para saber se a tecnologia beneficia sobretudo quem já tem mais ou se chega a quem tem menos.
O exemplo mais concreto de IA na agricultura citado no relatório é o de Annapurna Devi, agricultora de Andhra Pradesh, na Índia, que fotografou com o telemóvel uma folha de bananeira doente e recebeu, através de uma aplicação, um diagnóstico no seu idioma e a recomendação de tratamento para a praga. Através da mesma ferramenta, pediu um drone para pulverizar a cultura com o produto recomendado, que chegou ao campo no prazo de 48 horas.
Na apresentação do relatório, Mark Suzman, diretor executivo da fundação, lembrou que, para milhões de pequenos agricultores, decisões aparentemente rotineiras podem custar a uma família os rendimentos, os alimentos e as poupanças.
Para que a IA na agricultura e nas restantes áreas chegue a quem tem menos recursos, o relatório aponta três condições. A primeira é o idioma: grande parte dos sistemas foi treinada sobretudo em inglês e, enquanto os sistemas de reconhecimento de voz mais avançados erram em menos de 6% dos casos nessa língua, a taxa de erro ultrapassa os 60% em alguns idiomas, segundo o documento.
A segunda condição é o recurso a dados e contextos locais. Um sistema concebido para um agricultor norte-americano não servirá necessariamente um pequeno produtor da Etiópia, refere o relatório, tal como uma aplicação médica deve adaptar-se às doenças, tratamentos e recursos de cada país. A terceira passa por investir em formação e acesso, com mais cientistas de dados, programadores e especialistas em IA nos países de rendimento baixo e médio, para que possam participar no desenho e na supervisão destas ferramentas.
Segundo os responsáveis pela análise, ainda é possível recuperar o ritmo de progresso se a IA for deliberadamente orientada para os problemas de quem tem menos recursos, uma diferença que, no caso dos pequenos agricultores, pode traduzir-se numa colheita salva ou num diagnóstico de praga a tempo.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































