A instabilidade mundial provocada por medidas políticas completamente desajustadas, está a provocar o caos em todos os continentes e blocos de países. As alterações climáticas vão dando cada vez mais sinais (secas, incêndios, tempestades, cheias, etc.) e as consequências estão à vista. O que não gastamos na prevenção, acabamos por gastar muito mais para indemnizar prejuízos, ao tentar minimizar a força incontrolável da Natureza.
A Europa está refém dela própria e pouco pode fazer, a não ser correr atrás do prejuízo e preparar-se (gastando obviamente muito dinheiro) para fazer o que devia ter feito há muitos anos. Portugal é duplamente refém, por um lado da Europa, porque teimosamente quer diminuir os apoios e receber mais contribuições para o armamento (pelos vistos inevitável), e refém de si próprio e de políticas voltadas exclusivamente para os territórios urbanos, esquecendo os territórios rurais, mais de 80% da sua superfície. A agricultura, a criação de gado, a floresta e a agroindústria, já há muitos anos (décadas mesmo), que deixaram de ser prioritárias. Se recuarmos pouco mais de três décadas, o Ministério da Agricultura, das Florestas e do Desenvolvimento Rural, ocupava o sexto lugar na hierarquia do Governo, por este andar ainda vamos ver este setor produtivo, crucial para o País, como uma Secretaria de Estado da Economia e da Coesão.
O PRR – Plano de Recuperação e Resiliência ficou muito aquém das expectativas e necessidades do setor agrícola, pecuário e florestal. Muito pouco apoiado por estes fundos, os poucos que foram disponibilizados, foram destinados a reequipar e melhorar infraestruturas do Estado, quando os agricultores tanto necessitavam deles para se modernizarem e serem mais competitivos.
O exercício é simples, basta a comparação com Espanha. Se ao menos os meios para as infraestruturas fossem aplicados onde o setor necessita, como a recuperação de regadios existentes, no combate ao desperdício de água, e de forma muito objetiva na construção de novas barragens estruturais, todo o País ganhava (também outras atividades e a população em geral). Outra aposta necessária deveria ter sido no investimento em estruturas de concentração e comercialização de produtos agrícolas detidas por agricultores. Os agricultores são sempre o elo mais fraco da cadeia, são sempre os mais prejudicados no preço que recebem por tudo o que produzem, a grande distribuição “tomou conta disto tudo”. Este cenário transcrito desta forma simples, mas muito real, causa nos campos desânimo, abandono, despovoamento, claramente um cenário pouco aliciante para atrair jovens. Os agricultores que permanecem, os que teimosamente resistem, estão reféns dos problemas complexos como catástrofes climáticas, desprezo político, preços baixos pagos pelas suas produções, custos elevados dos fatores de produção, e quando se avizinham cortes nos apoios quer do Orçamento de Estado ou da União Europeia, somos sempre o elo mais fraco.
Se recuarmos aos incêndios (há sete meses), sabemos que para muitos ainda não lhes foi restabelecido o potencial produtivo, relativamente às cheias onde os prejuízos são bem mais avultados, o cenário infelizmente não vai ter a celeridade que os lesados necessitam, e para agravar tudo isto, a guerra (Irão) e as subidas brutais do preço dos combustíveis, vão acarretar muitas outras subidas nos vários fatores de produção para a agricultura e pecuária, inclusive no preço a pagar pelos consumidores. Perguntamos quem se está a aproveitar e vai continuar a fazê-lo à custa das dificuldades dos agricultores e dos consumidores em geral?
São necessárias medidas concretas e urgentes
Para a instalação de jovens agricultores as candidaturas à apresentação de projetos estiveram abertas desde 28 de novembro 2024 até 30 de dezembro de 2025, e estão a ter um índice positivo nas decisões de aprovação. No que respeita aos agricultores em atividade, que durante muito tempo não tiveram apoios disponíveis, a dotação da “Medida C-2.1.1. – «Investimento Produtivo Agrícola – Modernização – Explorações Agrícolas», que abriu a 28 de agosto de 2025, revelou-se insuficiente para fazer face às expectativas dos agricultores. Como a necessidade de investimento dos agricultores era enorme, estes aderiram em massa. Contudo, infelizmente a verba disponibilizada revelou-se insuficiente, sendo que a procura superou largamente a dotação disponível, um sinal claro de esperança e vontade de investir no setor.
A AJAP – Associação dos Jovens Agricultores de Portugal alerta para a necessidade urgente de reavaliar a dotação no âmbito da Medida C – 2.1.1. «Investimento Produtivo Agrícola – Modernização» – Explorações Agrícolas – Aviso Multissetorial do PEPAC – Plano Estratégico da Política Agrícola Comum», uma medida âncora do investimento às explorações agrícolas. Apesar do reforço da dotação orçamental (de 35 milhões de euros para 100 milhões de euros) verificado, a verdade é que o valor continua muito aquém das necessidades e dos investimentos dos agricultores. Após a publicação, na semana passada, da lista de hierarquização para efeitos de seleção, análise e aprovação das candidaturas, percebemos que foram submetidas 2.544 candidaturas tendo apenas sido aprovadas 730. Além disso, nos últimos meses verificaram-se sucessivos adiamentos e prorrogações que criaram falsas expectativas aos agricultores.
Este cenário é desmotivante para os agricultores portugueses que tinham legitimamente expectativas elevadas de verem os seus projetos (de reconversão, adaptação às alterações climáticas, eficiência energética, introdução de novas tecnologias e processos), com muito melhores índices de aprovação. São mais de 70% de candidaturas que ficam por aprovar, colocando em causa investimentos no setor necessários para o reforço da competitividade das nossas explorações.
A AJAP reconhece no atual Ministro da Agricultura e Mar, um profundo conhecimento da realidade do setor, e o esforço que tem feito para o apoiar, dinamização e promover. Contudo, em face da nossa atual realidade, entendemos ser necessária e fundamental uma resposta política mais robusta e coordenada ao mais alto nível governativo, pois este setor merece respeito, e deve ser mais respeitado.
O Primeiro-Ministro, na opinião da AJAP, deve vir a “terreiro” dar uma palavra de mais apoio e mais conforto ao setor, que não pode cair numa espiral recessiva com consequências extremamente nefastas para a economia nacional e para a nossa soberania alimentar. O Governo tem de assumir um papel ativo na mobilização de medidas concretas de apoio, assegurando que os agricultores possam dispor dos meios necessários para enfrentar os enormes desafios que têm pela frente, nomeadamente: no pagamento às indemnizações e no restabelecimento do potencial produtivo em sequência das recentes cheias e incêndios, no aumento do reforço da dotação orçamental para a Medida C – 2.1.1. «Investimento Produtivo Agrícola – Modernização» – Explorações Agrícolas – Aviso Multissetorial do PEPAC – Plano Estratégico da Política Agrícola Comum», por forma a que não se perca nenhum cêntimo de investimento, e por fim em face dos atuais aumentos dos custos de produção (energia, combustíveis, fertilizantes e outros fatores de produção), motivados pela guerra do Irão. É urgente a adoção de medidas que salvaguardem a viabilidade do setor agrícola.
Nota final: A idade média dos nossos agricultores é de 64 anos (a média na UE é de 57 anos), o percentual de jovens agricultores em Portugal é de 3,7% no contexto de todos os agricultores (a média na UE é de 12%). Tememos que para 2026/2027, em que a base de apoio à instalação de jovens agricultores assenta em Instrumentos Financeiros (nem sequer existe o prémio à Primeira Instalação), se contem pelos “dedos das mãos” os jovens que vão optar por esta atividade.
Fonte: AJAP















































