Granizo em Mogadouro. “Só fiquei com as batatas porque estão debaixo de terra”

Granizo em Mogadouro. “Só fiquei com as batatas porque estão debaixo de terra”

A trovoada, acompanhada de chuva intensa e de granizo, com pedras, em alguns lugares, do tamanho de “ovos de galinha”, assolou, este sábado, algumas freguesias do concelho de Mogadouro, provocando “avultados prejuízos” na agricultura.

Alípio Marcos, de 69 anos, conta à Renascença que o “granizo destruiu tudo”. “As pedras eram como os ovos das galinhas. Onde caiu, foi tudo”, afirma o habitante da freguesia de Tó, que não tem seguro porque, diz, “isso é para os grandes colheiteiros”.

Alípio está tão desolado que nem tem “cabeça para fazer contas aos prejuízos”. E também não tem esperança em qualquer ajuda. “Não adianto nada em fazer contas. Não tenho seguro. Terei que aguentar o prejuízo”, lamenta o agricultor.

Por perto está Manuel Norberto Rodrigues, de 60 anos. Entra na conversa para dizer que “o granizo tudo levou”. “Perdi parte da cultura das uvas, melões, abóboras, maçãs e oliveiras, foi tudo,… é bastante. Não tenho seguro, nunca fiz. Agora vou perder o que andei a tratar durante o ano”, desabafa.

Um pouco mais velho, José Maria Gaspar, de 73 anos, refere que em “toda a vida” nunca viu coisa semelhante. “De um momento para o outro, foi tudo embora. Nunca tinha visto uma coisa destas. Fiquei sem vinha, sem oliveiras e as hortas também se foram. Foi o feijão, foi o tomate, o melão… Ficou tudo esfarrapado”, descreve à Renascença. Como também não tem seguro, Manuel espera que o “Governo faça alguma coisa” pelos agricultores da freguesia.

Desolando com os prejuízos provocados pelo granizo está também José do Fundo, de 62 anos. “Está tudo destruído, é de lamentar, é de chorar, até. Quem trabalhou um ano inteiro, para ter alguma coisa, é mesmo de lamentar”, diz o agricultor que perdeu toda a colheita do ano – azeitona, uvas e horta.

“A gente, aqui, só vive disto, da agricultura. Agora temos que aguentar, apertar o cinto”, diz, criticando o Governo que “carrega a gente de impostos e quando há uma crise, uma calamidade destas, não nos liga nada”. “Acho que o Governo não nos vai ajudar. Só esperamos que nos venha pedir o voto”, conclui o agricultor.

António Delgado, de 69 anos, da freguesia de Peredo de Bemposta, com os olhos cheios de lágrimas, conta que tinha ouvido as previsões de mau tempo, mas “não estava à espera de uma catástrofe destas”. “Tinha uma vinha, tratada com muito carinho, onde esperava produzir quatro toneladas e meia de uvas e está toda destruída”, conta à Renascença.

Também a horta não escapou à intempérie. “Só fiquei com as batatas, porque estão debaixo de terra”. Sem seguro de colheitas, António Delgado diz que Deus há-de dar-lhe “força”.

Ministério da Agricultura faz levantamento dos prejuízos

A diretora regional de Agricultura do Norte, Carla Alves, visitou este domingo alguns locais afetados pelo granizo e garantiu apoio técnico aos agricultores afetados.

“Já foi emitida pelo Ministério da Agricultura uma circular de avisos, dando nota das questões mais técnicas, para que os agricultores possam começar a tratar das suas colheitas, em especial da vinha”, referiu à Renascença.

Os avisos vêm dar indicações técnicas aos agricultores, quais são os tratamentos que devem já fazer, que devem ser feitos com muita rapidez, que devem logo acontecer após a catástrofe. É sobretudo através de caldas específicas, para ter um poder cicatrizante, porque podemos ainda valer a algumas culturas, fazendo já a cicatrização dessas feridas das plantas”, concretizou a diretora regional de agricultura.

Já sobre a hipótese de o Governo poder apoiar monetariamente os agricultores afetados, Carla Alves remeteu para os seguros, indicando que “Portugal tem um excelente sistema de seguros de colheita, que é um sistema que cobre efetivamente estes prejuízos e, neste caso, os causados pelo granizo estão cobertos por esse seguro”.

“São seguros para os quais o próprio ministério tem um bom financiamento de 60%; de 75% no caso da vinha ou agrupados. O que importa é a questão de os agricultores saberem que estes seguros têm que ser feitos, que acionem sempre esta questão dos seguros”, alerta Carla Alves, acrescentando que “as seguradoras têm que ser céleres, têm que vir fazer peritagem para o campo”.

E quem não tem seguro, não vai ser apoiado? – insistiu a Renascença.

“Se o seguro cobre a colheita, não há possibilidade de estarmos a financiar ou apoiar aquilo que é efetivamente um assunto que pode estar seguro. De outra forma, não estaríamos a ter um tratamento igual com aqueles que têm seguro e com aqueles que não têm seguro”, disse.

A responsável pela DRAPN indicou que os técnicos vão continuar a percorrer o terreno, para avaliar danos em estruturas e equipamentos de apoio à agricultura. “Estas estruturas não estão cobertas pelos seguros e temos de perceber, em conjunto com os nossos técnicos, para se fazer uma declaração de prejuízos, para além das colheitas”, acrescentou Carla Alves

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O artigo foi publicado originalmente em Rádio Renascença.

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