Funções das florestas: da conservação à produção

Funções das florestas: da conservação à produção

Há muitos tipos de florestas, em Portugal e no mundo, que têm sido classificadas em função do valor que lhes é reconhecido e dos principais bens e serviços que prestam.

Embora no imaginário coletivo a floresta desperte imagens de bosques encantados, com poucos sinais de intervenção humana, a realidade é que as florestas que temos hoje resultam, na sua grande maioria, de decisões, planos e intervenções realizados desde meados do século XIX, na sequência da necessidade e do valor que a sociedade atribuiu aos bens e serviços que prestam.  Daí resultam diversas funções da florestas, que se complementam entre si. 

Em todo o mundo, parte significativa das florestas tem servido como suporte de diversas atividades industriais e como fonte de rendimento às populações, especialmente nas regiões mais desfavorecidas.  

Madeira, cortiça ou resina são alguns dos recursos há muito aproveitados, mas importam também os produtos florestais não lenhosos, como por exemplo o mel, os cogumelos, os frutos e as plantas aromáticas.   

Mais recentemente, procura-se reconhecer economicamente os “serviços de ecossistemas”, que incluem desde a regulação ecológica do clima, ar, água e solo, à proteção (contra riscos e ruído) e conservação da diversidade, passando pelas atividades turísticas, desportivas e infraestruturas, pelo benefício da paisagem, pelo enquadramento educacional e cultural e pela melhoria da qualidade de vida das populações.

Em Portugal, o elemento de referência das orientações e planos de ação públicos e privados para o desenvolvimento do sector florestal é a Estratégia Nacional para as Florestas (ENF), aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros nº114/2006.

No documento em vigor (2015), as áreas de floresta são classificadas em função dos bens e serviços florestais prestados para satisfação das necessidades da sociedade e dos indivíduos.

Quais as funções das florestas? 

Temos, assim, cinco objetivos principais de gestão, que habitualmente se complementam e sobrepõem. 

1. Floresta para produção – de madeira, cortiça, biomassa para energia, frutos e sementes, resinas naturais, outros materiais vegetais e orgânicos, como por exemplo vimes, plantas aromáticas, cogumelos e folhagens. 

2. Floresta para proteção – do solo, contra erosão eólica (fixação de dunas) e hídrica (fixação de vertentes e amortecimento de cheias); da rede hidrográfica (margens e qualidade da água) e microclimática (compartimentação de campos e interceção de nevoeiros); contra incêndios (faixas de gestão de combustível); do ambiente (filtragem de partículas e poluentes atmosféricos) e mitigação de alterações climáticas (sumidouro de carbono). 

3. Floresta para conservação – de habitats classificados, espécies protegidas e geomonumentos (como jazidas), contribuindo para a manutenção da diversidade biológica e genética. 

4. Floresta para silvopastorícia, caça e pesca – de suporte às atividades de conservação de espécies cinegéticas, pastorícia (para produção de carne, leite, lã, peles, entre outros), apicultura e pesca em águas interiores. 

5. Floresta para recreio, enquadramento e valorização da paisagem – contribuindo para o bem-estar físico, psíquico, espiritual e social dos cidadãos, enquadrando aglomerados urbanos, monumentos, equipamentos turísticos, áreas de recreio e contemplação, paisagens classificadas, zonas militares, vias de comunicação e zonas industriais, entre outras. 

Considerando que as florestas primárias estão praticamente extintas na Europa e em Portugal, é fácil perceber que a maior parte dos nossos espaços florestais foram plantados. São exemplos as serras de Sintra, Gerês e Estrela, o pinhal de Leiria, os Parques de Monsanto, Serralves e Terra Nostra (nos Açores), entre muito outro património nacional.

A área de florestas plantadas está a crescer em todas as regiões do mundo, o que permite oferecer uma proporção cada vez maior de serviços e matérias-primas de origem florestal. Ao mesmo tempo, permite aliviar a pressão sobre as florestas naturais e ajuda à conexão ecológica entre as florestas naturais e as zonas urbanas, industriais e agrícolas. Em Portugal, destacam-se as florestas plantadas de sobreiro, eucalipto e pinheiro.

As florestas enfrentam grandes desafios, desde a competição pelo uso da terra (para agricultura e urbanização, por exemplo) às pressões decorrentes das alterações climáticas. 

É necessário garantir a gestão informada, nos diversos contextos geográficos, ambientais e socioculturais, minimizando riscos, equilibrando as funções das florestas e assegurando a satisfação das necessidades da sociedade em bens e serviços, sem comprometer a sua sustentabilidade.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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