Floresta das regiões autónomas: as ilhas do incenso, criptoméria e Laurissilva

Floresta das regiões autónomas: as ilhas do incenso, criptoméria e Laurissilva

A floresta das regiões autónomas portuguesas tem características bastante diferentes, não só relativamente ao continente, mas também entre arquipélagos, sobretudo no que concerne às principais espécies.

A floresta das regiões autónomas soma cerca de 80 mil hectares e é mais extensa no arquipélago dos Açores do que no da Madeira. Nos Açores, a floresta é dominada pelas exóticas incenso (Pittosporum undulatum) e criptoméria (Criptomeria japonica), enquanto na Madeira a autóctone Laurissilva é “rainha”, embora este importante reduto de floresta original tenha diminuído ligeiramente nos últimos anos.

As diferenças entre a floresta das regiões autónomas são grandes, tanto como a beleza que lhes é comum. Vamos conhecê-las.

Criptoméria e incenso em três quartos da floresta açoriana

Nos Açores, a floresta ocupa 48,5 mil hectares ao longo das nove ilhas, uma área indicada no IFN6 – o 6º Inventário Florestal Nacional, que o ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas editou em 2019 e no IFRAA1 – Inventário Florestal da Região Autónoma dos Açores, de 2007. É a segunda principal ocupação do solo, depois da agricultura (138,6 mil hectares).

Considerando 232,2 mil hectares de território e feitas as contas, a floresta cobre um pouco mais de 20% da área das várias ilhas, uma percentagem menor da referida no site da DRRF – Direção Regional dos Recursos Florestais dos Açores, onde é descrita como “ocupando um terço do território”.

Incenso (Pittosporum undulatum) e criptoméria (Cryptomeria japonica D. Don) sobressaem na floresta dos Açores. Segundo o IFRAA1, as duas espécies representam, conjuntamente, três quartos da área florestal total. São ambas espécies exóticas que chegaram da longe – da Oceânia e da Ásia –, mas que encontraram no solo e clima deste arquipélago condições ideais para se multiplicar.

A criptoméria é a mais importante espécie da floresta dos Açores em termos socioeconómicos, plantada e colhida pela sua madeira macia e consistente, com grande valor e beleza. As matas de criptoméria estendem-se por cerca de 12,5 mil hectares, em povoamentos puros e mistos. Dois terços estão sob gestão do Governo Regional, indica a DRRF dos Açores.

Introduzido há mais de 150 anos como espécie ornamental, o incenso é hoje classificado como espécie invasora, cuja propagação resulta da sua elevada regeneração natural. Embora seja utilizada para lenha e substrato da cultura do ananás, tem vindo a ocupar extensas áreas de vegetação natural.

O incenso ocupa cerca de 50% da área florestal do Corvo e do Pico, sendo menos representativo na Terceira e em São Miguel, onde ocupa cerca de 15% da floresta. A criptoméria tem maior representatividade em São Miguel, com cerca de 35% da área florestal, e depois na Terceira e no Faial, onde representa, respetivamente cerca de 20% e de 15% da floresta.

Ainda assim, é possível encontrar algumas espécies da floresta Laurissilva nos Açores: é o caso da faia-das-ilhas ou samouco (Myrica faya), que representa mais de 10% da área florestal São Jorge e cerca de 5% da floresta do Pico, ou do vinhático (Persea indica), que ocupa mais de 10% da floresta da Graciosa.

A floresta Laurissilva é, aliás, um património comum na floresta das regiões autónomas, ainda que a sua presença seja menor nos Açores do que na Madeira.

Ocupação do solo (mil hectares)
Região dos Açores

2007
Floresta 48,5
Matos e pastagens 23
Improdutivos 3,2
Águas interiores 1,1
Agrícola 138,6
Urbano 17,9

Fonte: IFN6 – Inventário Florestal Nacional, ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, 2019

Cinco grupos de árvores mais representativos (mil hectares)
Região dos Açores

2017
Incenso 23,9
Criptoméria 12,4
Eucalipto 3,6
Faia das Ilhas 2,4
Acácias 4,3

Fonte: IFRAA1 – Inventário Florestal da Região Autónoma dos Açores, Direção Regional dos Recursos Florestais, 2007

Floresta Laurissilva predomina na Madeira, mas em redução

A floresta é a principal ocupação do território da Madeira e Porto Santo e juntamente com outras áreas arborizadas perfaz mais de 40% da área destas duas ilhas: 34,4 mil hectares de um total aproximado 80 mil. Nas desertas e selvagens não existe floresta nem arborização.

Esta área era um pouco mais extensa em 2010 do que em 2004, revelam os Inventários da região, mas o maior contributo para este acréscimo veio das outras áreas arborizadas e não da floresta propriamente dita, que registou uma variação pouco significativa: de 32,6 mil há em 2004 para 32,3 mil hectares em 2010. Esta pequena diferença deve-se à redução da área de floresta natural, que passou de 16,1 mil hectares para 15,3 mil hectares, queda que não foi inteiramente compensada pelo aumento registado na floresta plantada, de 16,5 mil ha para 17 mil ha.

A floresta natural madeirense representa pouco menos de metade da área florestal da região e, segundo indicam os dados do Governo Regional, a sua quase totalidade é floresta Laurissilva. Composta por espécies Lauráceas, como o loureiro (Laurus novocanariensis), o barbuzano (Apollonias barbujana), o til (Ocotea foetens) e o vinhático (Persea indica), esta floresta relíquia predomina na encosta norte da ilha capital e foi considerada Patrónimo Mundial, pela UNESCO, em 1999.

Além da sua importância natural, constitui também um importante atrativo internacional, com valor adicional para iniciativas de ecoturismo, como demonstrou uma tese de mestrado que, após inquirir turistas, instituições e operadores, concluiu que “os três primeiros motivos das viagens à natureza foram ‘sossego e tranquilidade’ (22,2%), ‘beleza das paisagens’ (21,8%) e ‘contacto com a natureza’ (15,5%)” e que as levadas “foram o local de interesse turístico baseado na natureza mais visitado”.

Apesar de todos os reconhecimentos, esta área de floresta autóctone e milenar, com elevada biodiversidade e importância para a conservação, diminuiu ligeiramente, de 15,8 para 15,2 hectares, entre 2004 e 2010.

Nas áreas plantadas são os povoamentos de eucaliptos (Eucalyptus spp.) e pinheiro-bravo (Pinus pinaster) que predominam, com uma extensão superior a 11 mil hectares. Os eucaliptos têm vindo a conquistar espaço e os pinheiros-bravos a perdê-lo, o que torna os eucaliptos no género mais comum depois da floresta nativa.

Ocupação do solo (mil hectares) Região da Madeira

2010 Variação 2004 a 2010 (%)
Floresta e outras áreas arborizadas 34,4 0,6%
Matos e herbáceas 26,8 8,1%
Improdutivos 1,8 5,9%
Agricultura 9,4 -24,2%
Urbano 5,8 15,7%
Águas Interiores 0,2 100,0%
Outros 1,7 0,0%

Cinco grupos de árvores mais representativos (mil hectares) Região da Madeira

2010 Variação 2004 a 2010 (%)
Laurissilva 15,2 -3,8%
Eucalipto 7,3 17,7%
Pinheiro-bravo 4,1 -33,9%
Acácias 2,4 20,0%
Outras resinosas 1,1 22,2%

Ocupação por tipo de floresta e áreas arborizadas (mil hectares) Região da Madeira

2010 Variação 2004 a 2010 (%)
Floresta natural 15,3 -4,3%
Floresta cultivada 17 3,0%
Outras áreas arborizadas 2,0 25,0%

Nota: valores arredondados. Fonte: Inventários Florestais da Região Autónoma da Madeira: IFRAM1 2008 e IFRAM2 2015, Instituto das Florestas e Conservação da Natureza IP-RAM

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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