Dizem que é exagero

“Uma fonte ligada à Proteção Civil, que pediu anonimato, explicou ao i que pode, de facto, existir alguma desproporcionalidade possivelmente causada pelo receio acrescido no atual momento de pandemia – sobretudo se se analisar o que está a acontecer do lado dos agricultores.

“A estrutura operacional tem um conjunto de estados de alerta especiais que vão desde a situação verde, que é a normal, à vermelha. A situação do estado de alerta vem no seguimento desta história da pandemia e, se calhar, usou-se e abusou-se deste instrumento. Recordo-me que houve dias em que as condições meteorológicas nem para aí apontavam”, disse, explicando o outro lado: “Agora, o que é verdade é que, do ponto de vista operacional, quanto mais instrumentos estiverem em vigor para evitar trabalhos nas florestas e que haja qualquer movimentação, nomeadamente com máquinas agrícolas, melhor. Tudo o que possa concorrer para que haja uma ignição deve ser evitado e, desse ponto de vista, o estado de alerta é mais um instrumento”.

Segundo a mesma fonte, a prevenção operacional é fundamental porque continua a haver um uso abusivo do fogo por parte das pessoas. “Por isso, na perspetiva do operacional, quanto mais instrumentos, melhor, mas percebo que a perspetiva do agricultor ou de quem precisa de fazer trabalhos na floresta seja certamente outra”.

E se se olhar desse ponto de vista, diz, “é desproporcional esta paragem”: “Há aqui alguma desproporcionalidade, não me custa aceitar isso. Mas também tenho de entender o fator medo por parte dos governantes”.

Defendendo que o incêndio de Oleiros acabou por empurrar o país para um estado de alerta que noutras circunstâncias poderia não ter sido declarado, este especialista afirma que ontem fez um trajeto com alguma extensão durante o qual até choveu: “Por isso, não me custa admitir que houve desproporcionalidade”.”

O contexto destas extraordinárias declarações pode ser visto aqui.

E vale a pena notar o seguinte:

1) Apesar de não haver qualquer razão para supor qualquer prejuízo para quem faz as declarações, o jornalista acha normal usar fontes anónimas;

2) Do ponto de vista operacional, parece claro que há e é aceitável o abuso do poder do Estado: “A situação do estado de alerta vem no seguimento desta história da pandemia e, se calhar, usou-se e abusou-se deste instrumento. Recordo-me que houve dias em que as condições meteorológicas nem para aí apontavam”

3) Há consciência clara do abuso, mas acha-se que se justifica porque “o que é verdade é que, do ponto de vista operacional, quanto mais instrumentos estiverem em vigor para evitar trabalhos nas florestas e que haja qualquer movimentação, nomeadamente com máquinas agrícolas, melhor”.

4) Realmente, de um potno de vista global, até se admite que isto possa ser um exagero, mas para a missão que tenho que executar, isso não é muito relevante.

5) Resumindo, o agente do Estado acha que quanto mais instrumentos de poder tiver para obrigar as pessoas comuns a fazer o que ele entende que é vantajoso para o bem comum – note-se, o bem comum não é a liberdade das pessoas limitada nos termos da lei geral, é mesmo o que o agente do Estado definiu como bem comum, mesmo que não saiba explicar em que medida evitar trabalhos e movimentações, restringindo direitos individuais constitucionalmente garantidos, se vai reflectir no bem comum -, melhor.

6) Todo o poder ao Estado e o que sobrar pode ser deixado à liberdade das pessoas, com base na ideia de que são as sociedades humanas que controlam a doença, o fogo, a morte e outros fenómenos naturais e, para que isso seja possível, o que fundamental é vivermos todos de acordo com normas estritas, impostos e controladas pelo Estado, seja no trabalho dos campos, seja na forma como vamos à escola, seja na forma como usamos a noite, seja na forma como entramos numa loja, seja na forma como vamos à praia, seja na forma como organizamos enterros e casamentos, seja na forma como vamos ao teatro ou decidimos lançar um livro ou abrir uma exposição de pintura, etc., etc., etc..

Que não seja por falta de aviso sobre onde nos leva a mansa aceitação dos abusos do Estado e da pressão social a propósito de uma epidemia que acabemos a lamentar a falta de liberdade e consequente responsabilidade, a que cada um de nós tem direito.

O modelo chinês de lidar com o mundo – “é preciso deslocar vinte milhões de pessoas para fazer uma barragem? Sem problema, se houver questões, manda-se o exército” – nem que tivesse tido o êxito que a propaganda diz que teve no controlo da epidemia valeria mais do que vale.

O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.

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