Como rentabilizar a floresta? – José Borges

Como rentabilizar a floresta? – José Borges

O investimento florestal tem especificidades que problematizam a prática da avaliação da sua rentabilidade.

A rentabilidade da floresta decorre da relação entre valor do investimento florestal e o valor dos bens e serviços florestais que lhe estão associados. Em consequência, a sua estimativa obedece aos critérios seguidos no caso da avaliação da rentabilidade dos investimentos noutras atividades.

No entanto, o investimento florestal tem especificidades que problematizam a prática da avaliação da sua rentabilidade. Entre estas podem referir-se a extensão do horizonte temporal, a dimensão do espaço florestal e a diversidade dos bens e serviços florestais, alguns não transacionados no mercado, que resultam do investimento.

A extensão do horizonte temporal do investimento exige a utilização de instrumentos de projeção de resultados (modelos florestais) e coloca problemas específicos à seleção dos cenários de evolução dos preços e da taxa de atualização. No caso de utilização de uma taxa corrente no âmbito da análise da rentabilidade do investimento, haverá que considerar tendências de procura e de evolução de preços de bens e serviços florestais. Estudos recentes sugerem o crescimento relativo dos preços de alguns bens e serviços florestais pelo que ignorar aquelas tendências pode penalizar os indicadores de rentabilidade florestal.

Em Portugal, a fragmentação da propriedade florestal, em particular no norte do país, coloca problemas específicos à rentabilidade do investimento florestal. Aquela limita a possibilidade de negociar preços de produtos e faz crescer os custos associados a operações florestais. Em consequência, penaliza a rentabilidade florestal. A gestão agrupada de propriedades – no âmbito, por exemplo, de zonas de intervenção, florestal (ZIF) -, surge como solução interessante para realizar economias de escala e para dar poder negocial aos proprietários florestais. Para além disso, o planeamento colaborativo envolvendo várias propriedades florestais permite considerar a escala espacial relevante para a análise do investimento florestal num quadro de oferta de serviços como a proteção contra incêndios. De fato, o risco e a correspondente rentabilidade do investimento numa pequena propriedade dependem da gestão de propriedades vizinhas ou próximas e da acumulação de combustível que dela resulta. De igual modo, a oferta de serviços de ecossistema como a biodiversidade ou a proteção contra a erosão depende do modo como se distribuem na paisagem florestal as opções de gestão em cada propriedade.

Este contexto evidencia a importância do desenvolvimento de métodos e instrumentos de apoio à gestão agrupada de propriedades florestais para a rentabilização do investimento florestal.

A sua arquitetura deve considerar modelos necessários para projetar valores de oferta de serviços de ecossistema bem como métodos e de tecnologias que facilitem a visualização e análise de planos alternativos de gestão. Para além disso, deverá apresentar a informação relativa a relações de troca (tradeoffs) entre objetivos e serviços de ecossistema por forma a apoiar a negociação e procura de soluções consensuais neste contexto caracterizado por múltiplos decisores.

O Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia (CEF/ISA) realiza investigação com vista a desenvolver esta arquitetura, em colaboração com partes interessadas na gestão florestal em Portugal. Esta investigação apoia-se em casos de estudo, por forma a facilitar a demonstração e a disseminação de conhecimento e tecnologia que permitam aumentar a rentabilidade do investimento florestal. Entre estes casos de estudo estão as Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) Entre Douro e Sousa e Paiva, no Vale do Sousa. A experiência de colaboração com este objetivo entre investigadores, indústria florestal, administração pública florestal e da conservação da natureza, as câmaras municipais, juntas de freguesia, empresas de serviços florestais, organizações de certificação florestal, associações de produtores florestais e organizações ambientalistas no âmbito do projeto ALTERFOR é evidenciada neste artigo neste número da Foresta com Energia.

Esta investigação ofereceu uma base de conhecimento indispensável para promover a rentabilização da floresta, no quadro de uma gestão agrupada e à escala da paisagem de propriedades florestais. A utilização de métodos e instrumentos de decisão inovadores por partes interessadas na gestão florestal em laboratório informáticos evidenciou aquele potencial. Entretanto, a realização deste potencial depende, em parte, da efetivação de pagamentos pelos serviços de ecossistema oferecidos pela floresta e que não são transacionados no mercado (e.g. proteção contra incêndios, biodiversidade). A oferta destes serviços conhece uma importância crescente no quadro do desenvolvimento e sustentabilidade da bioeconomia do país. No entanto, os proprietários florestais e o investimento florestal não são remunerados por este seu contributo para o fortalecimento da bioeconomia nacional.

Este quadro evidencia a importância do desenvolvimento de modelos de negócio com vista a atrair pagamentos por serviços de ecossistema para a rentabilização do investimento florestal. O CEF/ISA realiza investigação com este objetivo no âmbito do projeto “BIOECOSYS – Métodos de decisão em gestão de ecossistemas florestais – uma aproximação bioeconómica integrada para a sustentabilidade”

Este projeto pretende integrar métodos e instrumentos de apoio à gestão agrupada de propriedades florestais com plataformas informáticas para apresentar cabazes de serviços de ecossistema e atrair pagamentos voluntários pela sua oferta. De forma muito sumária, numa primeira fase, os proprietários em ZIF utilizam estas ferramentas para visualizar planos de gestão alternativos e os cabazes que lhes estão associados e para selecionar aqueles que colocam em licitação.

Numa segunda fase, as partes interessadas na compra destes cabazes utilizam a plataforma para os consultar bem como o respetivo preço de reserva e para licitar. A seleção do plano a implementar na ZIF dependerá do resultado do mecanismo de licitação. O projeto teve início em 2018 e planeia a demonstração do potencial da integração das funcionalidades destas ferramentas para a rentabilização da floresta em 2021.

O artigo foi publicado originalmente em ECO.

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