Cheias no Mondego. “Estado não tem meios para tomar conta daquilo que é seu”

Cheias no Mondego. “Estado não tem meios para tomar conta daquilo que é seu”

Bastonário dos engenheiros, Mineiro Aires, lamenta que o Estado não dê a devida atenção aos alertas dos engenheiros e alerta para a falta de meios humanos na Agência Portuguesa do Ambiente.

O bastonário da Ordem dos Engenheiros diz à Renascença que o Estado travou o investimento, nos anos de crise, e a consequência está agora à vista: não dispõe de meios suficientes para tomar conta daquilo que é seu, incluindo os diques.

Mineiro Aires lamenta que o Estado não dê a devida atenção aos alertas dos engenheiros e critica ainda a falta de quadros na Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Houve falta de investimento nos últimos anos?

Desde a crise internacional de 2009 até cá, houve uma opção do Estado de cortar as gorduras até ao osso. O Estado deixou-se enfraquecer, não tem uma administração pública em condições e não tem meios para tomar conta daquilo que é seu. É assim nos diques, é assim nas estradas, é assim na rodovia, na ferrovia e, portanto, estamos a passar um período mau.

Acontece também com os diques do Mondego? Não têm tido a devida manutenção?

Eu não sei se têm tido ou não, não vou fazer afirmações sobre aquilo que não sei. Efetivamente, desde essa altura há um desinvestimento e é natural que os diques do Mondego, tal como já foi em 2001, altura em que eu era presidente do Instituto da Água, a manutenção era deficiente por falta de investimentos.

Foi muito criticado por causa das cheias nessa altura…

Estou com a consciência tranquila, fizemos tudo. E vou dizer o seguinte, é que aquilo que está ali é um empreendimento de fins múltiplos, onde toda a gente ganha e quase ninguém paga. Comecemos pela EDP que gere a barragem [da Aguieira], depois temos uma utilização lúdica que é o espelho de água em frente a Coimbra, que também tem um custo, possivelmente intangível, mas tem; a seguir, o plano da rega todo é para servir os agricultores. Até hoje não foi possível encontrar uma forma de haver um pagamento para isso.

É um sistema onde há muitos beneficiários e nunca foi possível, porque não há vontade – porque se houvesse vontade tinha de haver uma decisão – para haver localmente uma unidade ou um centro de gestão de todo este complexo sistema do Baixo Mondego. Isto é uma obra pesada, é uma obra grande, que não está concluída, e o facto de não estar acabada também põe em causa o seu funcionamento no seu todo.

Em que é que falhou tudo isto?

Falhou tudo porque as pessoas criam a ideia de que uma obra de defesa, com diques, é uma obra que defende eternamente as pessoas. Já tivemos provas de que não é assim. Independentemente da boa ou má conservação, tudo aquilo é dimensionado para um determinado caudal e para um determinado período e, portanto, isto pode acontecer em qualquer altura, conforme aconteceu.

É preciso investir…

Antes de tudo é preciso acabar a obra, porque aquilo é um conjunto e o conjunto funciona bem na totalidade. Segundo, completar a tal estação do Foja, que era para ter seis bombas e só tem uma, e deixar de, invariavelmente quando essas coisas acontecem, apontar o dedo e tentar encontrar o culpado. O culpado somos todos nós. Desde logo o Estado, que sabe que tem um problema ali por resolver e tem de criar uma solução, e a solução passa por criar uma unidade de gestão do Mondego, sedeada em Coimbra, com todos os intervenientes envolvidos, e eles que assumam a gestão e o acompanhamento disso e criar uma coisa que é fundamental e tem sido esquecido, é dar a devida importância ao papel da engenharia e à intervenção dos engenheiros em todos os aspetos a este nível. O Estado tem cometido um erro nesse sentido, que é esquecer-se do papel que os engenheiros têm para prever e para poder acompanhar isto.

A Agência Portuguesa do Ambiente está completamente sem meios e está na altura de admitir quadros para que estes ainda possam conviver com os muito poucos que lá restam da geração antiga e que têm este conhecimento todo e, portanto, isso é uma das lacunas graves que o nosso país tem, é não renovar atempadamente os quadros em quantidade suficiente e um estado que não tem engenharia e não tem quadros é um estado fraco.

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O artigo foi publicado originalmente em Rádio Renascença.

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