Bodegas Torres. 12 milhões investidos para reduzir a pegada ecológica

Filme de Al Gore foi o ponto de partida para a mudança na Bodegas Torres. Miguel Torres é um dos oradores da conferência dedicadas às soluções para a indústria vitivinícola

Miguel Torres é a quarta geração na gestão da Bodegas Torres, empresa com sede em Vilafranca del Penedès, Barcelona, e vem à conferência Climate Change Leadership, organizada pelo grupo The Fladgate Partnership, para falar do plano Torres&Earth, com o qual a companhia reduziu, entre 2008 e 2017, as emissões de CO2 por garrafa em 25,4%. O objetivo é chegar aos 30% em 2020. A empresa foi considerada a Marca de Vinhos Mais Admirada do Mundo pela reputada publicação Drinks International pelo segundo ano consecutivo, um feito único na Europa.

Como nasceu a sensibilização para o tema das alterações climáticas na Bodegas Torres?
Depois de ter visto o filme de Al Gore “Uma Verdade Inconveniente” em 2007 percebi que, enquanto empresa vitivinícola, não estávamos a fazer o suficiente. Em resultado, o programa Torres & Earth foi posto em prática para reduzir as emissões de CO2 em 30% por garrafa até 2020, por comparação a 2008. Desde então, investimos mais de 12 milhões de euros e reduzimos a nossa pegada de CO2 em 25,4% (dados de 2017 certificados pelo Lloyd’s). E estes são dados que têm em conta não só as internas da atividade, mas, também, as emissões indiretas por via do consumo elétrico, bem como as realizadas a montante e a jusante, quer pelos nossos fornecedores, quer pelos nossos distribuidores.

E como o conseguiram?
Através de uma abordagem ampla que inclui a aposta em energias renováveis, na ecoeficiência nos transportes, na otimização do uso da água, na biodiversidade (o que inclui medidas de planeamento/gestão florestal e de reflorestamento) e medidas de adaptação nas vinhas. Mas os principais impulsionadores da redução resultaram da redução do peso das garrafas, do uso de nossa caldeira de biomassa e do uso de painéis solares fotovoltaicos.

Que outras medidas serão implementadas para atingir 30% em 2020?
Junto aos 14 mil metros quadrados de painéis fotovoltaicos instalamos mais 4000 metros quadrados e estamos em constante aperfeiçoamento de todos os outros projetos que iniciamos em 2008. Por exemplo, estamos a começar a plantar árvores numa área de quase 6.000 hectares no sul do Chile, num terreno que compramos no ano passado, para recuperar a paisagem florestal típica desta área e para capturar CO2. Mas esperamos que a redução da pegada de CO2 dessas florestas contribua mais para o próximo ciclo do plano Torres & Terra após 2020. O mesmo se aplicará provavelmente a várias experiências em pequena escala que estamos a fazer com tecnologias CCR (Captura e Reutilização de Carbono).

Desde quando?
Começamos em 2017, em cooperação com universidades e empresas de tecnologia, e procuramos maneiras de fazer uso do CO2 produzido a partir da fermentação dos nossos vinhos. Por exemplo, testes foram realizados com Power-to-Gas: obtemos hidrogénio a partir de eletrólise de água com eletricidade de energias renováveis, que é então usado na metanização (transformação de CO2 e hidrogénio em metano usando micro-organismos produtores de metano). O nosso objetivo é que as tecnologias de CCR capturem 10% das emissões de carbono da Torres nos próximos anos. Em 2018 conseguimos reduzir a nossa pegada em 26,7%, valor que aguarda a certificação do Lloyd’s. Estamos agora na fase de definição de uma nova meta para 2050, procurando perceber quais os ajustes que temos que fazer no nosso programa Torres & Earth.

O consumidor já está ciente da política ambiental da empresa? Esse é um argumento importante de venda?
Não, não é. E eu instruí todas as nossas equipas para que a nossa política ambiental não seja um argumento de venda. Falamos do nosso programa porque achamos que é preciso fazer mais e queremos, assim, contribuir para trazer o tema das alterações climáticas para o topo da agenda das empresas, dos setores, dos políticos e, esperamos nós, também para a mente dos consumidores finais. Temos a impressão de que muitas pessoas não percebem o que realmente está a acontecer no nosso planeta e que muito mais ações são necessárias. Também tentamos contribuir para ampliar a discussão em direção a uma abordagem ecológica sustentável mais ampla e mais abrangente das regulamentações vitivinícolas. Por exemplo, esperamos que, no futuro, os regulamentos sobre vinhos orgânicos levem em consideração este tema. O facto de um vinho ser produzido de acordo com critérios orgânicos não significa que ele ajude automaticamente a combater as alterações climáticas: em geral, as vinhas orgânicas necessitam de mais tratamentos com enxofre ou calda bordalesa, o que significa mais emissões de C02; e o cobre é tóxico para os solos.

Que mensagem pretende deixar na conferência do clima no Porto?
A minha mensagem é simples: Fazer só um “pouco” melhor não é suficiente! Precisamos de reduzir drasticamente as nossas emissões e ajudar a descarbonizar o nosso planeta.

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O artigo foi publicado originalmente em Dinheiro Vivo.

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