Árvores no meio das lavouras reduzem a incidência de doenças e pragas

Árvores no meio das lavouras reduzem a incidência de doenças e pragas

A ideia dos sistemas agrossilvopastoris não é nova, mas começa a ter cada vez maior implementação em sistemas de produção intensivos. Para além da óbvia promoção da biodiversidade, a redução da incidência de doenças e pragas parece ter evidencias científicas mais robustas. Fique a conhecer a linha de investigação da brasileira Embrapa sobre esta prática.

A plantação de árvores no meio das lavouras pode reduzir a incidência de doenças e pragas, aponta uma investigação realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). O ensaio foi conduzido num campo experimental de longa duração do Instituto Agronómico do Paraná (Iapar) e, de acordo com os investigadores, os chamados sistemas integrados de produção agropecuária (SIPA), também conhecidos como integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), contribuem para a sanidade nas searas de cereais, tanto nas raízes quanto na parte aérea das plantas.

Os resultados deste estudo inédito foram publicados na edição de novembro de 2020 da revista Internacional Agricultural Systems. Intitulado “Plant diseases in afforested crop-livestock systems in Brazil”, o artigo é assinado pelo engenheiro-agrónomo Alexandre Dinnys Roese, da Embrapa Agropecuária Oeste, em parceria com Erica Camila Zielinski e Louise Larissa May De Mio, ambas do Departamento de Fitotecnia e Fitossanitarismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

De acordo com Roese, as pesquisas concentraram os seus esforços em doenças causadas por fungos que sobrevivem no solo, mas também em doenças foliares, cujos patógenos sobrevivem nos restos culturais e na vegetação espontânea, podendo ser dispersos pelo ar, como é o caso das ferrugens. Neste cenário, os investigadores quiseram saber se a presença de árvores no sistema de produção influencia a ocorrência ou a severidade de doenças na lavoura, e como isso ocorre.

“Essa era uma suspeita baseada em observações empíricas a campo, de que nos locais com utilização do sistema ‘agrossilvopastoril’, também conhecido como ILPF, ocorria redução de doenças. Por meio desse estudo, temos a certeza de que essa diminuição é verdadeira para a maioria das doenças. Esse aspeto foi comprovado cientificamente e agora compreendemos como isso ocorre”, comenta o cientista.

E isso acontece porque as árvores proporcionam uma alteração no microclima, modificando inúmeros aspetos das lavouras.  “Os dados relacionados com o microclima foram monitorizados no interior do dossel das plantas [área foliar] em soja e em milho. Observamos que, com a presença das árvores, ocorre menor duração da humidade foliar diária, menor intensidade luminosa, menor temperatura diurna, maior temperatura noturna, maior humidade do ar durante o dia e menor velocidade do vento”, completa.

Roese destaca que a menor duração da humidade foliar ocorre em função da menor formação de orvalho que, por sua vez, é influenciada pela menor redução da temperatura durante a noite. Isso ocorre porque as copas das árvores formam uma barreira que reduz a perda de energia, ou temperatura, durante a noite.

A ILPF em solo brasileiro

Uma investigação encomendada pela Rede ILPF, que é formada pela Embrapa e por outras empresas e cooperativas do setor e realizada pelo Kleffmann Group na colheita 2015/2016, estimou que o Brasil já conta com 11.468.124 hectares com sistemas integrados de produção agropecuária. Entre as quatro possibilidades de configuração do sistema produtivo, a integração lavoura-pecuária é a mais adotada pelos produtores, sendo que, em dez anos, a área ocupada pela ILPF aumentou em quase 10 milhões de hectares.

“A meta estipulada pelo Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC) em 2009 era de aumentar em 4 milhões de hectares a área com ILPF em todo o país até 2020.

Entre 2010 e 2015 o incremento de 5,96 milhões de hectares foi responsável pelo sequestro de 21,8 milhões de toneladas de CO 2 eq.

A ratificação do Acordo de Paris sobre mudança do Clima pelo governo brasileiro, em 2016, adicionou à meta do Plano ABC o incremento de mais 5 milhões de hectares com sistema ILPF, totalizando nove milhões de hectares até 2030”, informa a Rede ILPF no seu site oficial.

Nesse contexto, o Mato Grosso do Sul é o estado com maior incidência de SIPAs, com 2.085.518 hectares destinado para integração de produção, seguido pelo Mato Grosso com 1.501,016 hectares, o Rio Grande do Sul com 1.457.900 hectares e Minas Gerais com 1.046.878 hectares. Entre os benefícios citados pela Rede para produtores pecuários estão a redução no impacto ambiental e a recuperação de pastagens e, para os agricultores, o aumento da rentabilidade e a diminuição do risco financeiro.

Entender as doenças

Em relação às doenças estudadas pela Embrapa, as do solo são causadas por microrganismos (fungos, bactérias e outros), habitantes naturais do solo, mas em desequilíbrio nesse ambiente, sendo a microbiota presente no solo responsável por equilibrar a presença desses agentes causadores das doenças. As doenças de solo avaliadas foram o tombamento de plantas de soja, causado pelo fungo Rhizoctonia, e o mofo-branco, causado pelo fungo Sclerotinia.

Nos dois casos, o sistema agrossilvopastoril reduziu a incidência da doença ou a sobrevivência do patógeno. Esses resultados foram relacionados ainda com a maior atividade microbiana e maior presença de fungos benéficos no solo no sistema de produção que inclui árvores.

“A microbiota do solo é favorecida pela intensificação no sistema de produção, ou seja, o aumento do número de espécies cultivadas e a presença de animais. Assim, o componente florestal beneficia a microbiota, o que contribui diretamente com a redução das doenças”, detalha Roese.

Quando falamos em doenças foliares, essas ocorrem na parte aérea das lavouras e que podem ser causadas por fungos, bactérias e outros microrganismos que ficam nos restolhos ou que sobrevivem em plantas hospedeiras alternativas. São normalmente disseminadas pelo vento e respingos de chuva.

Também foram avaliadas a mancha-branca, ferrugem, helmintosporiose e cercosporiose na cultura do milho. O sistema de produção agrossilvopastoril apresentou menor severidade de mancha-branca, de ferrugem e de cercosporiose. Quanto à helmintosporiose, não houve diferença na severidade e no número de lesões entre os sistemas de produção.

Para Roese, os resultados comprovam que a arborização reduz a maior parte das doenças nas lavouras. “No entanto, culturas agrícolas sujeitas a oídio devem ter cuidado redobrado em sistemas de produção arborizados. Esta doença teve a sua severidade aumentada, inclusive na cultura de aveia durante o inverno,” declara.

“Quem defende sistemas agrossilvopastoris menciona com frequência a redução de doenças de plantas como um dos seus benefícios. No entanto, esta afirmação estava baseada nos conceitos do sistema, na sua maior proximidade com ambientes naturais e na expectativa de maior resiliência a stresses. Porém, ainda não havia resultados experimentais que comprovassem isso. E foi isso que fizemos,” conclui.

Pontos de atenção

Mesmo que a prática de integrar árvores na produção agrícola esteja cheia de benefícios, existem alguns pontos de atenção importantes. É isso que afirma o professor do Departamento de Fitotecnia e Fitossanidade da UFPR, Anibal de Moraes. Este investigador explica que o planeamento é a palavra-chave do sucesso e salienta que na etapa de implantação das árvores é preciso levar em consideração o tipo de implemento que será trabalhado na área. “Não é uma decisão simples”, diz.

Segundo ele, o produtor deve definir previamente os espaçamentos entre as linhas de arborização, bem como a sua localização, priorizando o plantio em nível do terreno. “Sobre o espaçamento entre as linhas existem algumas possibilidades que variam em função do interesse no uso da componente florestal. Se o objetivo for cultivo de árvores, procura-se uma maior densidade. Porém, se for o bem-estar animal e a qualidade do produto objetivo principal, prioriza-se a pastagem e então esse espaçamento entre as árvores deverá ser maior”, completa.

Anibal de Moraes destaca ainda alguns cuidados no momento da implantação da componente florestal em pastagens e explica que “é necessário definir algumas estratégias, tais como uso de cercas elétricas para a proteção das mudas de árvores plantadas até que elas atinjam um tamanho e possam suportar o impacto que o animal pode proporcionar quando for, por exemplo, coçar-se ou fazer algum romaneio na árvore. Assim, é conveniente aguardar, em média, cerca de dois anos para que haja possibilidade de ingresso de animas nas áreas arborizadas”.

*Artigo publicado originalmente na edição de fevereiro de 2021 da revista VIDA RURAL.

O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.

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