Hoje celebra-se o Dia Mundial da Alimentação. A FAO destaca a inovação como uma das ferramentas para construir sistemas agroalimentares mais sustentáveis. Do melhoramento de plantas às novas técnicas genómicas, a ciência procura desenvolver culturas mais resistentes às alterações climáticas, às pragas e às doenças, contribuindo também para reduzir as perdas e o desperdício alimentar.
✍️ Carla Amaro
«Inovar hoje. Alimentar o amanhã.» É este o mote do Dia Mundial da Alimentação de 2026, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A iniciativa chama a atenção para o papel da ciência, da tecnologia e do conhecimento na transformação dos sistemas agroalimentares, num contexto marcado pelas alterações climáticas, pela instabilidade económica e pelas dificuldades de acesso a uma alimentação saudável.
A FAO estima que 645 milhões de pessoas enfrentam a fome e que 2,69 mil milhões não têm condições económicas para aceder a uma alimentação saudável. Estes números mostram que o desafio alimentar não se resume à quantidade de alimentos produzidos: envolve também a sua disponibilidade, acessibilidade e qualidade nutricional.
Melhoramento de plantas para enfrentar novos desafios
A biotecnologia oferece ferramentas que podem contribuir para tornar a agricultura mais resiliente. Através do melhoramento genético, os investigadores procuram desenvolver variedades de plantas com características como maior tolerância à seca, melhor aproveitamento da água e dos nutrientes e maior resistência a pragas e doenças.
Estas características podem ajudar os agricultores a enfrentar condições ambientais cada vez mais imprevisíveis e, em determinadas circunstâncias, reduzir a necessidade de alguns fatores de produção, como os pesticidas. Os resultados dependem, contudo, da cultura, da característica introduzida e das condições em que as plantas são cultivadas.
A proteção das culturas assume particular importância num clima em mudança. O aumento das temperaturas e as alterações nos padrões de precipitação podem favorecer a sobrevivência e a disseminação de determinados organismos nocivos, colocando em risco as colheitas e a segurança alimentar.
Novas técnicas genómicas: mais ferramentas para o melhoramento vegetal
Entre as ferramentas disponíveis estão as novas técnicas genómicas (NTG), que permitem introduzir alterações dirigidas no material genético das plantas. Técnicas como a edição do genoma podem facilitar o desenvolvimento de características de interesse para a agricultura, em alguns casos com maior rapidez e precisão do que os métodos convencionais de melhoramento.
A investigação internacional explora aplicações como o desenvolvimento de plantas mais resistentes a doenças, mais tolerantes a condições ambientais adversas e com características nutricionais melhoradas. Existem também exemplos de produtos desenvolvidos para prolongar a conservação dos alimentos e reduzir o desperdício.
Na União Europeia, o Regulamento (UE) 2026/1388 estabelece um novo quadro jurídico para as plantas obtidas por determinadas NTG. O diploma entrou em vigor em julho de 2026, mas só será aplicável a partir de 17 de julho de 2028. Até lá, continua a aplicar-se o quadro regulamentar europeu vigente para os organismos geneticamente modificados, incluindo às plantas obtidas por estas novas técnicas.
A avaliação científica da segurança, a proteção do ambiente e da saúde e o acompanhamento dos efeitos destas tecnologias são elementos essenciais para a sua utilização responsável.
Reduzir as perdas e o desperdício alimentar
A inovação pode contribuir para a sustentabilidade alimentar também depois da colheita. O desenvolvimento de variedades com maior durabilidade, menor suscetibilidade a danos ou características que atrasem a deterioração pode ajudar a diminuir as perdas e o desperdício alimentar.
A biotecnologia é apenas uma parte da resposta. A conservação adequada, o armazenamento, o transporte, a distribuição e as práticas de consumo são igualmente determinantes para evitar que alimentos próprios para consumo sejam desperdiçados.
A ciência como parte da solução
O Dia Mundial da Alimentação recorda que não existe uma solução única para os desafios alimentares globais. O melhoramento vegetal, a biotecnologia, a agricultura de precisão, a gestão sustentável da água e do solo e a redução do desperdício podem contribuir para sistemas agroalimentares mais resilientes.
Para que esse contributo se traduza em benefícios concretos, é necessário articular investigação científica, conhecimento dos agricultores, políticas públicas adequadas e acesso às tecnologias. Inovar é importante, mas garantir que os alimentos chegam às pessoas que deles necessitam continua a ser indispensável.
O artigo foi publicado originalmente em CiB – Centro de Informação de Biotecnologia.















































