Ainda Precisamos de Barragens em 2021? – José Pedro Salema

Ainda Precisamos de Barragens em 2021? – José Pedro Salema

Segundo o Plano Nacional da Água (2015) em Portugal consumem-se por ano 4539 milhões metros cúbicos de água (Mm3) sendo que a Agricultura é, naturalmente, responsável pela maior fatia com 3389 Mm3.

Também segundo o mesmo documento as bacias hidrográficas do nosso território continental registam afluências médias de 47 840 Mm3 – um valor equivalente a mais de 10 vezes o consumo! Com estes valores como podemos dizer que há falta de água em Portugal?

O nosso problema é apenas de desfasamento entre o momento em que a água está disponível e aquele em que existe maior consumo. No verão, em especial no sul, praticamente não chove quando as altas temperaturas aumentam dramaticamente as necessidades de água. A irregularidade é também uma característica fundamental do nosso clima mediterrânico que prevemos se agravará com as alterações climáticas.

A necessidade de regularização hídrica não é de hoje. O Homem descobriu as vantagens do represamento de água dos rios há milhares de anos, pois só dessa forma conseguiu garantir o seu abastecimento nas regiões onde a precipitação é escassa ou irregular.

No Sul do país estão identificadas dezenas de barragens romanas que comprovam a necessidade encontrada por aquele povo para aqui garantir o abastecimento populacional, o regadio e até a produção de energia motriz.

As barragens prestam-nos um serviço inestimável com a regularização do fluxo dos rios. Garantem as condições para vida nas cidades, produzem energia limpa e garantem condições para a produção eficiente de alimentos no campo. O parque de barragens hoje instalado em Portugal tem uma capacidade útil de armazenamento de 9759 Mm3 que corresponde sensivelmente ao consumo global de 2 anos.

Recentemente alguns movimentos têm propagandeado campanhas pelos rios livres de interrupções deixando implícita a sugestão que as barragens são dispensáveis. O tema da dessalinização surge muitas vezes em paralelo como a grande e “desejável” alternativa.

Mas a satisfação do consumo de água de Portugal com recurso apenas à dessalinização obrigaria à construção de 12 centrais com a mesma capacidade da maior unidade de dessalinização do mundo. O investimento necessário ascenderia a mais de 70 000 milhões de Euros e o custo de cada metro cúbico de água produzido poderia ser, na melhor das hipóteses, da ordem dos 40 cêntimos de Euro – um valor dez vezes superior ao custo de sistemas com barragens.

Frequentemente aparecem notícias de uma tecnologia inovadora associada à dessalinização mas ainda faltará algo tempo para essas novidades sejam validadas e disponibilizadas comercialmente a preços competitivos.

Todos os sistemas têm desvantagens. Na dessalinização apontamos o investimento inicial, as elevadíssimas necessidades energéticas ou as salmouras hipersalinas que podem por risco os ecossistemas onde são despejadas. As barragens reduzem o transporte de sedimentos e podem impedir os movimentos dos peixes.

Felizmente que hoje temos conhecimentos que permitem minimizar dramaticamente muitos dos impactos das barragens. Se as “escadas” para peixes são relativamente frequentes para pequenos desníveis, para as grandes barragens podemos usar um elevador para peixes, como aquele que existe na barragem de Pedrogão que comprovadamente funciona na garantia do contínuo fluvial.

As barragens podem também contribuir para uma melhoria das condições ecológicas se devidamente projetadas e geridas. Um regime de caudais ecológicos pode garantir melhores condições em longos períodos de estiagem, sustentando ecossistemas ribeirinhos, verdadeiros oásis de biodiversidade e impedir inflorescências de algas tóxicas.

Temos de adequar as barragens, grandes e pequenas, às prioridades deste milénio, assegurando a proteção da biodiversidade, contribuindo para a descarbonização da atmosfera e melhorando as condições de vida da população afetada e beneficiada. Nesta linha teremos, com certeza, de remover todas as estruturas obsoletas que já não representam benefícios claros bem como investir em melhoramentos cruciais nas infraestruturas válidas.

Contudo os números são ainda inequívocos – as barragens desempenham, e desempenharão ainda por muitos anos, um papel crucial para a vida do Homem na Terra. São muitas vezes estruturas grandiosas que merecem ser vistas como verdeiros monumentos que celebram o engenho humano.

José Pedro Salema

Presidente do Conselho de Administração da EDIA

Queremos água mais barata!? – José Pedro Salema

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