Adotar uma laranjeira e receber a colheita em casa? Está aí o ‘crowdfarming’

Adotar uma laranjeira e receber a colheita em casa? Está aí o ‘crowdfarming’

[Fonte: Visão]

crowdfarming é um novo conceito que permite ter uma relação mais próxima com o produtor e receber em casa o fruto do investimento. Há laranjas, arroz, café, queijo e mantas de lã…

Se pudesse escolher, plantaria uma laranjeira em Valência, um cafeeiro na Colômbia ou um cacaueiro nas Filipinas? Antes de responder, considere a hipótese de encomendar o serviço a um agricultor especializado e, depois, no final de cada campanha, receberá em casa o resultado das colheitas, em forma de laranjas, café em grão ou chocolate. Sim, é possível: está em marcha um novo conceito agrícola em que os produtos são cultivados por encomenda, em várias regiões do globo, e entregues ao domicílio, como uma pizza qualquer. Chama-se crowdfarming, dispensa supermercados e também já disponibiliza arroz, azeite, mel, romãs, alperces, queijo, vinho, vinagre, tomates, alcachofras, amêndoas, mantas de lã Merino e até folhas de aloé vera.

A ideia surgiu em Espanha, há cerca de três anos, quando os irmãos Gonzalo e Gabriel Úrculo, além da venda de laranjas através da internet, decidiram dar aos clientes a possibilidade de adotarem uma laranjeira do pomar que herdaram do avô, na periferia de Valência. De 700 consumidores regulares, em 2016, a Naranjas del Carmen passou a ter mais de 10 mil árvores adotadas por clientes (e mais uns milhares de interessados em espera), cada uma a produzir 80 quilos de laranjas por ano e com o escoamento garantido logo à partida.

O sucesso imediato do negócio particular levou os dois irmãos a abrirem o conceito a outros agricultores. Em dezembro de 2017, lançaram a plataforma online CrowdFarming, que hoje agrega 14 projetos agrícolas distintos e soma 47 mil clientes registados, a maioria da Alemanha (25 mil). “O nosso sonho é tornar o crowdfarming um movimento global, por isso é importante partilhar com os outros este novo modelo e esta nova filosofia de cultivo”, afirma à VISÃO Gonzalo Úrculo, cuja principal bandeira é o combate ao desperdício alimentar – a União Europeia estima que 20% da comida produzida nos 28 Estados-membros seja desaproveitada (o equivalente a 88 milhões de toneladas).

“Este modelo poderá levar a uma maior consciência dos consumidores no sentido de prevenirem o desperdício, permitindo que a CrowdFarming deixe de ser um sucesso local para se tornar uma revolução socioagrícola a nível mundial”, enfatiza um dos mentores da ideia. À escala atual, é como se a plataforma fosse um minimercado, com produtos muito específicos. Para o futuro, os irmãos Úrculo ambicionam transformá-la numa espécie de Amazon de produtos agrícolas.

As árvores de fruto são as mais procuradas. De momento, não é possível adotar as que dão romãs, alperces ou clementinas, por terem atingido o limite de quota disponível. Um dos dois pomares de laranjeiras (além da Naranjas del Carmen, que mantém o seu negócio a solo, prestando apenas apoio logístico à CrowdFarming) também está no seu máximo de adoções (2 500), mas o outro já terminou a campanha de 2019 e está aberto a novas inscrições para 2020.

LARANJAS PARA FAMALICÃO

As laranjas são colhidas entre janeiro e abril e, como todos os outros produtos, só estão disponíveis para entrega durante a época de colheita. É regra da casa enviá-las frescas, embora possa dispersar-se a encomenda por várias datas, dentro daquele intervalo temporal. Para quem não consegue ou não quer adotar, existe a possibilidade de comprar caixas avulso. Pedro Gomes, um dos 92 clientes portugueses registados na plataforma, já teve as duas experiências: comprou 20 quilos de laranjas a cada pomar e, num deles, adotou e batizou uma laranjeira para a campanha deste ano.

“As últimas chegaram no início deste mês e já desapareceram. Faço uma alimentação muito à base de fruta e usei-as sobretudo em sumos”, conta este pianista de Famalicão, que pagou €2,5 por quilo (despesas de envio incluídas). “É um bom projeto para os pequenos produtores e gostei da ideia de não haver intermediário entre o agricultor e o consumidor final. Além disso, as laranjas eram muito boas”, sublinha.

O modelo de comercialização não difere de produto para produto. Quem adota escolhe o nome e recebe uma fotografia por ano da árvore ou do animal, para ficar a par do seu crescimento, além de estabelecer um contacto direto com o agricultor, por via do acesso a uma área privada na plataforma. Também pode visitar o local, com marcação prévia.

As adoções implicam um custo de manutenção por campanha (não renovável automaticamente) e contemplam uma gama de produtos predefinida: 12 plantas de café colombiano resultam em 2,72 kg de grãos torrados; de um cacaueiro filipino saem 2 kg de chocolate; uma ovelha dá 150 litros de leite a cada seis meses, transformados em 27 kg de queijo para distribuir, neste caso, por nove “donos adotivos”, três quilos a cada; 10 m2 de uma plantação de arroz rende 9 kg (adoções completas de momento); uma amendoeira fornece 3,6 kg de amêndoas.

Os preços variam consoante o país de origem e o de destino, por causa das despesas de envio. Para Portugal, por exemplo, um cafeeiro custa €91 por campanha, um pedaço de arrozal fica a €34, uma romãzeira dá romãs a €5,5 ao kg, cinco folhas de aloé vera saem a 30 euros. O custo final é sempre indicado no momento da encomenda, assim como a calendarização das entregas.

Na Naranjas del Carmen, Gonzalo Úrculo aposta em produtos 100% orgânicos, incluindo o mel (tem colmeias para adotar), o azeite e os tomates e alcachofras da horta. Mas nem todos os agricultores presentes na CrowdFarming fizeram a desejada (e incentivada) transição. Por isso, em cada projeto aparece assinalado se está ou não isento de pesticidas e herbicidas.

Por enquanto, não há produtores portugueses associados, mas Gonzalo Úrculo lança a escada a todos os interessados em aderir a “uma cadeia de distribuição alimentar” que ele pretende “livre e de mente aberta”. Pedro Gomes torce para que os agricultores nacionais comecem a apostar em produtos biológicos “entregues à porta”. Diz este famalicense de 27 anos que um projeto desta natureza “não só iria promover a agricultura local” como tornaria o consumo “mais ecológico do que mandar vir de Espanha”. E, à partida, menos oneroso.

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