A análise de dados biológicos com inteligência artificial, as vacinas de mRNA e a edição genética por CRISPR-Cas estão entre as tecnologias que investigadores financiados pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC) esperam que tenham maior impacto na biotecnologia até 2030. Um novo relatório do organismo europeu destaca a força da investigação neste domínio, mas alerta também para as dificuldades em transformar descobertas científicas em aplicações concretas.
✍️ Carla Amaro
O relatório ERC Frontier Research on Biotechnology: From Discovery to Innovation, divulgado em setembro de 2026, apresenta os resultados de um inquérito realizado em maio a investigadores financiados pelo ERC na área da biotecnologia.
A análise de dados das ciências da vida com recurso à inteligência artificial surge em primeiro lugar, com 85% dos inquiridos a identificarem esta tecnologia como uma das que poderão ter maior impacto no setor até 2030.
Seguem-se as vacinas de mRNA, com 82%, as tecnologias omics, com 78%, a engenharia de tecidos, com 77%, e a edição genética por CRISPR-Cas, com 76%.
As tecnologias omics permitem estudar, de forma abrangente, diferentes componentes dos sistemas biológicos, como os genes, as proteínas ou os metabolitos. A sua combinação com ferramentas de inteligência artificial pode ajudar a identificar padrões complexos e a acelerar a investigação em áreas como a saúde, a agricultura e a indústria.
Estes valores traduzem as expectativas dos investigadores inquiridos e não uma previsão garantida da evolução ou adoção destas tecnologias.
Mais de quatro mil milhões de euros em investigação
O relatório evidencia a dimensão do investimento europeu na investigação de fronteira em biotecnologia. Entre 2014 e 2023, o ERC financiou 2416 projetos neste domínio, num total de 4,09 mil milhões de euros, envolvendo investigadores de 28 países.
A carteira de projetos abrange áreas tão diversas como a biotecnologia médica, industrial, agroalimentar, ambiental e azul, além de campos emergentes como a biologia sintética e os materiais de base biológica.
O apoio à investigação fundamental é particularmente relevante, uma vez que muitas descobertas não têm uma aplicação prática imediata. O relatório sublinha que a investigação exploratória pode gerar conhecimentos, métodos e tecnologias que só mais tarde dão origem a novos produtos ou processos.
Entre os resultados identificados estão 531 bolsas de prova de conceito atribuídas a projetos de biotecnologia, 211 investigadores que apresentaram pedidos de patente e pelo menos 72 empresas derivadas (spin-offs) criadas com contributos de investigadores financiados pelo ERC.
Da descoberta científica à aplicação: um percurso com obstáculos
Apesar da capacidade científica europeia, a passagem da investigação à inovação continua a enfrentar dificuldades.
O inquérito do ERC identifica cinco áreas críticas: o apoio à investigação de fronteira, as lacunas de financiamento entre a investigação inicial e a validação do potencial comercial, a comercialização e o aumento da escala de produção, o reforço dos ecossistemas de inovação e os enquadramentos regulamentares e de governação.
Estes desafios são especialmente relevantes para tecnologias que exigem investimento significativo, infraestruturas especializadas e validação antes de chegarem ao mercado.
Reforçar a investigação e a inovação na Europa
O relatório do ERC contribui para o debate sobre a competitividade europeia num setor estratégico para a saúde, a produção alimentar, a indústria e a sustentabilidade ambiental.
A análise sugere que o potencial da biotecnologia europeia não depende apenas da excelência científica, mas também da capacidade de assegurar financiamento ao longo das diferentes fases de desenvolvimento, criar condições para a colaboração entre investigadores e empresas e facilitar a passagem das descobertas à aplicação.
Fonte: Conselho Europeu de Investigação (ERC) — Europe’s biotech frontier: New ERC report charts breakthrough potential and barriers.
Relatório original: ERC Frontier Research on Biotechnology: From Discovery to Innovation (PDF).
O artigo foi publicado originalmente em CiB – Centro de Informação de Biotecnologia.















































