O ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, anunciou a reabertura dos apoios aos agricultores para investimentos em eficiência hídrica e referiu que estão em execução mais de 700 milhões de euros em investimentos agrícolas relacionados com a água.
Os anúncios foram feitos no XI Congresso Nacional de Rega e Drenagem, organizado em Beja pelo Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR). No mesmo encontro, o diretor-geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR), Eduardo Reis, anunciou a reativação do Conselho Nacional do Regadio, com a intenção de realizar uma reunião até ao final de outubro.
Ao anunciar a reabertura dos apoios à eficiência hídrica, o governante defendeu o recurso a várias fontes de financiamento, considerando que as necessidades do país não podem depender apenas da PAC. Sustentou ainda que a crescente escassez e irregularidade da água devem refletir-se nas prioridades e nos instrumentos financeiros da UE.
O COTR defende que a estratégia “Água que Une” deve traduzir-se em investimentos com financiamento, responsabilidades e calendários de execução definidos.
Para Gonçalo Morais Tristão, presidente do COTR, o país precisa de continuar a melhorar a eficiência hídrica nas explorações agrícolas, modernizar as infraestruturas de armazenamento e distribuição e assegurar capacidade financeira e institucional para executar os investimentos. As melhorias alcançadas pelos agricultores, acrescenta, devem ser acompanhadas pela redução das perdas nas redes e pela resposta às limitações de armazenamento.
Consumos de eficiência hídrica 16% abaixo da referência
O congresso acolheu também a apresentação do primeiro Barómetro Nacional do Uso Eficiente da Água na Agricultura, segundo o qual a medida Uso Eficiente da Água abrangia, em 2025, 118,1 mil hectares. Nas quatro culturas avaliadas (olival, amêndoa, vinha e milho), o consumo médio correspondeu a 84% da dotação padrão definida pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) para o Alentejo, ou seja, 16% abaixo da referência, com o volume utilizado no conjunto analisado a ficar cerca de 18 milhões de metros cúbicos abaixo desse valor.
Sete em cada dez contadores registaram consumos iguais ou inferiores à referência: 94% na amêndoa, 80% na vinha, 78% no milho e 65% no olival.
A adesão à medida também cresceu. Em 2023, primeiro ano do PEPAC, a área abrangida atingiu 129,5 mil hectares, mais 63% do que os 79,2 mil hectares registados em 2015, no início do PDR2020. Em 2025, 92% da área apoiada estava na classe de regante mais exigente e 87% utilizava rega localizada, face a 60% no conjunto da área regada do Continente.
Os indicadores assentam em informação oficial reunida pelo Observatório Nacional do Regadio, plataforma pública da FENAREG e do COTR que harmoniza dados do INE, IFAP, DGADR e FENAREG. O COTR pretende atualizar o Barómetro e alargar progressivamente a análise, defendendo que a avaliação da eficiência deve considerar, além dos equipamentos instalados, os consumos efetivos, a produtividade e as condições de cada exploração.
Necessidades de rega podem aumentar até 27,5%
O projeto “Conhecer para Prever o Futuro”, desenvolvido pela DGADR com o COTR e a colaboração do Instituto Superior de Agronomia, aponta para um possível aumento de até 27,5% das necessidades de água para rega entre 2071 e 2100, no cenário mais desfavorável e mantendo-se a atual situação agronómica. Para o COTR, a projeção reforça a urgência de reduzir perdas, gerir melhor as reservas e adequar a rega às necessidades das culturas.
Ao longo de dois dias, o encontro reuniu mais de 35 intervenientes da política, agricultura, empresas, ciência e tecnologia, com debates sobre a governação da água, o contributo da inteligência artificial (IA) e dos sensores para a decisão no regadio e as condições para atrair e fixar jovens agricultores, área em que o acesso previsível à água, as infraestruturas e o conhecimento técnico foram apontados como requisitos da renovação geracional.
José Macário Correia, presidente da AdP AQUA, destacou a necessidade de recuperar capacidade de planeamento e de preparar os investimentos antes de se instalarem situações de escassez. O programa incluiu ainda 14 comunicações de investigação e inovação e uma homenagem ao professor Luís Santos Pereira, pelo contributo para a rega e o regadio em Portugal.
Para o COTR, os anúncios feitos no congresso abrem caminho a maior investimento e diálogo no setor, sendo agora prioritário assegurar continuidade, financiamento e resultados verificáveis no terreno. A próxima edição do Congresso Nacional de Rega e Drenagem realiza-se em Ponte de Lima, em 2028.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































