“Os grandes desafios do século XXI não serão resolvidos por países isolados, mas por Estados capazes de transformar interesses comuns em estratégias comuns.”
Durante décadas, Portugal e Espanha olharam-se sobretudo como vizinhos, concorrentes comerciais e parceiros ocasionais no quadro europeu. Contudo, o século XXI coloca uma questão diferente: poderão dois Estados soberanos construir uma estratégia comum para a agricultura e a floresta sem abdicar da sua identidade política?
A resposta merece ser discutida com seriedade.
A Península Ibérica constitui um dos maiores espaços agroflorestais da Europa, com cerca de 600 mil km² e mais de 50 milhões de hectares de uso agrícola e cerca de 30 milhões de hectares de floresta. Partilha ecossistemas mediterrânicos, recursos hídricos e cadeias agroalimentares profundamente interligadas. Enfrenta, de forma simultânea, desafios estruturais idênticos: seca, desertificação, incêndios rurais, escassez de mão de obra, envelhecimento dos agricultores, volatilidade dos mercados e exigências ambientais crescentes da Política Agrícola Comum.
Apesar desta realidade comum, a resposta política continua, em grande medida, fragmentada.
Importa reconhecer que a cooperação já existe. As Cimeiras Luso-Espanholas têm reforçado a coordenação política e foi criada uma Aliança para a Segurança Climática, centrada na adaptação às alterações climáticas e na gestão de recursos naturais. A Convenção de Albufeira estabelece o quadro jurídico para a gestão dos rios partilhados. Existem ainda mecanismos de cooperação na proteção civil e no combate aos incêndios.
No entanto, estas iniciativas permanecem setoriais. Falta uma visão integrada do setor primário que articule agricultura, floresta, água, investigação, inovação e desenvolvimento rural numa estratégia de longo prazo.
A Europa demonstra que esta ambição é não só possível como eficaz.
O Benelux (Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo) mostra como Estados soberanos podem reforçar a sua influência através da coordenação de políticas agrícolas, com prioridades comuns em segurança alimentar, inovação, digitalização e renovação geracional. Nos países nórdicos, a cooperação em ambiente, energia e investigação é estrutural, sem perda de identidade nacional. O caso mais relevante continua a ser o de França e Alemanha, cuja integração económica inicial no setor do carvão e do aço abriu caminho à construção da União Europeia.
A questão impõe-se: porque não poderá a agricultura desempenhar esse mesmo papel na Península Ibérica?
Num contexto de instabilidade geopolítica, negociações comerciais complexas, volatilidade dos mercados agrícolas e impactos crescentes das alterações climáticas, Portugal e Espanha partilham mais interesses do que divergências. É neste enquadramento que a agricultura pode tornar-se o verdadeiro laboratório da integração funcional ibérica. Não através de declarações políticas abstratas, mas de instrumentos concretos.
A primeira proposta é a criação deste conselho, reunindo governos, produtores, universidades, centros de investigação e indústria agroalimentar. Não se trata de uma nova burocracia, mas de um mecanismo de coordenação estratégica para posições comuns na Política Agrícola Comum, resposta a crises e promoção de inovação.
A segunda proposta visa ultrapassar a gestão fragmentada atual. A água deve ser tratada como recurso estratégico da Península, integrando armazenamento, reutilização, eficiência de regadio, digitalização, proteção de aquíferos e adaptação à seca.
A terceira proposta prevê um fundo financiado por instrumentos europeus e nacionais, orientado para agricultura de precisão, inteligência artificial, novas variedades resistentes à seca, bioeconomia florestal e valorização do carbono.
Nenhuma destas propostas exige alterações constitucionais nem compromete a soberania. Pelo contrário, reforça a capacidade de influência de ambos os países na definição das políticas europeias.
Mas existe um fator adicional frequentemente subestimado: a complementaridade agroclimática ibérica.
Portugal, sob forte influência atlântica, apresenta maior humidade, menor amplitude térmica e condições favoráveis a produtos de elevada qualidade organolética, como vinho, fruta, hortícolas e pecuária extensiva. Espanha, por sua vez, dispõe de maior escala produtiva, diversidade climática e capacidade de abastecimento em grande volume.
A lógica deixa de ser concorrencial e passa a ser complementar: Portugal como território de diferenciação e valor acrescentado; Espanha como potência de escala e produção massiva. Em conjunto, a Península pode oferecer à Europa uma combinação rara de volume e qualidade.
Esta complementaridade estende-se ao calendário agrícola. As diferenças climáticas permitem colheitas escalonadas, reduzindo riscos de mercado, estabilizando preços e garantindo maior regularidade no abastecimento europeu.
Acresce ainda uma dimensão estratégica decisiva: África.
Portugal e Espanha possuem redes históricas e geográficas distintas no continente africano. Portugal mantém relações estruturais com os PALOP, enquanto Espanha reforça a sua presença no Norte e Oeste de África. Uma estratégia ibérica permitiria articular estas duas dimensões numa plataforma conjunta de cooperação agroalimentar euro-africana, com impacto direto na segurança alimentar global.
A Comissão Europeia tem sublinhado que o futuro da agricultura dependerá da inovação, da resiliência climática e da cooperação entre Estados-Membros. A evolução da Política Agrícola Comum aponta no mesmo sentido: maior coordenação e respostas partilhadas.
Talvez seja tempo de abandonar a visão da fronteira como linha de separação e passar a vê-la como espaço de convergência.
A história europeia demonstra que as grandes transformações surgem quando Estados cooperam em torno de interesses concretos. O Benelux fê-lo para ganhar competitividade. Os países nórdicos para reforçar inovação. França e Alemanha para garantir paz e crescimento económico.
A Península Ibérica pode fazê-lo para garantir segurança alimentar, proteger recursos naturais, valorizar a complementaridade produtiva e liderar uma agricultura mediterrânica mais competitiva, sustentável e resiliente.
A verdadeira questão já não é se Portugal e Espanha devem cooperar mais. É se podem dar-se ao luxo de não o fazer.
Rui Alexandre Hipólito
Engenheiro Agrário | Ciência Política | Consultor em Estratégia para o Setor Primário
















































