A agropecuária cresceu 561% em redor de áreas protegidas da Amazónia brasileira nos últimos 41 anos, ocupando atualmente 31% da faixa de até cinco quilómetros desses territórios, segundo dados divulgados hoje pelo MapBiomas.
O avanço contrasta com a preservação dentro das áreas protegidas, onde 98% da vegetação nativa existente em 1985 se manteve até 2025, segundo o levantamento da organização não-governamental.
Para Bruno Ferreira, engenheiro florestal e pesquisador do Imazon e do MapBiomas, os números mostram a importância das áreas protegidas como barreiras à expansão do desmatamento, mas também evidenciam a pressão crescente sobre esses territórios.
“Logo nos cinco quilómetros imediatos das áreas protegidas, a agropecuária cresceu 561%. E dentro, a vegetação nativa manteve-se estável, 98%. São números totalmente contrastantes, que revelam a importância dessas áreas para o bioma”, afirmou à Lusa.
Segundo o investigador, o levantamento procurou analisar “dois pontos diferentes, da mesma moeda”: as estradas, como vetores de pressão, e as áreas protegidas, como instrumentos de conservação.
A Amazónia tem 618 mil quilómetros de estradas identificadas, segundo diferentes bases de dados, dos quais 41,5 mil quilómetros estão dentro de áreas protegidas.
Nas áreas situadas até cinco quilómetros das estradas, a agropecuária ocupa 40,2% do território, o equivalente a 63 milhões de hectares, enquanto a vegetação nativa representa 56,7% dessa faixa.
Ferreira alertou que a abertura de estradas pode ampliar o acesso a áreas atualmente preservadas, sobretudo pela formação de caminhos secundários a partir dos principais eixos rodoviários.
“Se não houver um olhar especial de sustentabilidade de um plano dessas estradas no curto prazo e também na governança a longo prazo, vamos acabar estabelecendo conexões de desmatamento e acesso a áreas que estão hoje muito preservadas”, disse.
Ferreira defendeu que a questão não passa por impedir a construção de estradas, mas equilibrar a necessidade de infraestrutura com medidas de sustentabilidade e governança capazes de evitar a expansão desordenada da ocupação.
O levantamento da ONG mostra ainda que a Amazónia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, enquanto a área de pastagem cresceu 556%.
A agropecuária ocupa atualmente 65,3 milhões de hectares no bioma, dos quais 50,8 milhões correspondem a pastagens e 8,6 milhões à agricultura.
Para Ferreira, a expansão da agropecuária também está relacionada a processos de ocupação e apropriação ilegal de terras, nos quais áreas são desmatadas e utilizadas, sobretudo, para a criação de gado.
O investigador destacou, contudo, que o ritmo recente de expansão da agropecuária tem diminuído, num cenário de redução do desmatamento associado a políticas de combate, controlo e fiscalização.
A mineração, por outro lado, segundo levantamento, apresentou forte expansão na última década, representando cerca de 40% de toda a área acumulada.
Ferreira explicou que a categoria de mineração utilizada no levantamento inclui diferentes tipos de atividade, mas que, na Amazónia, boa parte da expansão observada está relacionada com áreas de garimpo.
Segundo o engenheiro florestal, a expansão da mineração gera preocupações não apenas ambientais, mas também para as populações que vivem nos territórios afetados e dependem do acesso à água de qualidade.
O levantamento aponta ainda que, em 2025, a Amazónia registou 693 mil hectares de desmatamento, o menor valor da série histórica.
A pressão sobre as áreas protegidas permanece, contudo, como um dos principais alertas do levantamento, sobretudo diante de propostas de flexibilização das regras de utilização desses territórios.
Para o investigador, os dados demonstram que as áreas protegidas são essenciais para manter a vegetação nativa na Amazónia e que alterações nas regras de proteção podem comprometer esse papel.















































