Um novo Alqueva no Ribatejo é proposta da Lagoalva

Um novo Alqueva no Ribatejo é proposta da Lagoalva

[Fonte: O Ribatejo]

Retomamos aqui, a propósito do debate realizado na semana passada em Santarém, o projeto de Jorge Froes para a navegabilidade do rio Tejo e para a irrigação de uma vasta área agrícola de 300 mil hectares, abrangendo um terço da população nacional. O projeto foi encomendado pela empresa agrícola Lagoalva e prevê 4,5 mil milhões de euros de investimento. Depois de ter sido apresentado à comunicação social, o projeto foi mostrado aos partidos políticos na Assembleia da Republica, ao Presidente da República, à Protejo (associação que inicialmente se mostrou contrária, mas que, depois de ouvir os seus promotores, alterou a sua primeira opinião) e à EDP.

A seca que se vive em Portugal levou a empresa agrícola Lagoalva, de Alpiarça, a ter de recorrer, há já vários anos a bombagem direta de água do rio Tejo para regar as suas culturas. Os níveis dos seus furos subterrâneos próprios começaram as diminuir e a empresa virou-se para o Tejo, com os custos a isso inerentes, sobretudo a nível energético. Perante este cenário, os responsáveis da Lagoalva, Manuel Campilho e Miguel Campilho, questionaram se não seria viável estudar a possibilidade de expandir o seu projeto privado de irrigação direta com água do Tejo a toda a região do Vale do Tejo e também ao Oeste, que está também a braços com problemas de falta de água.
Para realizar este estudo convidaram Jorge Froes, da consultora Planos Essenciais, engenheiro agrónomo que esteve ligado aos projetos de irrigação agrícola na região do Alqueva. Jorge Froes recorreu à sua experiência neste grande projeto nacional, foi consultar estudos de entidades públicas e privadas, coletou dados da evolução dos caudais do Tejo e de outros afluentes, assim como de outros rios (Ocreza) que se relacionam com esta vasta região em torno do Vale do Tejo, e concluiu que é possível criar uma rede de aproveitamento hidráulico da água existente à superfície, com funções múltiplas (turísticas, agrícolas, ambientais), e que permita conjugar e retomar o antigo sonho da navegabilidade do Tejo, entre Lisboa e Abrantes, com um projeto de rega agrícola, drenagem do leito do rio, controlo de cheias e da salinidade da água do Tejo, de retoma da atividade da pesca e da aquacultura, de transporte fluvial ligeiro, levando ainda água à região do Oeste, associando ainda a isso a produção de energia renovável e garantindo reservas e capacidade de abastecimento de água para meio urbano e industrial. O projeto é “ambicioso”, como o classificou o secretário de Estado da Agricultura, e prevê um investimento de 4,5 mil milhões de euros, quase duas vezes o custo do Alqueva (cujo custo inicial foi de cerca 2,35 mil milhões de euros).

Seis açudes A grande proposta nova deste estudo é a construção de 6 açudes insufláveis entre Vila Franca e Abrantes, equipados com eclusas que permitam um controlo imediato de caudais e a navegabilidade para efeitos turísticos e para transporte fluvial de pequenas cargas. Estes açudes, semelhantes ao já existente em Abrantes, têm um custo estimado de 220 milhões de euros, mas podem ser feitos de forma faseada, criando um espelho de água contínuo até Belver (ver mais detalhes em texto ao lado). As localizações previstas são em Castanheira do Ribatejo, Valada, Santarém, Pombalinho, Almourol e Abrantes (a montante do atual açude). Numa primeira fase, a proposta de Jorge Froes é que se comece pela construção de um primeiro açude na zona de Valada, com um custo aproximado de 120 milhões de euros, e que permita não só o controlo da influência das marés salgadas na captação de água potável pela EPAL como permita criar uma albufeira de captura de água para rega agrícola em dois blocos (a norte e sul do açude) assim como para envio desta água através de sistemas elevatórios para a zona do Oeste, onde seria depois armazenada em grandes reservatórios e posteriormente distribuída por subsistemas próprios. Este açude poderia, na ótica de Jorge Froes, começar a ser construído dentro de três anos.

novas barragens Contudo o Projeto Tejo, como foi designado este estudo, vai mais longe e contempla a construção de barragens já definidas em planos hidrográficos nacionais, como são os casos das barragens de Alvito no rio Ocreza e da barragem de Ponsul, entre outras. Esta proposta mais alargada de construir barragens fora do Tejo é vista numa lógica de que pode ser possível fazer confluir alguma dessa água para a grande “conduta” do Tejo e dessa forma tornar o sistema mais sustentável a longo prazo. No entanto, e segundo o estudo, as barragens existentes no Tejo e afluentes da margem norte (ex: Zêzere) permitem já um armazenamento suficiente para que, caso seja negociado com a EDP, sejam «abertas» e alimentem este sistema de açudes.
Está ainda previsto que este sistema de armazenamento de água possa alimentar o sistema do Vale do Sorraia, igualmente a braços com problemas de quantidade de água. Neste rio seria construído também um açude rebatível na zona de Ponta da Erva que poderia ser ligado depois ao canal do Rio Frio e à mais vasta região da Península de Setúbal. O mesmo acontece na margem norte do rio, com o subsistema a criar no Oeste a poder ser ligado ao rio Liz, conectando entre si diversos sistemas de irrigação e fornecimento de água já existentes. O bloco central de irrigação agrícola seria no Vale do Tejo e no Oeste, abrangendo cerca de 300 mil hectares de terrenos, (260 mil no Vale do Tejo e 40 mil no Oeste) e podendo chegar a 30 mil agricultores, clientes potenciais deste sistema. Destes 300 mil hectares, cerca de 100 mil já estão em projetos de regadio coletivo, sobretudo com recurso a água subterrânea, o que poderia ser alterado, tornando estes furos como “reserva estratégica nacional” e a usar apenas em caso de seca extrema. Este território de 300 mil hectares consome, em anos secos, cerca de 1815 milhões de metros cúbicos de água, quando os sistemas de águas subterrâneas apenas respondem com 1250 milhões metros cúbicos e estão com tendência para decrescer e perder qualidade. Jorge Froes recorda-se de quando se faziam furos a 20 metros de profundidade e já existia água, enquanto agora os furos são feitos a quase 300 metros.

“Sem água no Tejo não há Ribatejo”

Manuel Campilho, da Quinta da Lagoavalva, explica que este impulso privado a um estudo desta natureza está relacionado com a “urgência” de encontrar soluções de futuro para o setor agrícola. “É um esforço visionário para sermos nós a comandarmos as circunstâncias e não o contrário”, afirmou. O empresário explicou ainda que esteve recentemente na Califórnia, nos EUA, e que lá também se discutem alternativas ao uso de água de furos subterrâneos. “As consequências da seca são devastadoras e temos que suscitar o debate sobre a água nesta região. Sem água no Tejo não há Ribatejo”, frisou Manuel Campilho. O seu irmão, Miguel Campilho, acrescentou que “este é um projeto de uma geração a pensar nas gerações futuras” e que permite também dar melhor resposta a questões ambientais como os recentes episódios de poluição. “Temos de transformar toda a água que temos em reserva estratégica. Onde houver água existe crescimento”, frisou ainda, afirmando que “o primeiro pontapé na bola está dado”, cabendo agora à decisão política criar uma comissão que pense o tema e faça uma análise mais fina da viabilidade deste projeto.
Da parte do Governo, o projeto chegou agora ao conhecimento do secretário de Estado da Agricultura, Luís Vieira, que esteve presente em Alpiarça. O governante classificou-o como “ambicioso”, “de longo prazo” mas como uma ideia “com valor e que exige a análise de outras áreas da governação”, como o ambiente ou ordenamento do território. Por outro lado, Luís Vieira acha que é preciso envolver mais agentes privados e públicos neste projeto e começar desde já a enquadrá-lo no planeamento do próximo quadro comunitário de apoio, após 2020. No entanto, o governante lembrou que vai haver uma redução dos orçamentos globais dos fundos de coesão e da PAC, dois dos pilares financeiros que poderiam ajudar a suportar os custos deste projeto. Questionado sobre a dimensão do investimento, Luís Vieira respondeu que “também o Alqueva foi considerado um «elefante branco» e foi muito criticado no início, mas hoje todos reconhecem a sua importância”.
Também estiveram presentes e mostraram-se agradados com o projeto os autarcas Pedro Ribeiro, presidente da Câmara de Almeirim e da CIM da Lezíria do Tejo, e Maria do Céu Albuquerque, presidente da Câmara de Abrantes e da CIM Médio Tejo. Mário Pereira, presidente da Câmara de Alpiarça, afirmou-se “surpreendido” pela dimensão do projeto embora o considera “exequível”, porque “lança um novo olhar sobre o Tejo”. Lá estiveram também nomes fortes do pensamento agrícola em Portugal como Francisco Avillez, o antigo secretário de Estado das Florestas Francisco Gomes da Silva ou ainda Carmona Rodrigues, um dos promotores do Congresso do Tejo onde se têm debatido muitos destes assuntos. O economista Augusto Mateus também foi convidado e, na sua perspetiva mais “ateia” sobre este assunto defendeu que “Lisboa, ao se afirmar como destino turístico mundial, precisa de garantir uma cintura de base ecológica que tem de ser a região do Vale do Tejo”. Augusto Mateus já tinha defendido no Congresso do Tejo que é inevitável ter que “artificializar o Tejo” através da construção de infraestruturas que o mantenham “vivo”.

Um novo Alqueva no Ribatejo?

O projeto clama ser uma proposta de combate à desertificação agrícola e também poder influenciar o tipo de usos futuros do solo. Isto porque, ao existir escassez de água, os proprietários agrícolas reconverteram os terrenos para uso florestal e plantaram, por exemplo, eucaliptos, árvores com necessidade de pouca água. A existência de regadio poderia, na opinião de Jorge Froes, modificar a utilização dos recursos endógenos e aumentar a produtividade agrícola do país e a competitividade dos produtos dentro e fora de portas. Por outro lado, está previsto que o custo médio da água gerada por este sistema do Tejo seja inferior ao custo da água no Alqueva, embora este o Projeto Tejo exija, à partida, um investimento inicial muito superior. Será sempre mais barata do que a água dos furos, garante o especialista, que frisa a necessidade de que este projeto seja pensado não apenas como um somar de infraestruturas mas como um “ecossistema”, que envolva investimentos privados e públicos e que podem chegar a um valor ainda superior na casa dos 10 mil milhões de euros, criando 18 mil empregos. O projeto não esquece a necessidade de investir em diques, valas de drenagem e marachas que protejam das cheias e “abram” de novo os caminhos para alimentar de águas algumas valas secundárias.

Navegar De Lisboa a Belver são 6 horas de barco

Um dos pontos mais atrativos do Projeto Tejo é a navegabilidade do rio. Segundo o estudo, será possível, através da rede de açudes, fazer navegar pequenas embarcações turísticas da zona do Montijo ou de Lisboa até Belver, a uma velocidade de aproximadamente 40 km/h, numa viagem de cerca de 150 km que poderia demorar cerca de 6 horas e ter paragem em pontos estratégicos desta zona do Vale do Tejo. Não é novo este objetivo de voltar a ter um Tejo navegável, agora o que é novo é esta ligação à necessidade económica do setor agrícola em ter água em quantidade e a melhores preços e também à questão ambiental que se discute em torno da escassez da água e dos seus usos mais racionais. Em torno das viagens no Tejo, há todo um conjunto de ofertas associadas que são elencadas neste estudo e que vão um pouco ao encontro do que já definido como prioritário para o turismo na região.

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