​Um mês depois do fogo. “Perdemos tudo e ainda acham que não estamos a falar a verdade”

​Um mês depois do fogo. “Perdemos tudo e ainda acham que não estamos a falar a verdade”

[Fonte: Rádio Renascença]

No concelho de Seia, no distrito da Guarda, 130 habitações, 76 delas de primeira habitação, foram atingidas pelo fogo de 15 de Outubro. Na freguesia de Vide, em Malhada das Cilhas, encontrámos Cacilda Brito, 83 anos. Teve o fogo à porta de casa, obrigou-a a sair para Loriga. Lembra-se de um casal, que voltou para trás para ir buscar roupa para dois filhos menores. Nunca chegaram a porto seguro: morreram na estrada apanhados pelo fogo.

Cacilda refere-se a António Bailão, 47 anos, e Raquel Bicho, 32 anos, que viviam na aldeia do Cide, em Vide. Naquele domingo foram surpreendidos pelo fogo, que avançou rápido demais. Saíram de casa e já estavam em segurança na Barriosa, juntamente com os dois filhos menores, um menino de dois anos e uma menina de nove. Mas voltaram para trás.

É na estrada que liga a Cide, pequena povoação com cerca de 50 pessoas, que encontramos Armando Bailão, 50 anos, irmão e cunhado do casal que perdeu a vida na estrada. Um mês depois, Armando e a esposa Maria da Conceição, 58 anos, depositam flores e colocam uma vela eléctrica nos locais da tragédia.

“Estamos a colocar uma cruz e umas flores para identificar… Aqui ficou o meu irmão, tentou fugir, mas não conseguiu, talvez tenha rebentado um pneu. E ali a minha cunhada, dentro da carrinha. Revolto-me com isto e não sei o que pode acontecer”, desabafa. “Os meus sobrinhos só chamam pela mãe e pelo pai. Perdemos tudo, parece que não temos nada em casa.”

“Valia mais terem ardido as casas e eles que escapassem. A casa torna-se a construir, mas a vida de uma pessoa não dá para voltar atrás”, conclui Maria da Conceição.

Gouveia. Viver num contentor

A meia centena de quilómetros, encontramos uma casa destruída em Vinhó, Gouveia, no distrito de Guarda. Um casal de pastores perdeu a moradia e o abrigo dos animais.

No concelho de Gouveia, 16 casas de primeira habitação foram completamente destruídas pelo fogo. Um mês depois, apesar de já terem sido realojados, o pastor Abel Pimenta recusa abandonar a quinta onde sempre viveu. Vive num contentor frente à casa.

“Durmo aqui e como aqui porque vivi aqui a minha vida e o que está aqui fui eu que fiz com um empréstimo que me custou muito a pagar. Com ou sem ajuda, pretendo reconstruir isto. Eles falam, mas ainda não vi nada de concreto”, critica Abel Pimenta, 54 anos.

A mulher e a filha vivem numa casa emprestada pelo presidente da Junta de Vinhó. “Mas não é nossa, queremos a nossa casa de volta”, afirma a esposa do pastor, Fernanda Pimenta, de 53 anos. “Se vir que nos desprezam, como noutros casos que já vimos, fecho a porteira e vou para a Suíça”, anuncia Abel.

Já comunicaram ao Ministério da Agricultura os prejuízos que tiveram, mas “há quem duvide. É ver para crer. Veja o chão estalado, já caiu o telhado, era isto que gostava que vissem de perto e quem cá vem não analisa de perto”, diz.

Ali à frente havia um pinhal, “onde tinha 400 pinheiros”. Também havia um barracão de trabalho, garante. Os serviços locais do Ministério da Agricultura duvidaram: dizem que ali só deveria haver uns 40 pinheiros e um telheiro em vez do barracão. “Perdemos tudo e ainda acham que não estamos a falar a verdade. Já estou um pouco com a idade avançada para levantar a cabeça, mas, se Deus me ajudar, quero ver se ainda consigo.”

Tondela. Empresas “de primeira” e “de segunda”

Os prejuízos causados pelo incêndio do 15 de Outubro no concelho de Tondela, no distrito de Viseu, rondarão os 30 milhões de euros, 150 casas de primeira habitação consumidas pelas chamas e 40 empresas destruídas.

Vítor Mota, 56 anos, não consegue esquecer aquele som “tão grave, ensurdecedor”, o som de quando “estremece tudo”. A recordação perturba-o. Perdeu quase tudo de uma grande empresa exportadora de madeira para Espanha. “Tenho 500 mil euros de prejuízo neste parque, mas em toda a empresa são aproximadamente 900 mil euros. São cerca de 30 camiões que estão reduzidos a meia-dúzia.”

As plataformas em Tondela e Mortágua e mais de 10 mil toneladas de madeira ficaram transformadas em cinza. Vítor Mota não entende os papéis que lhe mostram que está fora dos apoios anunciados. “Saiu o regulamento dos programas de apoio e chego à conclusão que a nossa empresa, por ser de exploração florestal, não está contemplada em nenhum destes programas. Pergunto porquê. Perante as mesmas dificuldades, há empresas que podem aceder aos apoios e outras não. Então, há empresas de primeira e outras de segunda”, contesta.

O empresário de Tondela continua sem ver luz ao fundo do túnel. “Tenho muitas dúvidas. Vejo a situação muito complicada e não vejo soluções adequadas aos nossos problemas. Estou muito desiludido: houve muita solidariedade verbal, resultados práticos zero”, critica.

Oliveira do Hospital. A solidariedade dos pastores

Em Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, os incêndios mataram 12 pessoas. Outros números: 180 casas de primeira habitação consumidas pelas chamas; 95 empresas afectadas; um prejuízo total a rondar os 90 milhões de euros; 480 postos de trabalho afectados; 97% de área florestal ardida; 5 mil animais mortos.

A Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela tem 400 pastores que beneficiam de apoio, graças à ajuda vinda de todo o país, destaca o presidente da ANCOSE, Manuel Marques.

“Devemos muito a Coruche, a Vila do Conde, a Grândola, a Soure, a Sabugal, a todas as partes do país e às fábricas de rações que nos fizeram preços reduzidos. Há pessoas a querer doar e que duvidam se chegam ao destinatário. Aqui fica tudo registado”, esclarece o responsável.

A produção de queijo da Serra da Estrela deverá cair para metade este ano. “Alguém que queira comprar ovelhas bordaleiras neste momento não consegue fazê-lo”, lamenta Manuel Marques.

João Lameiras, 49 anos, tem dois filhos, vive em Vila Franca da Beira, onde ardeu a casa e a queijaria. A realidade de uma vida é agora um sonho: João quer voltar a produzir queijo da Serra da Estrela.

“Ardeu tudo, o material da queijaria, a parte agrícola, agora estamos parados, não temos onde fabricar, vai ser difícil, mas o meu sonho era reconstruir a queijaria até ao final do ano”, sorri, com as lágrimas nos olhos.

Apesar de todas as dificuldades, João não culpa ninguém, só agradece. “Tanto a nível de câmara como da ANCOSE e do país, as pessoas têm sido espectaculares a ajudar, é espectacular o que têm feito, é uma forma de passar melhor o tempo e não pensar tanto no que aconteceu”, revela, enquanto carrega mais um saco de ração que dará para pouco tempo. Tem 130 ovelhas bordaleiras, não perdeu nenhuma nos fogos de Outubro. “Salvei os animais, mas não consegui salvar a casa. Ou salvava uma coisa ou outra.”

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