Nicholas Vital: “A população, cada vez mais urbana, desconhece os métodos modernos de produção de alimentos”.

Nicholas Vital: “A população, cada vez mais urbana, desconhece os métodos modernos de produção de alimentos”.

[Fonte: Anipla - fitoentrevista]

O jornalista brasileiro Nicholas Vital desfaz mitos sobre o uso de fitofarmacêuticos e defende que há hoje um debate desigual sobre o recurso a estes produtos, essenciais para proteger as plantas e garantir a produção de alimentos. Por isso, decidiu escrever um livro, baseado em dados oficiais, para desmistificar o uso de produtos fitofarmacêuticos. Em entrevista, assegura que “espalhar o medo” tem sido a estratégia usada por alguns profissionais de agricultura biológica para conquistar mercado.

Nicholas Vital colaborou com algumas das maiores revistas de economia e negócios do Brasil, como a revista “Exame” e a “Isto É Dinheiro”. Venceu, em 2012, o Prémio “Abril” de Jornalismo, na categoria Economia, e ficou entre os finalistas na mesma categoria em 2011.

1. Por que é que decidiu escrever este livro?

Existe hoje um debate muito desequilibrado entre alimentos biológicos e convencionais, especialmente quanto ao uso de fitofarmacêuticos nos alimentos. Para se ter uma ideia, no Brasil estes produtos são chamados oficialmente de “agrotóxicos”, portanto, são muito mal vistos pela sociedade. Em qualquer discussão, nunca veremos ninguém a defender esses produtos. Muitos, inclusive, defendem a proibição dos fitofarmacêuticos. Por outro lado, como jornalista especializado em agronegócios, já visitei mais de uma centena de fazendas em todo o Brasil e pude constatar a importância desses produtos para a produção agrícola. Também já fui a muitas fazendas de produção biológica e reconheço a importância do trabalho desses agricultores, mas trata-se de um segmento que representa menos de 1% da produção agrícola no mundo. Infelizmente, não é possível alimentar uma população de 7 mil milhões de pessoas — e que em 2050 será de 9 mil milhões — somente com alimentos biológicos. Apesar do título polémico, o livro é muito equilibrado e trata também das questões relacionadas com o uso incorreto desses produtos, o que, infelizmente, ainda acontece muito no Brasil.

2. Durante a investigação que fez, qual foi a descoberta que mais o surpreendeu?

Sem dúvida, a quantidade de mitos em torno dos biológicos. A ciência mostra que os alimentos biológicos não são mais nutritivos, mais gostosos, nem mais sustentáveis do que os seus similares produzidos de forma convencional. Se isso fosse mesmo verdade, os produtores biológicos certamente destacariam esses diferenciais nutricionais nos rótulos. Por que não colocam? Simplesmente porque não conseguem comprovar cientificamente esta suposta superioridade. Investigadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, divulgaram recentemente uma revisão detalhada de 237 estudos científicos comparativos entre alimentos biológicos e convencionais publicados em todo o mundo nas últimas quatro décadas. A conclusão foi que, apesar de mais caros, os biológicos não eram mais nutritivos nem mais seguros do que seus similares convencionais. No Brasil temos outros estudos parecidos. Em 2016, o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), entidade vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, fez uma revisão de milhares de trabalhos científicos comparativos publicados em todo o mundo desde os anos 1950. O resultado? Mais uma vez os produtos biológicos e os convencionais foram considerados tecnicamente iguais. Os investigadores afirmam que é difícil diferenciar as características desses alimentos mesmo em laboratório. Portanto, da próxima vez que alguém lhe sugerir que há diferença no sabor da salada biológica, desconfie. Outro mito é o de que os biológicos seriam mais sustentáveis. Por serem cultivados de forma rudimentar, sem a adoção de tecnologias seguras utilizadas em todo o mundo, os alimentos biológicos têm uma produtividade média 30% menor, ou seja, exigem mais áreas para produzir a mesma quantidade de alimentos. Graças à adoção de tecnologias — entre elas os agroquímicos —, o Brasil elevou seus índices de produtividade e se tornou uma potência agropecuária. Para se ter uma ideia, a produtividade média do feijão aumentou 274% desde 1980, a soja 176% e o trigo 257%. No caso do milho, a colheita quase quintuplicou: de 21 milhões de toneladas em 1980 para 96 milhões de toneladas hoje, enquanto a área de cultivo aumentou só 40%. Se tivéssemos que chegar à produção atual de milho com o plantio natural e orgânico do tempo dos nossos avós, seria necessário ocupar mais 38,1 milhões de hectares de terras além dos 17 milhões atuais. Ou seja: só o aumento da produtividade do milho evitou a ocupação de uma área maior que os territórios de Roraima e do Acre. Isso sem contar as outras grandes culturas, como a soja, o algodão, a cana-de-açúcar, o café…

3. Na sua opinião quais são os maiores mitos que os consumidores têm sobre o que é hoje a agricultura?

As pessoas ainda têm uma ideia de que os agricultores são latifundiários malvados e que visam exclusivamente o lucro a qualquer custo, sem se importar com o meio ambiente. Também criticam a monocultura, mas não sabem que a soja é a base da alimentação do frango, e que justamente por isso o frango é a proteína mais barata hoje no Brasil. O “rei do gado” retratado nas novelas também já não existe mais. O produtor que não se modernizou, que não investiu em tecnologia e em boas práticas, ficou para trás, saiu do negócio. Outro problema é que muita gente confunde agricultura familiar com produção biológica e uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não é porque o produtor é familiar que ele não vai usar pesticidas para proteger a sua lavoura. O produtor rural no Brasil é, em geral, mal-visto e pouco valorizado pela sociedade.

4. Há ainda muito desconhecimento sobre todo o processo de produção de alimentos?

Muito. A população, cada vez mais urbana, desconhece os métodos modernos de produção de alimentos. Tem uma visão romântica da agricultura, acha que dá para ser como antigamente. Infelizmente, não dá mais. Além da população atual ser infinitamente maior, ainda existem pressões ambientais que impedem o aumento da área de produção. O agronegócio de hoje é uma atividade muito moderna e eficiente. Por exemplo: o produtor não usa agrotóxicos porque gosta, porque quer intoxicar as pessoas. O sonho de todo produtor é não precisar usar pesticidas e assim economizar até 30% do custo de produção. Mas a verdade é que ele precisa de usar, porque existem muitas pragas e doenças na lavoura, especialmente no Brasil, onde se faz uma agricultura tropical. Aqui temos a vantagem do clima ameno e chuvas o ano todo, que permite plantar até 3 safras por ano. O lado ruim é que as pragas também têm comida à disposição 365 dias no ano. Isso exige um combate contínuo, que culmina num uso maior. Mas a população urbana não consegue entender isso.

5. A agricultura biológica está sobrevalorizada?

Com certeza. Trata-se de um segmento que representa menos de 1% das vendas no Brasil, e tem como público alvo as camadas mais ricas da população, gente que não se importa de pagar o triplo do preço por um produto equivalente. O que existe, na verdade, é um marketing do medo promovido pelos que têm interesses nos produtos biológicos. Pense: os produtos biológicos não seriam tão valorizados se não existisse um grande vilão chamado agrotóxico. Então, ao invés de destacar os seus próprios benefícios — que como já falamos anteriormente, não existem — os defensores dos biológicos têm como estratégia atacar os convencionais, lançando um clima de medo sobre as pessoas. O que ninguém diz é que a agricultura biológica também utiliza produtos tóxicos, como enxofre, o sulfato de cobre, o óleo de neem [inseticida natural], para combater as pragas. O fato de serem substâncias naturais, não as faz menos perigosas. Se ingerir uma calda de enxofre, permitida na agricultura biológica, também vai ter uma intoxicação. Todos os riscos em torno do consumo de biológicos são ignorados. Em 2011, na Alemanha, pelo menos 35 pessoas morreram e mais de 3000 mil foram internadas por causa de uma intoxicação alimentar pela bactéria E.coli em brotos de feijão biológicos. Se tivessem sido tratados quimicamente, esses produtos não teriam causado nenhum problema. Os agrotóxicos, se utilizados de forma correta, são totalmente seguros. Prova disso é que não existe, na história, nenhum caso de morte por consumo de resíduos de pesticidas em alimentos.

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