E se Marine Le Pen ganhar? – Lopo de Carvalho

E se Marine Le Pen ganhar? – Lopo de Carvalho

No passado dia 23 de abril, os Franceses decidiram levar a uma segunda volta de eleições presidenciais dois candidatos muito distintos. No próximo dia 7 de maio, Marine Le Pen e Emmanuel Macron irão encontrar-se para nova disputa eleitoral, mediante a qual será eleito o futuro Presidente de França.

Os dois finalistas distinguem-se por inúmeros fatores, entre os quais os programas – radicalmente díspares – definidos para a agricultura francesa. Através da Política Agrícola Europeia, este colosso da agricultura mundial irá beneficiar em sessenta e três mil milhões de euros durante o período de 2014-2020, sendo que esta circunstância deverá ter peso na opção feita pelos eleitores gauleses.

Efetivamente, sendo França um país tremendamente competitivo neste sector, designadamente em áreas como a produção de vinho, leite, gado, cereais, e outros, o seu meio milhão de explorações agrícolas, assim como os cerca de um milhão de trabalhadores diretamente envolvidos na agricultura, têm com certeza uma palavra a dizer já na próxima volta.

Segundo as estatísticas (Terre-net BVA), François Fillon seria o natural presidente dos agricultores franceses, com mais de 40% dos votos. Já Le Pen e Macron teriam 20% e 14.5% dos votos, respetivamente. A proximidade aos agricultores franceses não foi contudo suficiente para que Fillon seguisse na corrida, pelo que restam agora dois candidatos com visões antagónicas para a produção agrícola francesa.

Em Marine Le Pen, os Franceses encontram uma política agrícola de cariz patriótico, apoio maioritário ao modelo de exploração agrícola familiar, preços mínimos garantidos pelo Estado, i.e. paga o bolso do cidadão francês, um modelo de comércio internacional totalmente diferente do que vigora na União Europeia no momento presente. Este programa leva-me a perguntar o que pensarão os produtores de vinho francês, muitos dos quais têm nos mercados internacionais a fonte da principal receita.

Já Emmanuel Macron, não tendo no seu eleitorado tipo o mundo rural, tem revelado propostas bastante interessantes. Em discurso ao maior sindicato agrícola francês, a FNSEA, que vê agora neste candidato a única solução para os agricultores franceses, o candidato apresentou a sua visão para uma agricultura francesa, europeia, moderna e competitiva num cenário global.

Com uma visão da agricultura francesa enquanto panorama múltiplo, Emmanuel Macron adiantou já que perante a dificuldade de negociação dos agricultores face às grandes cadeias de distribuição, é seu objetivo dinamizar o sector associativo e a organização da produção. Reconhecendo que o mundo agrícola depende muito dos mercados internacionais, este candidato “independente” pretende pressionar as instituições europeias para diminuir as burocracias e processos administrativos, agilizando os mesmos.

Na verdade, este candidato tem uma visão da agricultura que gera controvérsia no sector. Terá dito por diferentes vezes que, até 2025, quer banir a produção de ovos em gaiolas, e que a utilização de pesticidas deverá desaparecer. No entanto, agora que este modelo ambientalista está cada vez mais em voga, Macron não lutará contra corrente da opinião pública. A própria Politica Agrícola Comum tem tomado este rumo.

Uma vez que o atual ministro da agricultura francês, da família socialista, foi elogiado pelo próprio candidato, eu não esperaria grandes mudanças nas políticas até aqui seguidas. Exigir-se-á apenas que a agricultura seja uma pasta com o peso político que merece, o que tradicionalmente em governos socialistas se torna mais difícil de verificar.

Sabendo que, no primeiro sufrágio presidencial deste ano, apenas um milhão de votos separou estes dois candidatos à presidência francesa, e que mais de 40% dos eleitores escolheram candidatos que se afirmam contra o projeto europeu, parece-me que ainda nada está decidido.

Esperemos pois por dia 7 de maio para ver que rumo toma a nossa Europa, sabendo que certamente nada ficará igual. Afinal, os eleitores que se manifestam contra o estado atual da União Europeia quererão certamente que a sua voz se faça ouvir.

Lopo de Carvalho

Engenheiro Agrónomo

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