Fito-entrevista a Eduardo Oliveira e Sousa, Presidente da CAP

Fito-entrevista a Eduardo Oliveira e Sousa, Presidente da CAP

[Fonte: Anipla - fitoentrevista]

A Fito-entrevista desta semana apresenta a perspectiva do Presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, Eduardo Oliveira e Sousa, para os desafios da agricultura. Engenheiro agrónomo de formação é empresário agrícola e florestal na região do Ribatejo.

Na sua perspetiva, qual a importância que a agricultura tem no contexto europeu?

A Agricultura sempre foi uma atividade basilar desde que o Homem se sedentarizou. Na Europa, as convulsões sociais e políticas ao longo da História, e em concreto a seguir à II Grande Guerra Mundial, levaram os europeus a viver períodos de grande carência. Da devastação provocada por este conflito surgiu a necessidade de apoiar as pessoas a fazer Agricultura de forma mais profissional, tendo sido neste contexto que nasceu a Política Agrícola Comum (PAC). Com a ajuda da PAC a Europa passou a ser auto-suficiente e a população, passou a dispor de alimentos a um preço compatível com o reduzido poder de compra que caracterizava a Sociedade europeia nesse período. É este o motivo do grande sucesso da PAC. Indiretamente, através dos agricultores, os consumidores europeus foram recebendo apoios da UE que lhes permitiam comprar alimentos a preço mais acessível, libertando parte do orçamento familiar para outras atividades (comprar casa, carro, férias, etc). Por outro lado, existem na Europa cerca de 22 milhões de pessoas que dependem directa ou indirectamente da agricultura, como actividade económica, com enorme impacto na gestão e ocupação do território, combate à desertificação, abandono, etc. São dados da UE e respeitam aos 28 Estados-Membros. Não menos importante ainda é a função da Agricultura na manutenção do equilíbrio ambiental, mantendo o meio rural vivo e habitado, induzindo um vasto conjunto de externalidades secundárias positivas que beneficiam a Sociedade no seu todo, como a fixação de carbono, gestão da água, ordenamento do território, entre outras.

A PAC continua a ser tão necessária hoje em dia como foi na década de 50?

Não é comparável. A PAC de hoje não visa socorrer uma população que está a passar fome, mas sim contribuir para que a alimentação tenha um preço equilibrado no orçamento das famílias, e assegurar um certo equilíbrio nas relações internacionais, diminuindo a dependência das importações. Na ausência da PAC, os europeus, em particular nos países menos ricos (na Europa, felizmente, não há países pobres) teriam mais dificuldade em manter o elevado nível de vida atual, pois algum aumento dos preços dos alimentos surgiria, diminuindo a parte disponível do orçamento das famílias. Além disso, muitos agricultores abandonariam a atividade, com tudo o que de negativo isso implicaria, pois ao deixarem os campos e dirigindo-se às metrópoles, iriam concorrer por espaço e por oportunidades de vida no meio urbano, dificultando ainda mais o já congestionado modo de vida das grandes cidades. A PAC tem todo o cabimento hoje, tal como há 60 anos.

A população urbana está ciente da importância da agricultura?

Creio que o tema Agricultura é abordado muito ligeiramente. A CAP vem desenvolvendo alguns projetos com as escolas, desde o 1º ciclo ao ensino secundário e até ao superior, para aumentar o conhecimento das crianças e dos jovens sobre a Agricultura. Há muito a fazer para aproximar o mundo urbano do mundo rural. Infelizmente esse “fosso” tem tendência em se agravar, e aqui uma consciencialização e envolvência interessada da comunicação social pode ter uma enorme influência e impacto nos resultados.

Quais os maiores mitos existentes, por parte do consumidor, sobre a agricultura moderna?

Há muitos mitos, por exemplo que a agricultura gasta a água e polui o ar, inclusive através do metano libertado pelos dejetos e respiração das vacas. Ou que os alimentos estão todos contaminados com pesticidas e que apenas a Agricultura Biológica é segura. Ora a água não se gasta, e a agricultura apenas está inserida no seu circuito, e o balanço do carbono, se incluirmos as florestas e as modernas técnicas agrícolas, é positivo, sendo a agricultura a “encaixar” e fixar muito do CO2 produzido em ambiente urbano. Os pesticidas hoje são muito mais avançados e menos agressivos, e as regras ambientais impõem limites muito aquém do que se praticava há poucos anos atrás, salvaguardando a qualidade dos alimentos e a segurança das pessoas. Depois há mitos sobre o que faz bem e o que faz mal à saúde. Épocas houve em que o azeite era indicado como uma gordura má e o óleo era bom, e afinal é o contrário. Também há o mito de que comer carne ou beber leite é prejudicial à saúde, quando cientificamente o que está provado é exactamente o oposto, e o que é de facto saudável é termos uma alimentação variada, de que a “Dieta Mediterrânica” é expoente máximo, reconhecida e classificada como Património da Humanidade.

São mitos que resultam de informação insuficiente, ou demagogicamente deturpada, e que, num país pequeno como Portugal, podem levar facilmente a perturbações do mercado agroalimentar. É preciso que a comunicação social acompanhe o conhecimento, e essa é a parte difícil, porque a Sociedade é muito vulnerável a notícias demagogas, muito aproveitadas com propósitos comerciais, o que é lamentável, diria mesmo, indigno.

Que medidas devem ser tomadas pelo setor agrícola para aproximar o consumidor da agricultura moderna?

O setor agrícola hoje comunica melhor do que no passado, mas ainda assim muitas vezes não encontra recetividade à mensagem na opinião pública. Ou a mensagem não está a ser bem trabalhada, ou, por razões que desconheço, a outra parte não quer receber a parte positiva da mensagem. Não basta haver um esforço de informar, é preciso haver vontade de querer ser informado. Os agricultores fazem Agricultura porque ela é vital para a sobrevivência do Mundo. Há que persistir na comunicação, ser objetivo e incutir mais conhecimento nas respostas.

Quais são, na sua visão, os desafios do setor agrícola nas próximas décadas?

Há vários fatores a ponderar. O desenvolvimento demográfico e a subida do poder de compra dos povos a Oriente incentivam um enorme fluxo dos produtos agrícolas do Ocidente para aquelas regiões. Nós que estamos a meio caminho, temos de perceber se isso é bom ou mau para a Europa, pois pode voltar a ser necessário aumentar a produção para dependermos menos dos produtos que são produzidos na América. Por outro lado, os fluxos migratórios de África e do Médio Oriente para Europa, que têm por detrás guerras, estão também associadas a uma explosão demográfica em África que se vai transformar num enorme desafio para a Europa nos próximos anos. É um enigma para os europeus no futuro próximo. Por outro lado, estamos a sofrer já as consequências das alterações climáticas, e por tudo isso a Agricultura e o seu relacionamento com a Sociedade tem pela frente um futuro recheado de incertezas, que podem trazer alterações de diversa ordem que não sei vislumbrar neste momento. No entanto, as tendências são a intensificação das trocas comerciais, a fixação de algumas culturas agrícolas mais adaptadas à nossa situação geográfica, e grandes desafios no acesso à água para regadio no Sul da Europa. São alterações exógenas que dificultam o traçar de um cenário objetivo a médio e longo prazo.

O regadio é crucial para a competitividade da agricultura portuguesa. A UE deve fazer mais para apoiá-lo?

Há nitidamente uma Europa do Norte, que não tem problemas de quantidade de água, e uma Europa do Sul, que tem claramente um problema de falta de água. Se até agora esta questão era minimizada pela construção de algumas barragens, as alterações climáticas estão a dificultar a resolução do problema da irregularidade da ocorrência de chuvas, e também da diminuição da média da pluviometria. Chove menos e de forma mais concentrada, pelo que a importância de haver local e capacidade para a armazenar se veio intensificar e de forma urgente. Só assim criaremos mais reservas da água. Ora, o regadio é a forma de manter uma atividade agrícola empresarial no Sul da Europa, a não ser assim teria que ser equacionada uma nova forma de ocupação do território, financiada por recursos vindos de fora da agricultura. Tenho dúvidas que a Sociedade esteja preparada para encetar esse tipo de discussão. Não vejo que os contribuintes europeus queiram pagar aos agricultores para manterem as terras no mundo rural em bom estado sem uma contrapartida. Nem os agricultores o aceitariam. Há que continuar a estudar as soluções para fomentar a agricultura de regadio com resultados económicos que permitam às pessoas viver desta atividade, e isso significa investir em mais reservatórios estratégicos de água, com fins múltiplos, como bem demonstra o caso de Alqueva.

O orçamento da PAC é suficiente para dar o apoio necessário ao regadio no Sul da Europa?

É necessário reforçar o investimento no regadio e na criação de mais reservas de água. O Alqueva é o exemplo mais paradigmático e está a demonstrar o resultado positivo que trouxe ao país. É um modelo que teremos que seguir noutras regiões, obviamente com outras dimensões, e modernizando infraestruturas que já existem, como seja o complexo do Cachão em Trás-os-Montes. Até o Oeste começa a ter necessidade de olhar para o regadio de forma diferente, pois precisa de infraestruturas de abastecimento de água para rega que assegurem a sustentabilidade das culturas agrícolas que ali se fazem de forma muito profissional, e com compromissos comerciais assumidos perante clientes portugueses e estrangeiros. E o mesmo se passa na bacia do Tejo, onde o acesso à água e a sua gestão está pouco estruturada. O Vale do Tejo, que é a maior zona de regadio do país, não tem nenhuma obra de rega associada, os agricultores dependem da água que corre, e por isso estão sujeitos à disponibilidade do caudal do rio, que é condicionado pelo uso da água para produção de energia elétrica a montante. O acesso à água é um problema complicado, há quase um ano que não chove…

A retirada de substâncias ativas de produtos fitofarmacêuticos em Portugal e na UE preocupa a CAP?

Hoje em dia não é possível fazer agricultura sem ter algum tipo de controlo sobre as pragas e doenças, porque de outro modo o agricultor arrisca-se a perder grande parte das culturas e pode mesmo ficar arruinado. A reavaliação de substâncias ativas de produtos fitofarmacêuticos e a sua substituição por outras mais evoluídas resulta da permanente evolução com base na ciência e no conhecimento. É um caminho natural e é bom que assim seja. Muitas vezes o que acontece é que a falta de objetividade com que algumas notícias são veiculadas transformam os produtos em grandes alvos a abater, e de um momento para o outro quer-se proibir determinado produto sem que haja uma alternativa ou um substituto. Por exemplo, o gramoxone só saiu do mercado quando surgiu o glifosato como alternativa. Já para o glifosato não parece haver, por enquanto, um substituto com a mesma eficácia. Não podemos pensar que é possível continuar a alimentar o mundo sem o uso de produtos químicos, isso é certo.

A eventual retirada do glifosato do mercado europeu, que impacto teria na agricultura nacional?

Dou-lhe o exemplo das medidas agroambientais, um agricultor que tenha aderido à sementeira direta ou à mobilização mínima não consegue fazer a sementeira se não puder aplicar o glifosato para controlar as infestantes que ficaram da cultura anterior. O glifosato é um herbicida com toxicidade residual e que atua de forma muito abrangente nas infestantes que se pretenda controlar. Ao invés de usar dois ou três produtos, apenas com o glifosato resolve-se o problema. É essa característica que faz deste produto um fenómeno de sucesso. Ironizando, os agricultores não estão apaixonados pelo glifosato, no dia em que surja um substituto com o mesmo alcance, e com o mesmo nível de competitividade económica, nesse dia o glifosato pode ser banido. Até lá, e não havendo suficiente prova científica que o justifique, e não há, pelo contrário, a sua proibição será apenas uma cedência à demagogia.

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