Adeus (publi)cidade, agora o Carlos é agricultor na aldeia

[Fonte: Público]

Macau desata a correr sem se desviar dos pequenos arbustos que dividem o caminho. Nem os vê: está concentrado em chegar até ao dono, Carlos Vaz Ferreira. O agricultor de 28 anos, por sua vez, contorce-se de cada vez que o seu animal de companhia decide ir contra os mirtilos. Afinal, aquela exploração agrícola de quatro hectares em Gestaçô, Baião, não é (só) o parque recreativo do cão que adoptou: é o emprego que Carlos plantou na aldeia onde nasceu, depois de decidir deixar a cidade.

O plano inicial era arrancar as raízes por mais tempo. Depois de terminar o secundário no concelho vizinho, em Resende, Carlos partiu para Coimbra. Mas Informática e Gestão não era o curso superior certo para ele e daí subiu para Viseu. Terminou a licenciatura em Publicidade e Relações Públicas, no instituto politécnico, e continuou a subir no mapa, desta vez para o litoral. No Porto, fez um estágio curricular de cinco meses, no canal180. “Adorei a experiência e a cidade, queria muito ficar.” Mas, no ano definido pela palavra “entroikado” (que veio suceder a outra igualmente vazia de esperança, “austeridade”), a vontade de Carlos Vaz Ferreira entrou em confronto com a realidade do país. “Estávamos em 2012 e o mercado de trabalho estava muito complicado. No final do estágio, não me contrataram.”

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Mirtilos Unsplash

Sem emprego, decidiu voltar a Gestaçô e à casa dos pais, enquanto decidia o que fazer a seguir. “Durante três meses fui frenético a enviar currículos; fui a algumas entrevistas de propostas na minha área”, conta. As portas estavam todas fechadas.“E foi no meio de tudo isso que descobri os mirtilos.”

A única coisa que sabia era que “os mirtilos são um fruto”, ri-se. Só lhes conhecia o nome inglês (blueberry), não sabia que as bagas cresciam num arbusto de porte pequeno e muito menos imaginava como se poderia plantar, com sucesso, esse arbusto.

Ainda assim, parecia-lhe “haver finalmente uma porta aberta”. Pesquisou na internet, falou com os pais — a mãe trabalha para o Ministério da Agricultura e introduziu-o aos apoios disponíveis para jovens agricultores, entre os 18 e os 40 anos —, inscreveu-se em formações e começou a ponderar a ideia de ser agricultor e empresário agrícola. A ideia ganhou terreno quando se candidatou aos prémios de instalação de jovens agricultores do PRODER — Programa de Desenvolvimento Rural (2007-2013). Enquanto Carlos se licenciava, entre 2010 e 2012, nos três anos em que a falta de emprego mais se fez sentir, instalaram-se mais jovens agricultores do que nos dez anos anteriores. “Se me derem a oportunidade de investir dinheiro que não é meu e de criar o meu próprio emprego, bem como empregos sazonais para pessoas da minha aldeia, então porque não aproveitar?”

Quando soube que o projecto para instalar uma exploração agrícola em Baião tinha sido aceite, no final de Abril de 2013, “foi quase um dia de festa”. “O processo é muito burocrático no início”, diz, “houve alguns atrasos nos reembolsos”, mas Carlos considera que, “no geral, tudo correu conforme planeado”. O investimento total, privado e público, “foi superior aos 120.000 euros” (a média dos apoios de fundos comunitários do PRODER foi de 125.000 euros por projecto). “Tinha uma porta aberta para fazer algo do meu futuro. E quando percebes isso, tens de agarrar a oportunidade.”

Sem conhecimentos suficientes na área da agricultura, contratou uma empresa para fazer todo o trabalho inicial no terreno, desde a compra das plantas à instalação do sistema de rega. Mas tem a certeza: “Se soubesse o que sei hoje, faria o meu projecto de forma totalmente diferente.” Na altura, em Portugal, o “mirtilo era um fruto novo num mercado em ascensão”. Cinco anos depois, ainda “é um desafio muito estimulante” tentar “dominar as 12.000 plantas” que o rodeiam todos os dias.

Há espaço para uma vida (mais ou menos) social

Carlos Vaz Ferreira mora a dois minutos de carro da exploração agrícola que detém. Nunca se afasta dali por longos períodos de tempo — a plantação “exige mil e uma manutenções” que faz sozinho —, mas, nos raros fins-de-semana que tira, conta com a ajuda da família em Baião para assegurar os trabalhos.

“Realmente foi um pequeno choque social. De um momento para o outro percebes que não podes estar com os teus amigos todas as semanas, porque eles estão longe.” No início, todos “os amigos citadinos” estranharam a decisão: “O Carlos vai ser agricultor?!” “Eles sentem muita curiosidade sobre como é a vida de um jovem a cuidar de mirtilos”, ri-se, “bombardeiam-me com perguntas”.

A vida social que tinha durante a faculdade ou nos meses que viveu no Porto “mudou muito”; mas, ao mesmo tempo, também os amigos que tinha em Baião se mudaram para outras cidades ou emigraram. E ele voltou. Terá “sempre as redes sociais”, das quais é adepto, brinca, mas “é um desafio”. “Muitas das vezes até gostavas de sair do teu local de trabalho e ir beber uma cerveja, com amigos, mas não podes.”

Teve de descobrir outras rotinas. “Hoje em dia, sinto também uma alegria imensa quando vou sozinho para o meio da montanha fotografar paisagens”, conta. “E gosto de partilhar essas paisagens [nas redes sociais], porque realmente o que me rodeia é fantástico.”

Organiza o dia “pelo clima”. Se o dia for solarengo, como aquele que estava quando o P3 visitou a Quinta das Águas Mortas, acorda às 7h e vai para o campo. Com o calor a aumentar, refugia-se em casa, cozinha o próprio almoço, faz scroll pelas redes sociais ou vê televisão e, ao final do dia, volta para o campo. Andar ao sol com mais de 40 graus é “impensável”, mas “já aconteceu”. “Lá está, quando tem de ser, tem de ser.” Na agricultura não pode haver “procrastinação”. Ganha-se responsabilidade: “Não podemos adiar o que tem de ser feito”.

A longo prazo não quer voltar para a cidade. Está realizado profissionalmente. “E explico porquê: dá-me um gozo tremendo fazer o que faço e a cada dia aprender um pouco mais e, acima de tudo, ver que tenho o rendimento que quero disso”, diz. “O mirtilo é um fruto bem cotado no mercado” — Carlos vende a quatro euros por quilograma, com entregas gratuitas no Porto e Vila Real —, o que faz com que “não tenha de ter um segundo emprego”. No entanto, realça que “na agricultura nunca se sabe o dia de amanhã”. E esta incerteza está sempre a pairar sobre a plantação: “Estamos sempre sujeitos às alterações climáticas que podem estragar isto tudo, quase de um momento para o outro.”

Uma fotografia partilhada no Instagram, tirada na Serra do Marão Carlos vaz ferreira

Carlos lamenta que o interior caia “sempre no esquecimento”, que “não exista o investimento público necessário” e, por isso, que pouca gente oriente as aventuras pessoais e profissionais nesta direcção. “As pessoas esquecem-se do que é beleza, do que é ser saudável e de como é estar rodeado de natureza. Se quero a cidade estou a 20 minutos da auto-estrada, a 40 minutos do Porto, a meia hora de Vila Real”, enumera. “No mesmo dia, consigo ser tanto rapaz da aldeia, como rapaz da cidade.”

A escolha dos mirtilos

Segundo os dados mais recentes do Ministério da Agricultura, enviados, por email ao P3, a “fruticultura é a fileira que recebe a maior fatia de apoios” no que respeita “à medida 3.2.1. Investimento na Exploração Agrícola, específica e exclusivamente destinada a apoiar Jovens Agricultores”, do PDR2020 (que sucedeu ao Proder). Isto traduz-se para num “investimento elegível no montante de 235 milhões de euros, correspondentes a 41% do total (576 milhões de euros)” dos apoios comunitários disponíveis para esta tipologia de exploração.

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A aposta nos pequenos frutos, como o mirtilo, “traduziu-se, para já, em 475 projectos aprovados, que representam um investimento elegível de 76 milhões de euros” (13% do total). Em segundo lugar, surge a pecuária e em terceiro a horticultura. Até 30 de Junho foram “apresentadas 7.473 candidaturas”, no âmbito desta medida, e “encontram-se já aprovadas 2.935”.

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