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 -  08-09-2009

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Decisões adiadas não beneficiam sector
A Lisboa e Bruxelas exige-se uma nova atitude

Reuniu-se ontem, de forma extraordinária, em Bruxelas, o Conselho de Ministros da Agricultura da UE, para, quase exclusivamente, avaliar a crise que atravessa a fileira do leite em todo a Europa. Esta reunião foi precedida da divulgação, a 22 de Julho, de um relatório sobre a situação actual do mercado do leite e dos produtos lácteos, elaborado pela Comissão Europeia.

Tal como era já previsível face ao distanciamento de posições entre os diversos Estados-membro, esta reunião não fez mais do que adiar, para a próximo Conselho, agendado para 28 de Setembro, um conjunto de decisões que visam, supostamente, atacar a crise em que a fileira do leite se encontra mergulhada.

No entanto, mais do que atacar os problemas do mercado, desta reunião resulta evidente - mesmo neste cenário de forte depressão sectorial - a manutenção da teimosia liberalizadora da Comissão Europeia e, muito em especial, da responsável pela área da Agricultura, Mariann Fischer Boël, sendo surpreendente a incapacidade dos ministros europeus da Agricultura lhe fazerem frente.

A posição nacional nesta matéria caracterizou-se, ao longo dos últimos dois anos por inúmeros zigueagues, geralmente adoptando um discurso de empenhamento na defesa dos interesses da fileira nacional junto de Bruxelas, mas que, na generalidade dos momentos críticos assumiu posições próximas da estratégia da Comissária Fischer Boël (por exemplo no aumento intercalar das quotas ou nas decisões no quadro do 'health check' da PAC). A política nacional para o sector, inequivocamente desastrosa, e a relação de distanciamento permanente para com as organizações mais representativas do sector, são duas provas mais da incoerência que marcou a generalidade daquelas posições públicas para "consumo interno".

Apesar disso, algumas das propostas discutidas no Conselho de Ministros da Agricultura de ontem:

Aumento das ajudas de minimis aos produtores de 7.500 para 15.000 euros

Aumento dos preços de intervenção para a manteiga e o leite em pó desnatado

Não concretização do aumento de quotas leiteiras (mais 1%) previsto para a campanha 2010/2011

Implementação de um esquema de rotulagem (voluntário?) relativo à origem para o leite

todas aparentemente com o apoio da delegação portuguesa (como diz o povo "mais vale tarde do que nunca"), parecem ir no bom sentido, muito embora, nada garanta que as mesmas venham a ser adoptadas na reunião de 28 de Setembro.

O aumento das ajudas de minimis refere-se à esfera das ajudas nacionais, não tem implicações orçamentais para Bruxelas e deverá ser aprovado com alguma facilidade, pois, entre outros motivos, permite à Comissão anunciar medidas com impacto no rendimento dos produtores sem custos adicionais. No entanto, trata-se de uma nacionalização da solução para um problema de origem marcadamente comunitária, para além de significar, em termos relativos, um esforço totalmente distinto de país para país, face à realidade económica dos diferentes Estados-membro.

Também a proposta relativa a um esquema de rotulagem da origem parece colher simpatia política. Refira-se que, ao contrário do afirmado ontem pelo Sr. Ministro, o leite e os diversos produtos lácteos possuem esquemas de rotulagem rigorosos e exaustivos, que entre aspectos, incluem a aposição da chamada 'marca de identificação', marca que nos permite reconhecer - embora de forma codificada - a unidade industrial onde o produto foi fabricado. Para além disso, esses esquemas de rotulagem de origem, muito embora de cariz voluntário, já hoje existem (Leite 100% Português, Lacticínios dos Açores, produtos com denominação de origem protegida) e são garantidos por sistemas de rastreabilidade adequados.

Já no que se refere aos aumentos dos preços de intervenção e, muito em especial, relativamente à suspensão do aumento de quotas previsto para a campanha leiteira 2010/2011 (que se inicia a 1 de Abril próximo), consideramos que - não obstante o amplo apoio (16 Estados-membros em relação à primeira daquela propostas) - essas propostas dificilmente serão adoptadas pelo Conselho. Infelizmente, e não obstante os sucessivos alertas das organizações do sector, Portugal - tal como outros países - não assumiu, nos momentos devidos, as posições que possibilitariam hoje possuir um conjunto de ferramentas que permitiriam atacar, com muito maior probabilidade de sucesso, a crise que o sector atravessa

Como é do conhecimento geral, a fileira do leite em Portugal, a exemplo aliás do que se verifica noutros países comunitários, atravessa uma das mais graves crises de que há memória. Aos problemas do escoamento da matéria-prima nacional, resultado da quebra do consumo e do forte impulso das importações, adiciona-se, com crescente acuidade, a quebra da rentabilidade de toda a fileira, consequência daqueles problemas de escoamento, mas também e de forma muito significativa, do comportamento comercial de algumas das principais cadeias de distribuição a operar no nosso país, que com as suas políticas de preços, estão a destruir a quase totalidade do valor gerado ao longo da fileira.

Gostaríamos de salientar o forte empenhamento de todas as empresas do sector de lacticínios em colaborar com o "Estudo sobre as relações comerciais fornecedores/distribuidores de produtos alimentares e de consumo corrente", que está a ser desenvolvido pela Autoridade da Concorrência e do qual, esperamos, resultem acções que contribuam para uma melhor e mais transparente relação entre as empresas do sector e as principais cadeias de distribuição a operar no nosso país.

Ao invés e não obstante termos tomado conhecimento de declarações pública nesse sentido, informamos desconhecer em absoluto quaisquer resultados relativos às averiguações levadas a cabo pela ASAE relativamente à qualidade do leite importado e ao cumprimento das regras de mercado relativamente aos preços de venda ao público respectivos.

Uma nota ainda para referir a publicação, ontem, do diploma que altera as condições aplicáveis aos produtores e empresas da fileira do leite no âmbito da linha de crédito dirigida às empresas do sector agrícola e pecuário e do sector florestal e às agro-indústrias, diploma que havia sido aprovado em Conselho de Ministros em 16 de Julho. Saudamos, obviamente, esta alteração, mas recordamos que - face ao cenário de crise que atravessa todo o sector - a decisão adoptada deveria ter sido um pouco mais ambiciosa (especialmente no que se refere aos prazos de liquidação dos empréstimos), impedindo que o serviço da dívida se torne como um foco mais de tensão sobre a estrutura económica das empresas.

Finalmente, gostaríamos de referir que quando rapidamente se aproxima um novo ciclo eleitoral, a atenção dada ao sector agrícola e à fileira do leite tem sido bastante mais significativa do que é habitual, por razões que se compreendem, mas também de algum oportunismo político. Esperamos, no entanto, que essa atenção não se limite a fins meramente eleitoralistas e que, quaisquer que sejam os resultados do acto eleitoral de 27 de Setembro, Governo e oposição se empenhem em escolher as pessoas mais capazes e em assumir uma diferente atitude e uma relação mais franca e transparente com o sector, ao longo de toda a próxima legislatura.

Porto, 08 de Setembro de 2009

A Direcção da ANIL


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Fonte:  ANIL

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