As
dificuldades em preencher as vagas oferecidas aos candidatos ao ensino superior
em geral, e em particular no ensino das ciências agrárias, obrigar-nos-ão
certamente a reflectir sobre o tipo de ensino necessário para o novo milénio e
quais as implicações sobre os actuais planos de estudo.
Esta
realidade traz desde já duas preocupações acrescidas que serão necessárias
ultrapassar, antecedendo qualquer análise pedagógico-científico: as
necessidades e tipo de formação superior que o mercado necessita e o modo de
financiamento.
Admite-se,
face à evolução da agricultura portuguesa e conhecimento do mercado, a
necessidade de existência de dois graus distintos: bacharel e licenciado. A
atribuição do primeiro destes graus garantiria “o saber fazer”, podendo
ocupar lugares especializados nas empresas ligadas à actividade agrária cujas
exigências são cada vez mais elevadas, enquanto ao licenciado reconheceríamos
a competência para o planeamento, o ordenamento e a investigação/experimentação,
funções claramente incluídas no âmbito das engenharias.
Estes
objectivos, tão diferenciados, dificilmente são conseguidos numa licenciatura
que integra os graus anteriores, designados entre nós por bi-etápicas, de modo
a que os formandos acumulem a totalidade das competências enunciadas
anteriormente e satisfaçam as exigências de mercado.
Por
outro lado, face à evolução da agricultura portuguesa, sente-se a falta de técnicos
do “saber fazer”, enquanto a formação de licenciados corre o risco de
ultrapassar as necessidades do País.
Tanto
num caso como noutro, são cursos de custos elevados pois exigem a realização
de trabalhos práticos com equipamentos onerosos. Por outro lado o “quadro
preto” imprescindível para qualquer tipo de ensino é no caso presente
substituído pelo “campo agrícola”, sobrecarregando deste modo o orçamento.
Para
cursos que são na sua quase totalidade financiados pelo estado, a lei de
financiamento do ensino superior influencia de modo decisivo o tipo de ensino.
Esta lei, com vista ao futuro, tendo em atenção a remodelação do ensino
superior agrícola, apresenta desde já duas deficiências que é preciso
ultrapassar. A primeira refere-se à base de determinação que passa pelo número
de alunos inscritos, que face à sua redução previsível afecta fortemente o
orçamento final, enquanto a segunda diz respeito à dificuldade em implementar
um ensino de qualidade, quando até ao momento a orientação apontava
claramente para a massificação do mesmo. Estou pois em crer, que as remodelações
necessárias exigem um acréscimo orçamental, quer venha da parte do Estado
quer através do reforço das receitas próprias.
Ultrapassadas
estas dificuldades, entramos no capítulo padagógico-científico, onde nos
limitaremos a apontar cinco grandes princípios orientadores nos quais devem
assentar os planos de estudo:
Cursos
de base larga ao nível da graduação (bacharel e licenciatura), deixando
as especializações para os cursos de pós-graduação:
As
matérias a leccionar devem ter em atenção os programas do ensino secundário.
Os
cursos de bacharel devem ter as seguintes características:
duração:
2 anos (4200 horas)
semestre:
15 semanas efectivas de aula
número
máximo de disciplinas semestrais e ou anuais: 5
horas
semanais: 35 horas de aulas
tipo
de aulas: - 2 h
teóricas
- 3 h práticas - 2 h
trabalhos de campo
Os
cursos de licenciatura em engenharia devem ter as seguintes características:
duração:
5 anos
semestre:
15 semanas efectivas de aulas
número
máximo de disciplinas: 5
horas
semanais: 25 horas
tipo
de aulas:
- 3 h teóricas
- 2 h práticas
Cursos
de especialização (pós-graduação) com a duração de 30 a 60 horas.
Provavelmente
levantámos os problemas que neste momento podem condicionar o futuro do ensino
agrícola em Portugal: tipo de ensino, financiamento e planos de estudo, que
divergem claramente em relação à situação actual. Não nos parece contudo
que uma mera opinião individual possa introduzir alterações significativas
como as que são sugeridas, sendo necessário que os Conselhos Científicos
tenham a consciência da situação, oiçam as forças empregadoras e tomem a
iniciativa de introduzir as reformas convenientes de acordo com as necessidades
do país, pois de contrário correm o risco de não terem alunos.